A ‘The Passage’ série foi cancelada após 10 episódios porque adaptou a trilogia de Justin Cronin como uma simples fuga pós-apocalíptica, ignorando seu diferencial: três linhas temporais e mil anos de consequências. Aqui, explicamos o erro estrutural e como uma nova adaptação poderia usar o tempo como personagem desde o piloto.
Em 2019, a Fox lançou uma série que, no papel, parecia impossível de errar: best-seller de Justin Cronin, horror sci-fi em alta e uma premissa que mistura apocalipse viral com “vampiros” de laboratório. Mas ‘The Passage’ série errou no fundamento: tratou o que torna a trilogia singular — a escala de tempo — como um detalhe para “depois”. Dez episódios (e um cancelamento) mais tarde, a sensação era cruel: a adaptação gastou uma temporada inteira no prólogo e chamou isso de história.
O drama não é que a Fox tenha cancelado uma boa série. É que ela cancelou uma série antes de chegar ao seu verdadeiro diferencial: quando Cronin deixa de contar só um surto e passa a contar como civilizações inteiras se reorganizam ao redor desse surto, por séculos — e, depois, por mil anos.
O erro estrutural: adaptar a trilogia como se fosse “mais uma série de fuga”
Em termos de produção e casting, havia muito do que funciona. Mark-Paul Gosselaar entrega um Brad Wolgast convincente — cansado, duro, mas não cínico demais para virar caricatura. Saniyya Sidney faz de Amy Bellafonte algo raro em TV de gênero: uma criança que não existe só como “gatilho emocional”, mas como presença que muda a temperatura das cenas. E o design dos virais escolhe o caminho certo: nada de glamour; é um horror físico, seco, mais próximo de contaminação do que de sedução.
O problema é o “sobre o que” da série. A temporada inteira insiste no eixo: fuga das instalações do Projeto Noah, perseguição, corre, esconde, escapa. Isso é funcional como suspense semanal — e é justamente por isso que é tão fácil de confundir com dezenas de outras narrativas pós-apocalípticas. Nos livros, esse arco existe, mas ele é porta de entrada. Cronin está interessado naquilo que a TV quase nunca tem coragem de tratar como protagonista: tempo.
A trilogia opera em planos temporais que mudam o sentido do que você acabou de ver: o “agora” do surto e do experimento; um salto grande (quando o mundo já é ruína e as regras são outras); e um futuro distante em que as sobras do presente viram mito, religião, sistema de governo. É por isso que a adaptação de 2019 soa “pequena”: ela encena o primeiro ato como se fosse uma história completa, quando, na verdade, é a preparação de um épico.
O salto no final não é cliffhanger — é confirmação de que a série ficou presa no prólogo
O finale faz um salto temporal e mostra Amy despertando em um futuro distante. Em tese, esse deveria ser o momento de virada — o “agora começou”. Na prática, o efeito é o oposto, por um motivo simples: o público não foi treinado para entender que o tempo é a peça central. A temporada vendeu uma história de perseguição; no último minuto, tenta vender uma saga civilizacional.
Para quem leu Cronin, o incômodo é quase matemático: dez episódios cobrem só o trecho que, na trilogia, funciona como combustão inicial. Para quem não leu, o salto parece um final apressado e esquisito — não porque “é confuso”, mas porque a própria temporada não preparou o espectador para a mudança de escala. Não é mistério bem plantado; é mudança de contrato.
Quando o orçamento exige audiência imediata, a paciência vira risco
Também existe uma verdade industrial que a série não conseguiu contornar: sci-fi caro não recebe muita margem para “um dia vocês vão entender”. Cada aparição dos virais cobra maquiagem pesada, efeitos e tempo de set; qualquer expansão real do mundo pós-colapso encarece ainda mais. ‘The Passage’ teve um caminho tortuoso (já foi pensado como filme), e isso aparece no resultado: o material inicial tem cara de trama que caberia em duas horas, mas é esticado para preencher uma temporada — e, ao mesmo tempo, não chega ao que justificaria esse alongamento.
