‘The Hunt for Gollum’: como a teoria da terceira águia resolve o final do filme

Exploramos como um detalhe visual de ‘O Retorno do Rei’ — a terceira águia sem função aparente — pode dar a ‘The Hunt for Gollum’ o final emocional que o personagem merece. Uma teoria que conecta Gandalf, Peter Jackson e o arco trágico de Sméagol.

Reassisti ‘O Retorno do Rei’ algumas semanas atrás — deve ter sido a décima quinta vez. E lá pela metade do terceiro ato, quando as águias surgem para resgatar Frodo e Sam das encostas do Monte da Perdição, algo me incomodou como sempre incomoda. São três águias. Três. Gwaihir, Meneldor e Landroval, cada uma com nome e propósito… mas só dois corpos para resgatar. A terceira paira no ar, sem função aparente, enquanto a montanha desmorona. Peter Jackson não é diretor que deixa detalhes soltos por acaso. E agora, com ‘The Hunt for Gollum’ a caminho, essa terceira águia pode finalmente ganhar o significado que sempre mereceu — e dar a Gollum o desfecho emocional que seu arco trágico exige.

A terceira águia que sempre esteve lá

Se você for conferir a cena — e eu recomendo pausar e contar — vai confirmar: três águias atravessam a fumaça do vulcão em erupção. Uma carrega Frodo. Outra agarra Sam. A terceira? Sobrevoa a cena como se estivesse… esperando algo. Ou alguém.

A teoria de que cada águia foi enviada para um sobrevivente específico circula a internet há anos, mas nunca foi confirmada nem por Tolkien nem por Jackson. O que não significa que seja inventada. Pelo contrário: faz todo o sentido narrativo que Gandalf, o mais sábio e compassivo dos magos, incluísse Gollum em seu plano de resgate. Ele sabia — ou pelo menos desconfiava, através de Faramir — que Frodo e Sam viajavam com a criatura. Conhecia o papel que Gollum desempenhou na destruição do Anel. E não seria como Gandalf abandonar alguém, nem mesmo um ser corrompido e miserável, para morrer sozinho nas rochas quentes do Monte da Perdição.

O problema é que ‘O Retorno do Rei’ nunca nos dá essa resposta. As águias partem, o filme segue para os desfechos múltiplos de Aragorn, dos Hobbits, de Frodo — e Gollum fica para trás, engolido pela lava com o objeto de sua obsessão. Um vilão derrotado. Nada mais.

Por que Gollum merece mais do que recebeu

Aqui preciso ser honesto: Gollum não é ‘redimido’ em ‘O Senhor dos Anéis’. Sua morte não é sacrifício nobre. É o clímax de uma luta física com Frodo, no limite da cratera do vulcão, onde sua própria ganância o empurra para o abismo junto com o Anel. Não há arrependimento. Não há último momento de clareza onde Sméagol ressurge para salvar o mundo.

Exceto que, de certa forma, é exatamente isso que acontece.

Gollum é figura trágica no sentido mais clássico: destino o usa como instrumento de salvação para a Terra-média, enquanto o consome completamente. Frodo consegue levar o Anel até a borda do Monte da Perdição, mas sucumbe à tentação no momento final — não consegue jogá-lo. Gollum, corrompido de forma tão absoluta que prefere morrer com o Anel do que viver sem ele, completa a tarefa que o herói não pôde. É o Anel selando seu próprio destino ao corromper alguém tão profundamente que essa pessoa aceitaria cair na morte com ele nas mãos.

Isso é tragédia grega adaptada para fantasia épica. E merece tratamento narrativo à altura.

Como ‘The Hunt for Gollum’ pode transformar essa morte

O novo filme de Andy Serkis — que dirige e estrela — tem uma oportunidade única. A maior parte da história deve se passar no salto temporal de ‘A Sociedade do Anel’, entre a partida de Bilbo do Condal e o início da jornada de Frodo. Mas não há razão para que o filme não possa flertar com momentos posteriores, recontextualizando o que já conhecemos.

