‘The OA’: por que o final frustrante não tira o brilho da melhor sci-fi da Netflix

The OA foi cancelada pela Netflix antes de seu plano de cinco temporadas se completar. Analisamos por que essa obra incompleta ainda é essencial, como o risco narrativo de Brit Marling e Zal Batmanglij cria uma experiência única, e por que a ausência de final tradicional não invalida a jornada.

Existe um tipo específico de frustração que só obras incompletas provocam. Não é raiva, não é decepção — é algo mais parecido com luto. Você sabe que aquela história nunca vai terminar, mas também sabe que o que existe dela é demasiado valioso para ser descartado. The OA Netflix encarna essa experiência agridoce como poucas séries na história da televisão: uma produção visionária que foi interrompida no auge de sua ambição, deixando um vácuo que nenhuma outra obra preencheu.

Quando a Netflix cancelou a série de Brit Marling e Zal Batmanglij em 2019, a reação foi imediata e visceral. Fãs organizaram protestos frente aos escritórios da plataforma — imagens de pessoas realizando os ‘movimentos’ da série nas calçadas viraram símbolo da revolta. O elenco expressou publicamente sua decepção. Sete anos depois, a ferida ainda não cicatrizou completamente. Mas aqui está o paradoxo que vou defender: o fato de The OA não ter um final tradicional não a torna menos essencial. Pelo contrário — é justamente sua disposição em correr riscos narrativos extremos que a torna indispensável, mesmo incompleta.

Os primeiros cinco minutos que estabelecem um contrato com o espectador

Os primeiros cinco minutos que estabelecem um contrato com o espectador

The OA começa com uma premissa que parece simples demais para uma produção Netflix: uma mulher cega desaparecida há sete anos retorna à sua cidade natal com a visão restaurada. Em cinco minutos, porém, a série revela suas verdadeiras intenções. Não estamos aqui para uma narrativa convencional sobre milagres ou trauma — estamos aqui para questionar a própria natureza da realidade.

O que segue é uma construção narrativa em camadas. Prairie Johnson (Marling) reúne cinco pessoas — um professor de ciências, uma professora de psicologia, três adolescentes marginalizados e um criminoso — para contar sua história. Ela precisa que eles a ouçam. Precisa que acreditem. E, crucialmente, precisa que aprendam ‘os movimentos’ — uma coreografia ritualística que, segundo a mitologia da série, permite viajar entre dimensões.

Ao estabelecer essa estrutura de narrativa dentro de narrativa, The OA cria algo que poucas séries ousam: um contrato de confiança com o espectador. Estamos sendo convidados a acreditar no implausível junto com os personagens. E quando, no final da primeira temporada, a série subverte esse contrato de forma brusca e controversa, ela demonstra que não tem interesse em jogar seguro.

Por que The OA é mais sci-fi espiritual do que ficção científica tradicional

Categorizar The OA como ‘sci-fi’ é simultaneamente correto e redutor. A série opera no espaço onde ficção científica encontra espiritualidade, onde física quântica encontra filosofia gnóstica, onde o cientificamente verificável colide com o misticamente inexplicável. É essa mistura que a torna única no catálogo da Netflix.

Enquanto Stranger Things se apoia em referências nostálgicas e mitologia de terror dos anos 80, e Black Mirror constrói parábolas tecnológicas autocontidas, The OA propõe algo mais ambicioso: uma cosmologia completa. As experiências de quase-morte (NDEs) que os personagens atravessam não são apenas dispositivos de enredo — são portas para questões existenciais genuínas. O que acontece quando morremos? É possível que a consciência transite entre realidades paralelas? Qual é nosso lugar no universo?

A série não oferece respostas fáceis. Na verdade, frequentemente parece desinteressada em responder suas próprias perguntas. E isso, que poderia ser uma falha, torna-se uma de suas maiores qualidades. Em uma era de conteúdo que explica demais, que segura mão do espectador a cada passo, The OA confia que sua audiência é inteligente o suficiente para conviver com ambiguidade.

O cliffhanger que transformou cancelamento em tragédia artística

O cliffhanger que transformou cancelamento em tragédia artística

O final da segunda temporada de The OA é um dos momentos mais audaciosos que já vi em televisão. Prairie e seus companheiros atravessam para outra dimensão — e descobrem que estão em um set de filmagem. Eles quebram a quarta parede. A câmera os mostra como atores em uma produção. A linha entre ficção e realidade, já borrada durante toda a série, dissolve-se completamente.

É um momento que exige uma terceira temporada para ser processado adequadamente. Os criadores tinham um plano de cinco temporadas mapeado. A mitologia estava construída para expandir-se em direções que mal conseguimos imaginar. E então, silenciosamente, a Netflix encerrou tudo.

Segundo reportagens da época, o cancelamento foi uma decisão de custo-benefício. The OA era cara de produzir — cenários elaborados em múltiplas dimensões, efeitos visuais complexos, filmagens em locações que variavam de Nova York à Islândia. E, apesar de uma base de fãs apaixonada, os números de audiência não justificavam o investimento. É uma realidade pragmática da era do streaming que colide brutalmente com a ambição artística.

Mas aqui está o que torna essa tragédia peculiar: o cliffhanger, embora não intencional como final, funciona como uma espécie de conclusão temática perfeita. A série sempre foi sobre a natureza da realidade, sobre histórias que contamos a nós mesmos, sobre a possibilidade de que tudo o que vivemos seja uma camada de algo maior. Terminar em um momento que questiona explicitamente o que é ‘real’ e o que é ‘encenação’ é, acidentalmente, poético.

