‘The Hunting Party’: por que a série rejeitada pela crítica explode na Netflix

Com 18% de aprovação crítica e 81% do público, ‘The Hunting Party’ expõe o abismo entre especialistas e espectadores na era do streaming. Analisamos por que a série da NBC explodiu na Netflix mesmo massacrada pela crítica — e o que isso diz sobre o fim do consenso cultural.

Há algo fascinante acontecendo com The Hunting Party. A série thriller da NBC chegou à Netflix em meados de fevereiro e, em menos de uma semana, já aparecia no Top 10 global da plataforma — 3,5 milhões de visualizações, 24,6 milhões de horas assistidas. Números respeitáveis para uma produção que carrega um dado constrangedor no currículo: apenas 18% de aprovação no Rotten Tomatoes por parte dos críticos especializados. Enquanto isso, o público deu 81% de aprovação. Oito em cada dez espectadores gostaram. Menos de dois em cada dez críticos concordam.

Não é comum ver esse tipo de dissonância. Quando a crítica massacrava uma obra, antigamente, isso significava algo. Hoje, a distância entre o que jornalistas de entretenimento pensam e o que o público consome se tornou um abismo — e ‘The Hunting Party’ é o caso mais extremo que vi recentemente.

O que ‘The Hunting Party’ propõe — e onde falha segundo a crítica

O que 'The Hunting Party' propõe — e onde falha segundo a crítica

A premissa é daquelas que fazem executivos de TV salivarem: uma prisão secreta no subsolo de Wyoming explode, liberando os piores serial killers do país. Uma equipe de elite — liderada por uma ex-profiler do FBI tirada da aposentadoria — precisa recapturá-los. Melissa Roxburgh, que já provou ter presença em ‘Manifest’, comanda o elenco. O material soa como ‘The Silence of the Lambs’ encontra ‘Prison Break’. No papel, é ouro.

Na prática, segundo as resenhas, a série tropeça onde mais precisaria brilhar. As críticas apontam um problema estrutural: a pressa. Em vez de construir tensão psicológica ou aprofundar a mente perturbadora de cada assassino, ‘The Hunting Party’ acelera pelo “caos dos serial killers” sem cuidado real. O resultado, na avaliação profissional, é mais um procedural esquecível entre dezenas de outros — uma promessa de thriller complexo que se contenta em ser um “caça ao monstro da semana”.

Há uma diferença fundamental entre um procedural competente e um procedural preguiçoso. O primeiro respeita a fórmula enquanto encontra formas de surpreender dentro dela — pense em ‘Law & Order: SVU’ em seus primeiros anos, ou ‘The Mentalist’ usando a estrutura de crime da semana para desenvolver uma mitologia maior. O segundo apenas preenche lacunas. Se ‘The Hunting Party’ pertence a essa segunda categoria, como sugerem os críticos, a reação negativa faz sentido.

Por que o público está assistindo mesmo assim

O quadro se torna mais interessante quando olhamos os dados completos. A série estreou na NBC em janeiro de 2025. A segunda temporada já está no ar desde 8 de janeiro de 2026. Isso significa que a NBC renovou uma série com 18% no Rotten Tomatoes — algo que, há dez anos, seria impensável. A explicação está nos números do público: 81% na primeira temporada, 82% na segunda. As pessoas estão voltando.

O que esses espectadores veem que os críticos não? Suspeito que seja uma questão de expectativas diferentes. Críticos avaliam obras dentro de um contexto histórico e artístico — comparam com o melhor que o gênero já produziu, exigem inovação, punem o derivativo. O público, em grande parte, quer algo mais simples: entretenimento funcional. Uma equipe caçando monstros, uma protagonista competente, tensão suficiente para justificar a próxima sessão. Não é sobre baixar o padrão — é sobre reconhecer que diferentes formatos servem a diferentes propósitos.

Procedurals de crime são o “comfort food” da televisão. Você sabe o que vai ter no prato. Sabe que vai satisfazer uma fome específica. Não espera inovação culinária, espera execução sólida. Se ‘The Hunting Party’ entrega isso — mesmo que sem brilho —, ela está cumprindo sua função para uma fatia considerável de espectadores.

