‘The Pitt’: o machismo de Robby é um arco ou um defeito de roteiro?

O episódio 10 de The Pitt temporada 2 expõe um padrão de tratamento desigual do Dr. Robby com colegas mulheres. Analisamos se isso é construção intencional de arco dramático ou falha de roteiro — e por que a série precisa se posicionar antes que seja tarde demais.

Há um momento no episódio 10 de The Pitt temporada 2 que funciona como uma facada no espectador desatento. Robby, o médico que construímos mentalmente como ‘o bom cara’, olha para uma colega em crise de pânico e diz que ela tem ‘mommy issues’. Não é um deslize. Não é um momento de estresse que qualquer um teria. É a confirmação de algo que a série vinha sussurrando desde a primeira temporada: o Dr. Robinavitch trata mulheres diferente de homens. A pergunta que fica não é se ele é sexista — isso ficou claro. É: os roteiristas estão fazendo isso de propósito?

Separar duas questões é fundamental antes de prosseguir. Uma coisa é perguntar se Robby é um personagem machista. Outra, muito mais complexa, é perguntar se esse machismo é uma construção deliberada de um arco dramático — ou se é uma falha da sala de roteiristas que se manifesta através do personagem. A primeira pergunta tem resposta fácil: sim, os fatos na tela não mentem. A segunda é onde a análise fica interessante.

O que o episódio 10 torna impossível de ignorar

O que o episódio 10 torna impossível de ignorar

A cena com Dr. Mohan é brutal de uma forma que The Pitt raramente foi. Mohan sofre um ataque de pânico legítimo — ligação da mãe, pressão sobre o futuro da carreira, o caos de uma emergência lotada. Em vez de empatia, Robby oferece humilhação pública. ‘Mommy issues’ não é frase que ele diria para Whitaker. Não é frase que ele diria para Santos, homem ou mulher. É frase que ele diria para uma mulher vulnerável no momento em que ela está mais exposta.

O que realmente expõe o padrão é o que vem depois. Quando Dr. Al-Hashimi confronta Robby sobre o tratamento de Mohan, ele não pede desculpas. Não reflete. Dobra a aposta: diz que teria mais empatia se achasse que a emergência ficaria em ‘mãos mais capazes’. A implicação é clara — e claramente generizada. Al-Hashimi não é incompetente. Mas Robby a trata como se fosse.

O contraste com Whitaker torna tudo explícito. Whitaker, o estudante masculino, pode ter um relacionamento duvidoso com ex-paciente e Robby mal levanta a sobrancelha. Se Santos tivesse feito o mesmo, a reação seria um escândalo. A diferença de standards é gritante.

Arco de personagem ou buraco no roteiro?

Aqui entra a pergunta central. Existem duas formas de ler o sexismo de Robby, e cada uma implica algo diferente sobre a qualidade da série.

A primeira leitura: isso é arco intencional. Os roteiristas — liderados por R. Scott Gemmill, criador do show — estão construindo um personagem complexo cujas falhas se revelam gradualmente. Robby é empático com pacientes, protetor com sua equipe, ‘um bom cara’ — mas também é produto de uma cultura médica hierárquica e machista. Seu sexismo não é vilania de cartola; é o tipo de preconceito que homens ‘bons’ carregam sem admitir. Nessa leitura, a série está fazendo algo corajoso: mostrar que gente decente pode ter viés de gênero enraizado.

A segunda leitura: isso é inconsistência de escrita. A sala de roteiristas não percebeu que estava construindo um padrão discriminatório. As cenas de Robby sendo duro com mulheres foram escritas como ‘ele é um chefe exigente’, enquanto cenas equivalentes com homens foram escritas como ‘ele é um mentor’. O resultado é um personagem cujo sexismo não é tematizado pela série — é acidental.

Como diferenciar? A resposta está em como a narrativa lida com o problema. Se The Pitt está conscientemente construindo um arco sobre sexismo, devemos ver consequências. Robby deve ser confrontado. Suas falhas devem ter peso narrativo. Se, por outro lado, o sexismo continua sem endereçamento, sem reflexão, sem custo para o personagem, então é provável que seja falha, não feature.