A audiência caiu e o cancelamento veio. A ironia é que a série falhou por não chegar “rápido” ao que a diferenciaria — mas também não podia acelerar sem vender a relação Brad/Amy, que é o motor emocional de tudo. Só que, no formato network (mesmo com 10 episódios), esse tipo de construção precisa entregar uma promessa clara de destino. E ‘The Passage’ não entregou.
A comparação com ‘The Last of Us’ ajuda não pelo tema (também é apocalipse), mas pela clareza de condução: você sente que cada episódio está indo para um lugar, mesmo quando “nada acontece”. Em ‘The Passage’, por muito tempo o que se sente é outra coisa: que a série está evitando o salto que a tornaria única — como se tivesse medo de assustar o espectador com ambição.
Como uma nova adaptação pode acertar: tempo como personagem desde o piloto
Uma nova versão não deveria “começar devagar e acelerar depois”. Isso repete o erro. A trilogia pede que a série declare, desde o primeiro episódio, que está contando uma história longa — onde decisões pequenas viram dogmas e onde traumas viram mito.
A solução mais honesta (e mais televisiva) é estrutural: intercalar temporalidades desde o início. Não como truque de quebra-cabeça, mas como linguagem. O “agora” do Projeto Noah precisa existir em diálogo com o “depois” — com a Colônia e com o futuro distante em que Amy vira símbolo. Não é spoiler; é promessa. O espectador entende que há uma arquitetura maior e, portanto, suporta melhor a contenção do presente.
Além disso, o lar dessa história não é a lógica de rede aberta. Ela pede streamer (ou canal premium) disposto a sustentar uma saga e um plano de múltiplas temporadas — não só por orçamento, mas por pacto narrativo. ‘The Passage’ é menos “série de gênero com conceito legal” e mais “épico pós-apocalíptico sobre formação de mitologias”. E isso exige planejamento de longo prazo visível na tela.
Veredito: a Fox ignorou o que ‘The Passage’ tem de mais raro
Revisitar ‘The Passage’ hoje é perceber um potencial desperdiçado em tempo real. Há um bom elenco, há atmosfera, há um horror corporal eficiente. Mas falta o que os livros têm de inesquecível: a sensação de que você está assistindo a uma história que atravessa eras, não só a uma fuga.
Os romances continuam sendo a melhor versão dessa experiência — justamente por tratarem o tempo não como “salto”, mas como tema. A série de 2019 fica como alerta editorial para qualquer adaptação grande demais para caber no molde: algumas histórias não pedem só orçamento. Pedem coragem de deixar claro, cedo, que o que está em jogo não é sobreviver ao dia — é o que vai existir depois do dia, por cem anos, por mil anos. E isso a Fox, claramente, não quis (ou não pôde) bancar.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Passage’ (série)
Quantos episódios tem ‘The Passage’ (série) e por que foi cancelada?
‘The Passage’ teve 1 temporada com 10 episódios e foi cancelada em 2019 após baixa audiência. O principal problema foi estrutural: a temporada ficou presa no prólogo da trilogia e não chegou ao arco temporal que diferencia os livros.
A série ‘The Passage’ adapta quantos livros de Justin Cronin?
A 1ª temporada adapta apenas o começo do primeiro livro, ‘The Passage’ (2010). A trilogia completa inclui também ‘The Twelve’ (2012) e ‘The City of Mirrors’ (2016), que a série não chegou a cobrir.
Preciso ler os livros para entender ‘The Passage’ (série)?
Não, a temporada é compreensível por conta própria, mas termina sem desenvolver o coração da saga. Ler o primeiro livro ajuda principalmente a entender por que o salto temporal é central e o que a história “promete” depois do prólogo.
Em que ano se passa ‘The Passage’ e por que o tempo é tão importante?
A série começa no “presente” do surto ligado ao Projeto Noah, mas a trilogia trabalha com grandes saltos (séculos e até milênios). Esse recorte temporal muda o tema: não é só sobreviver, e sim como sociedades, mitos e religiões nascem a partir do colapso.
Vale a pena ver ‘The Passage’ hoje ou é melhor ir direto aos livros?
Vale se você gosta de thrillers de laboratório e da dinâmica Brad/Amy, mas saiba que a série termina justamente quando a saga começaria a ficar única. Para experimentar o conceito completo (com os saltos de tempo e a reconstrução civilizacional), os livros entregam muito mais.