O fenômeno do gap crítico-público na era do streaming

O fenômeno do gap crítico-público na era do streaming

Esse caso não é isolado. A era do streaming fragmentou o conceito de “qualidade”. Quando todos assistiam às mesmas redes abertas, o consenso crítico tinha mais peso — era a bússola cultural. Hoje, com algoritmos servindo conteúdo personalizado, o público vive em bolhas de gosto. Uma série pode ser massacrada pela crítica e ainda assim encontrar seu nicho fiel.

‘Yellowstone’ é talvez o exemplo mais famoso: ignorada pela crítica elitizada por anos, transformou-se em um dos maiores fenômenos de audiência da TV a cabo. ‘Emily in Paris’ foi ridicularizada por jornalistas mas gerou temporadas consecutivas e engajamento massivo. ‘The Hunting Party’ segue esse padrão — funciona para um público que busca exatamente o que ela oferece, independentemente do que a crítica pensa.

O posicionamento no Top 10 da Netflix também é revelador: a série está em sétimo lugar nos Estados Unidos, convive com ‘Bridgerton’ (4ª temporada) e ‘O Agente Noturno’ (3ª temporada) — produções com perfis radicalmente diferentes. Isso diz algo sobre a Netflix como plataforma: ela não se importa com prestígio crítico, se importa com engajamento. E engajamento, em 2026, vem de todos os lados.

O fato de estar no Top 10 apenas nos EUA também indica algo sobre o apelo do gênero. Procedurals de crime americanos funcionam melhor para públicos acostumados com a gramática do formato. Não é coincidência que a NBC tenha trazido a primeira temporada para a Netflix exatamente agora: a segunda temporada está no ar, e streaming serve como vitrine para atrair novos espectadores para a transmissão linear. Uma estratégia que, pelos números, está funcionando.

Veredito: para quem ‘The Hunting Party’ vale a pena?

Se você busca inovação no gênero thriller procedural, provavelmente vai se frustrar. Os críticos não estão errados em apontar que a série parece correr em vez de construir profundidade. Há dezenas de produções fazendo a mesma coisa com mais ambição.

Mas se o seu objetivo é algo mais simples — uma série para assistir depois de um dia longo, que não exige atenção absoluta mas entrega tensão suficiente, com uma protagonista carismática e uma premissa high-concept que se resolve em episódios relativamente fechados — ‘The Hunting Party’ pode funcionar. O público de 81% de aprovação não está errado também. Eles apenas querem algo diferente do que os críticos buscam.

O fenômeno dessa série expõe uma verdade incômoda para a crítica: o prestígio não é mais o único critério de sucesso. Em um mundo de infinitas opções, “bom o suficiente” às vezes é… o suficiente. A questão que fica é quanto tempo essa dinâmica se sustenta. Uma série pode sobreviver de público fiel sem nunca conquistar reconhecimento? ‘The Hunting Party’ já provou que sim — pelo menos por duas temporadas.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘The Hunting Party’

Onde assistir ‘The Hunting Party’?

A primeira temporada de ‘The Hunting Party’ está disponível na Netflix desde fevereiro de 2026. A segunda temporada é exibida semanalmente na NBC, nos Estados Unidos, desde 8 de janeiro de 2026.

Quantas temporadas tem ‘The Hunting Party’?

‘The Hunting Party’ tem duas temporadas. A primeira estreou em janeiro de 2025 na NBC e chegou à Netflix em fevereiro de 2026. A segunda temporada está em exibição desde 8 de janeiro de 2026.

Quem é a protagonista de ‘The Hunting Party’?

Melissa Roxburgh é a protagonista de ‘The Hunting Party’, interpretando uma ex-profiler do FBI que lidera a caçada aos serial killers fugitivos. Roxburgh é conhecida por seu papel em ‘Manifest’.

Qual é a premissa de ‘The Hunting Party’?

A série acompanha uma equipe de elite do FBI que precisa recapturar os piores serial killers do país após uma prisão secreta em Wyoming explodir. A premissa mistura elementos de ‘The Silence of the Lambs’ com a dinâmica de fuga de ‘Prison Break’.

Por que ‘The Hunting Party’ tem nota tão baixa dos críticos?

Os críticos apontam que a série acelera a narrativa em vez de construir tensão psicológica, resultando em um procedural derivativo que não aprofunda a mente dos assassinos. O público, por outro lado, aprova a execução funcional do formato.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também