Com notas que saltaram de 90% para 100% no Rotten Tomatoes, The Great é a rara série que melhora a cada temporada. Analisamos como o roteiro de Tony McNamara calibra humor negro e drama, e por que a evolução de Catherine de idealista a pragmática é uma das críticas mais afiadas sobre poder na TV recente.
Existe uma lei não escrita na televisão: séries declinam. Começam fortes, perdem fôlego no meio, e terminam arrastadas ou canceladas sem dignidade. The Great série faz exatamente o oposto — e não é só métrica do Rotten Tomatoes falando. É uma daquelas raridades que encontra sua voz na segunda temporada e refina na terceira, como se os criadores finalmente entendessem que tinham algo especial nas mãos.
Os números são eloquentes: temporada 1 com 90% de aprovação crítica, temporadas 2 e 3 com 100% perfeito. No ecossistema atual de streaming, onde séries são canceladas com a mesma facilidade que são renovadas, esse tipo de consistência é quase suspeito. Mas The Great não é um acidente estatístico — é uma obra que sabe exatamente o que quer ser.
Por que The Great série desafia a lógica de Hollywood
A premissa soa como qualquer outra sátira histórica: Catherine, a Grande, chega à Rússia para se casar com o imperador Pedro III e descobre que seu marido é um maníaco infantil e a corte é um circo de depravação. Até aí, poderíamos ter mais uma comédia de época com figurinos caros e piadas sobre aristocracia. O que The Great faz de diferente é abraçar o absurdo sem nunca perder o fio da humanidade.
Não é uma série que se contenta em ser engraçada. Os roteiros de Tony McNamara — sim, o mesmo de The Favourite — operam em camadas: há a sátira política afiada, o romance torto entre Catherine e Pedro, e uma reflexão surpreendentemente profunda sobre poder e corrupção. A série te faz rir de um personagem decapitando servos por capricho, e cinco minutos depois te faz questionar se a “revolução iluminista” de Catherine não é apenas outra forma de tirania com branding diferente.
O que impressiona na evolução da série é como ela calibra esse tom ao longo das temporadas. A primeira ainda está testando limites, às vezes errando a mão na dosagem entre humor negro e drama genuíno. Na segunda, a série encontra o equilíbrio perfeito — e na terceira, subverte completamente as expectativas ao transformar o que poderia ser uma repetição da fórmula em algo mais melancólico e maduro.
Quando 100% no Rotten Tomatoes significa algo real
Costumo desconfiar de pontuações perfeitas. Geralmente indicam consenso fabricado ou hype de lançamento. Mas no caso de The Great, os 100% das temporadas 2 e 3 refletem algo que qualquer espectador atento percebe: a série melhorou porque correu riscos.
A segunda temporada pega a estrutura de “Catherine tentando derrubar Pedro” e complica tudo. O que era uma dinâmica clara de heroína vs. vilão se torna um estudo de casamento disfuncional onde ambos os lados têm razão e estão errados simultaneamente. A terceira temporada é ainda mais ousada — sem dar spoilers, vou dizer que o final da série, embora não planejado como encerramento definitivo, funciona como conclusão temática perfeita para a jornada de Catherine.
É irônico que uma série cancelada pela Hulu entregue um final mais satisfatório que muitas obras que tiveram anos de planejamento. Isso fala sobre os méritos do roteiro, mas também sobre uma verdade desconfortável do streaming: às vezes, cancelamento forçado funciona como edição.
O momento perfeito para descobrir Elle Fanning e Nicholas Hoult
Se você me perguntasse em 2020 se Elle Fanning carregaria uma série de drama histórico, eu teria dúvidas. Não por falta de talento — ela sempre foi uma atriz interessante, desde suas colaborações com Sofia Coppola — mas por questão de registro. Fanning parecia habitar melhor o terreno do etéreo, do delicado. Ver ela comandar cenas de poder absoluto, alternando entre fragilidade calculada e crueldade necessária, foi uma revelação.
Nicholas Hoult é outro caso. Depois de anos como bestinha em Mad Max: Fury Road e coadjuvante em franquias, ele finalmente tem um papel que usa toda sua extensão. Pedro III poderia ser apenas um ditador caricato — e há momentos em que ele é exatamente isso. Mas Hoult encontra a criança ferida por trás do maníaco, o homem que nunca foi amado tentando ser amado da única forma que conhece: através de poder e violência.
A química entre os dois é o motor da série. Não é química romântica convencional — é algo mais perturbador, uma atração baseada em reconhecimento mútuo de monstros. Eles se entendem de uma forma que ninguém mais na corte entende, e essa conexão torta sustenta até os momentos mais absurdos do roteiro.