A experiência agridoce de amar algo que nunca vai terminar

Assistir The OA em 2026 é uma experiência fundamentalmente diferente de assisti-la em 2016. Você sabe que não há continuação. Sabe que as perguntas não terão respostas. Sabe que os fios soltos permanecerão soltos para sempre. E, paradoxalmente, esse conhecimento pode enriquecer — não diminuir — a experiência.

Há algo de libertador em consumir uma obra sem a expectativa de resolução. Você para de assistir pelo ‘o que acontece depois’ e começa a assistir pelo ‘o que isso significa agora’. Cada cena ganha peso próprio. Cada diálogo filosófico deixa de ser setup para payoff futuro e torna-se momento autossuficiente de reflexão.

Não estou dizendo que o cancelamento foi bom. Estou dizendo que a obra que existe — duas temporadas de televisão tão original e ambiciosa quanto qualquer coisa produzida neste século — merece ser valorizada por si mesma. Rejeitá-la porque não termina é como recusar-se a apreciar uma sinfonia porque o compositor morreu antes de escrever o final. O que existe já é suficiente.

Como The OA se posiciona no (des)caminho sci-fi da Netflix

Como The OA se posiciona no (des)caminho sci-fi da Netflix

A Netflix produziu alguns sucessos monumentais de ficção científica. Stranger Things tornou-se fenômeno cultural global. Black Mirror, embora originário do Channel 4, encontrou na plataforma seu lar mais amplo. O Problema dos 3 Corpos dividiu opiniões mas demonstrou ambição. Mas nenhuma dessas produções arriscou tanto quanto The OA — e talvez seja exatamente por isso que ela nunca alcançou o mesmo sucesso mainstream.

Stranger Things é, em sua essência, confortável. Reúne referências que o público já ama e as combina com competência. Black Mirror oferece moralidades fechadas que podem ser consumidas em qualquer ordem. The OA, por contraste, exige compromisso. Exige que você aceite não entender. Exige que você se entregue a uma mitologia que se revela gradualmente, que muda as regras quando você acha que entendeu, que termina episódios com mais perguntas do que respostas.

É uma série feita para um tipo específico de espectador: aquele que valoriza a jornada mais que o destino, que prefere mistério a explicação, que aceita que a melhor arte frequentemente deixa cicatrizes. Esse público existe — os protestos pelo cancelamento provam — mas não é majoritário. E em uma economia de streaming que depende de números de massa, ser excelente para uma minoria não é suficiente.

Os criadores por trás da visão: Brit Marling e Zal Batmanglij

Entender The OA exige conhecer seus criadores. Brit Marling e Zal Batmanglij construíram uma parceria artística que começou muito antes da Netflix. Em ‘Another Earth’ (2011), já exploravam temas de realidades paralelas e identidade fragmentada. Em ‘Sound of My Voice’ (2011), testavam a ideia de narrativas dentro de narrativas, de personagens que podem ou não estar dizendo a verdade.

The OA é a culminação dessa parceria — um projeto que eles desenvolveram por anos, recusando propostas de estúdios que queriam simplificar a premissa. A série carrega a assinatura de ambos: diálogos que funcionam como meditação filosófica, mulheres como centros narrativos complexos, recusa em explicar o que pode ser sugerido. Jason Isaacs, que interpreta o perturbador Dr. Hap, disse em entrevistas que o roteiro era tão denso que os atores precisavam de sessões extras apenas para descompactar as camadas de cada cena.

Para quem The OA é essencial — e para quem não é

Vou ser direto: se você precisa de resolução, de respostas claras, de narrativas que se fecham em si mesmas, The OA vai te frustrar profundamente. O cancelamento não é o único motivo de frustração — a série foi construída para desafiar expectativas desde o primeiro episódio. Ela não tem interesse em ser agradável.

Mas se você consegue apreciar obras que funcionam como experiências em vez de produtos, que propõem perguntas em vez de oferecer certezas, que confiam na sua inteligência em vez de condescender — The OA é uma das melhores séries de ficção científica que você vai assistir. Incompleta, sim. Frustrante, absolutamente. Mas também singular, emocionalmente potente e artisticamente corajosa de uma forma que a maioria do conteúdo atual nem ousa tentar.

A Netflix cancelou The OA, mas não pode cancelar o que ela representa: a prova de que a televisão pode ser arte ambiciosa mesmo quando o mercado não tem paciência para isso. A experiência de assisti-la é agridoce, mas o gosto que permanece é de algo raro — uma obra que não se parece com nada que você viu antes, e que provavelmente não verá de novo.

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Perguntas Frequentes sobre The OA

Onde assistir The OA?

The OA está disponível exclusivamente na Netflix. É uma produção original da plataforma, lançada em 2016 (1ª temporada) e 2019 (2ª temporada).

Quantas temporadas tem The OA?

The OA tem 2 temporadas completas, com 8 episódios cada. A série foi cancelada em agosto de 2019, antes da produção da terceira temporada.

The OA tem final fechado?

Não. A segunda temporada termina em um cliffhanger que quebra a quarta parede, com os personagens descobrindo que estão em um set de filmagem. Os criadores planejavam cinco temporadas, então o final é intencionalmente aberto e inconclusivo.

Por que The OA foi cancelada?

Segundo reportagens, o cancelamento foi uma decisão de custo-benefício. A série tinha altos custos de produção (cenários elaborados, efeitos visuais, filmagens em múltiplas locações) e, apesar de uma base de fãs apaixonada, não atingiu números de audiência que justificassem o investimento.

Quem criou The OA?

The OA foi criada por Brit Marling (que também interpreta a protagonista Prairie Johnson) e Zal Batmanglij. A dupla já havia colaborado em filmes como ‘Another Earth’ e ‘Sound of My Voice’, desenvolvendo uma assinatura artística centrada em narrativas de realidades paralelas e identidade.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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