O agravante da saúde mental deteriorada

O agravante da saúde mental deteriorada

Uma leitura simpática ao personagem sugere que seu sexismo está piorando porque sua saúde mental está em colapso. A temporada 2 coloca Robby em um turno brutal — sistemas caídos, emergência lotada, pressão acumulada. Na temporada 1, vimos ele explodir com uma mãe antivacinas após o trauma do tiroteio. Agora, sem um alvo externo conveniente, ele desconta em quem está por perto: suas colegas mulheres.

Isso é explicação, não desculpa. Pessoas em crise revelam quem são sob pressão. Se o viés de Robby emerge quando ele está estressado, é porque o viés existe. O estresse não cria preconceito — remove os filtros sociais que normalmente o escondem.

Mais importante: a série precisa decidir se isso é tema ou acidente. Se Robby está ‘spiraling’, pensando em suicídio ou em não voltar, então seu comportamento tóxico com mulheres é parte de um quadro maior de deterioração. Mas deterioração de quem? De um homem que precisa de ajuda psiquiátrica, ou de um personagem cujos defeitos estruturais estão sendo expostos?

O que Langdon revela sobre o padrão

O caso de Dr. Langdon é iluminador. Langdon quebrou a confiança de Robby, abusou de drogas, cometeu um crime. Dez meses depois, está de volta. Recebeu o tratamento de ‘cara que fodeu mas é um de nós’.

Agora imagine se McKay tivesse feito o mesmo. Se ela tivesse roubado remédios, traído a confiança do hospital. Estaria de volta após dez meses? Ou estaria presa, como Santos apontou no episódio?

O padrão é consistente: homens recebem segundas chances, mulheres recebem escrutínio constante. Whitaker tem um ‘golden boy status’ que Mohan ou McKay nunca terão. Langdon pode ser um criminoso e ainda ser tratado com mais respeito do que Al-Hashimi recebendo por ser competente — mas mulher.

Veredito provisório: a série precisa escolher

Depois de analisar os elementos, minha leitura é que The Pitt está em um território perigoso. O sexismo de Robby é real, documentado, e se tornou explícito no episódio 10. Mas a série ainda não sinalizou claramente se isso é arco intencional ou falha de escrita.

O problema não é ter um personagem sexista. Personagens falhos são interessantes. O problema é ter um personagem sexista tratado pela narrativa como ‘o bom cara’ sem que seu sexismo seja tematizado. Se os roteiristas querem que Robby tenha esse arco, precisam comprometer-se com ele. Confrontos devem ter consequências. Mulheres da trama devem ter espaço para responder. O público deve ser convidado a refletir, não apenas a testemunhar.

Se isso não acontecer, se o sexismo continuar como uma ‘feature acidental’ do personagem, então The Pitt terá um problema real. Não porque personagens devem ser moralmente perfeitos, mas porque narrativas devem ser conscientes do que estão dizendo. E, no momento, o que a série está dizendo — intencionalmente ou não — é que homens podem ser duros com mulheres e ainda serem os heróis da história.

Fica a pergunta para os próximos episódios: a série vai encarar o que criou, ou vai deixar Robby continuar sendo ‘o bom cara’ enquanto trata metade de sua equipe como cidadãs de segunda classe?

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Perguntas Frequentes sobre The Pitt

Onde assistir The Pitt?

The Pitt está disponível exclusivamente na Max (HBO Max). A primeira temporada completa e os episódios da segunda temporada são lançados semanalmente na plataforma.

Quantos episódios tem The Pitt temporada 2?

A segunda temporada de The Pitt tem 15 episódios. Assim como a primeira temporada, cada episódio cobre uma hora de um turno de emergência em tempo real.

Quem interpreta Dr. Robby em The Pitt?

Dr. Michael ‘Robby’ Robinavitch é interpretado por Noah Wyle, conhecido por seu papel como Dr. John Carter em ER (Plantão Médico). Wyle também é produtor executivo da série.

The Pitt é renovada para temporada 3?

Sim, The Pitt foi renovada para uma terceira temporada antes mesmo da estreência da segunda. A série tem sido um dos maiores sucessos originais da Max.

Qual é o formato narrativo de The Pitt?

The Pitt usa um formato de tempo real: cada episódio representa uma hora de um turno de 15 horas na emergência. Isso cria uma sensação de urgência e continuidade rara em séries médicas.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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