Com Fanning indicada ao Oscar 2026 por Sentimental Value e Hoult estrelando Superman, ambos estão no auge do reconhecimento mainstream. Isso torna este o momento ideal para maratonar The Great — você assiste a dois atores no ponto de virada de suas carreiras, entregando trabalho que justifica todo o hype posterior.
Figurino e direção de arte como personagens silenciosos
Há algo que merece mais atenção do que recebe: o visual de The Great. Os figurinos de Emma Scotlands não são apenas cenário — funcionam como extensão dos personagens. Quando Catherine chega à Rússia, seus vestidos são claros, delicados, quase infantis. Conforme ela se corrompe pelo poder, a paleta escurece e os tecidos ficam mais pesados. É narrativa visual pura, sem uma linha de diálogo.
A direção de arte também merece menção. Os palácios são opulentos, mas sempre com algo podre à mostra — uma mancha na parede, um animal empalhado decaindo, um criado dormindo no canto. A série nunca deixa você esquecer que todo esse luxo é construído sobre sofrimento. É uma escolha que dialoga com The Favourite, mas que aqui se sustenta por três temporadas sem perder impacto.
Maratonei a série em duas semanas, e o que ficou não foram as piadas — foram os silêncios. Momentos onde a câmera segura em um rosto, e você percebe que está vendo alguém perceber que se tornou aquilo que jurou destruir. É aí que The Great transcende a comédia.
Uma sátira que envelhece bem porque não depende do contexto
A maior armadilha de sátiras políticas é ficarem datadas. The Great evade isso por escolha de período: ao se passar no século XVIII russo, a série pode comentar autoritarismo, machismo e corrupção sem nunca soar como editorial de jornal vestido de figurino.
Isso não significa que a série seja apolítica. Pelo contrário — a jornada de Catherine de liberal idealista para imperadora pragmática é uma das críticas mais afiadas que vi sobre como poder corrompe boas intenções. A diferença é que essa crítica nunca é entregue em monólogos explicativos. Ela está na estrutura, nas escolhas que Catherine faz, nos compromissos que ela aceita.
A série também se beneficia de ser “loosely inspired” em eventos reais. Essa liberdade permite que os roteiros vão a lugares que uma biografia rigorosa não ousaria — incluindo uma morte específica no final da terceira temporada que, embora historicamente imprecisa, funciona como catarse narrativa perfeita.
Veredito: vale a maratona?
Três temporadas, totalizando cerca de 25 horas, disponíveis completas na Star+ no Brasil. Se você curte comédia de humor negro, drama histórico com liberdades criativas, e não tem problema com violência gráfica e sexo explícito, The Great é obrigatória.
Mas vou ser específico sobre para quem NÃO funciona: se você prefere sátiras sutis, fica incomodado com anacronismos propositalmente, ou espera precisão histórica, vai passar raiva. The Great não tem interesse em ser educativa — tem interesse em ser honesta sobre a natureza do poder, usando o passado como espelho do presente.
Para o restante de nós, resta uma série que melhora com o tempo porque confia em sua audiência. Ela assume que você entende que rir de decapitações não é endossá-las, que reconhecer a humanidade de um tirano não é perdoá-lo. É uma das melhores comédias da TV recente não apesar de seus riscos, mas por causa deles.
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Perguntas Frequentes sobre The Great
Onde assistir The Great no Brasil?
No Brasil, The Great está disponível na Star+, plataforma do grupo Disney que também hospeda conteúdos da Hulu. As três temporadas completas estão disponíveis.
Quantas temporadas tem The Great?
The Great tem 3 temporadas, totalizando 30 episódios. A série foi cancelada pela Hulu em agosto de 2023 após a terceira temporada, mas o final funciona como conclusão satisfatória.
The Great é baseada em fatos reais?
A série é “loosely inspired” (vagamente inspirada) em fatos reais. Usa figuras históricas como Catherine, a Grande, e Pedro III, mas toma liberdades criativas significativas com eventos, datas e personagens. Não deve ser vista como fonte histórica.
Qual a classificação indicativa de The Great?
The Great tem classificação 16 anos no Brasil. A série contém violência gráfica (incluindo decapitações), cenas de sexo explícito, nudez e linguagem forte. Não é recomendada para públicos sensíveis.
Por que The Great foi cancelada?
A Hulu cancelou The Great em agosto de 2023, oficialmente por razões de custo versus performance. Apesar das críticas excelentes, a série não atingiu os números de audiência que justificariam sua continuação. O criador Tony McNamara declarou que aceitou o cancelamento e que o final da terceira temporada funciona como encerramento.