Imagine esta cena de encerramento: Gandalf declarando sua intenção de encontrar Gollum vivo, trazendo aquela terceira águia especificamente para ele. O voo até o Monte da Perdição. O alívio do mago ao avistar dois corpos nas rochas. E então, a tristeza silenciosa ao perceber que só há dois — Frodo e Sam — enquanto a terceira águia paira vazia sobre as cinzas onde Gollum desapareceu.

Ian McKellen está confirmado no elenco, com participação central. Serkis já declarou em entrevistas sua intenção de mergulhar na ‘humanidade de Gollum como personagem’. A peça está no tabuleiro. Durante o filme, Gandalf desenvolverá compreensão mais profunda de quem Gollum é — não apenas um fanático por relíquias com gosto por carne crua, mas um ser torturado cuja essência original, Sméagol, nunca foi totalmente extinta.

O final que proponho aqui não inventaria redenção barata. Seria reconhecimento — Gandalf esperando que Sméagol pudesse ressurgir após anos de miséria, e lamentando sua morte prematura. Talvez um momento silencioso de reflexão. Um túmulo simbólico fora do Portão Negro. Qualquer sinal de respeito que faltou em ‘O Retorno do Rei’.

O fechamento que o arco de Gollum exige

Reconheço: há um risco narrativo em estender ‘The Hunt for Gollum’ até a queda de Sauron. O filme poderia se tornar refilmagem condensada de ‘As Duas Torres’ e ‘O Retorno do Rei’. Mas ignorar completamente a morte de Gollum seria erro maior — contar uma história centrada nele sem incluir o momento em que ele acidentalmente salva toda a Terra-média seria deixar o arco pela metade.

A solução está no equilíbrio: manter o foco na caçada de Aragorn e Gandalf, na exploração do passado de Sméagol antes do Anel, na dualidade psicológica que Serkis construiu com tanto cuidado. E então, no fechamento, dar ao público algo que ‘O Retorno do Rei’ não ofereceu — o peso emocional da perda de Gollum, vista através dos olhos de alguém que esperava salvá-lo.

É a diferença entre um vilão derrotado e uma tragédia reconhecida. Entre um detalhe visual esquecido e uma águia que finalmente encontra seu propósito.

Se Jackson, Serkis e a equipe criativa tiverem a coragem de fazer essa conexão, ‘The Hunt for Gollum’ não será apenas um filme-solo competente. Será o fechamento que o personagem merece há mais de duas décadas — e a resposta para um mistério que só quem realmente prestou atenção na trilogia original percebeu que existia.

Eu, particularmente, espero que a terceira águia finalmente pouse. E recomendo o filme para qualquer um que, como eu, assistiu à trilogia original e sentiu que faltava algo naquele voo sobre o Monte da Perdição.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Hunt for Gollum’

Quando estreia ‘The Hunt for Gollum’?

A data oficial não foi anunciada, mas a Warner Bros. indicou 2027 como janela de lançamento. O filme está em pré-produção desde 2024.

Andy Serkis vai dirigir ‘The Hunt for Gollum’?

Sim. Serkis está confirmado como diretor e também reprisa o papel de Gollum/Sméagol. Ele já dirigiu ‘Mowgli: Lendas da Selva’ (2018) e demonstra familiaridade profunda com o personagem.

Ian McKellen vai estar em ‘The Hunt for Gollum’?

Sim. McKellen confirmou participação como Gandalf. O personagem é central para a trama, que deve explorar a caçada a Gollum conduzida por Gandalf e Aragorn.

‘The Hunt for Gollum’ é baseado em algum livro de Tolkien?

Não diretamente. O filme expande passagens dos Apêndices de ‘O Senhor dos Anéis’ que mencionam a caçada de Aragorn e Gandalf a Gollum. É material canônico, mas nunca narrado em detalhes por Tolkien.

Viggo Mortensen volta como Aragorn?

Não há confirmação oficial. Mortensen declarou em entrevistas que considera seu ciclo na Terra-média encerrado. A produção pode escalar ator mais jovem ou usar técnicas de rejuvenescimento digital.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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