‘The Gifted’ foi cancelada em 2019 após duas temporadas, deixando um cliffhanger que prometia adaptar “Dias de um Futuro Esquecido”. Analisamos como a fusão Disney/Fox encerrou a série no momento mais promissor e o que perdemos com a temporada final que nunca existiu.
Existem cancelamentos que doem mais que outros. Não pela qualidade da série em si, mas pelo que ela estava prestes a se tornar. ‘The Gifted’ é o caso perfeito: uma produção que encontrou sua voz na segunda temporada, construiu um cliffhanger ambicioso, e foi interrompida exatamente quando preparava seu arco mais significativo. A promessa de uma terceira temporada adaptando “Dias de um Futuro Esquecido” nunca se concretizou — e a culpa não é da audiência.
A série estreou em 2017 num cenário curioso: os X-Men haviam desaparecido. Não era um evento crossover, não era um mistério a ser resolvido naquele momento. Era a premissa. Mutantes eram caçados pelo governo, o Mutant Underground operava na clandestinidade, e a ausência dos heróis mais poderosos criava um vácuo que personagens como Polaris, Eclipse e Thunderbird tentavam preencher. Era uma abordagem inteligente — permitir que a série existisse sem depender de Wolverine ou Professor X, enquanto plantava uma pergunta que pairava sobre cada episódio: onde estão os X-Men?
O cliffhanger que prometia “Dias de um Futuro Esquecido”
A segunda temporada terminou com Blink — a mutante teleportadora interpretada por Jamie Chung — revelando que havia sobrevivido. Até aí, alívio. Mas o que vem depois muda tudo: ela insiste que os outros mutantes precisam segui-la através de um portal para um mundo apocalíptico. A câmera não mostra o que está do outro lado, mas qualquer fã de X-Men reconhece a configuração. Sentinels. Campos de internamento. Um futuro onde mutantes são caçados e exterminados. É a essência de “Dias de um Futuro Esquecido”, um dos arcos mais influentes dos quadrinhos Marvel, publicado originalmente em 1981 por Chris Claremont e John Byrne.
O filme de 2014 adaptou essa história com viagem no tempo e um elenco estrelado. A versão que ‘The Gifted’ preparava seria diferente — mais visceral, mais enraizada nos personagens que a série desenvolveu por duas temporadas. Blink não estava propondo voltar no tempo para mudar o futuro; ela estava convocando os sobreviventes para lutar na distopia que já existia. É uma abordagem que os quadrinhos exploraram repetidamente, mas que nunca ganhou uma adaptação live-action prolongada. A terceira temporada seria essa chance.
O contexto já estava montado. O governo, através do Sentinel Services, e os Purifiers — o grupo de humanos fanáticos que caçam mutantes com fervor religioso — já haviam estabelecido as bases do terror. A série não precisaria criar o cenário do zero; apenas acelerar para o extremo lógico. E com os poderes de Blink como catalisador narrativo, a transição para o futuro distópico seria orgânica. Funcionava nos quadrinhos. Funcionaria na tela.
A fusão Disney/Fox e o fim prematuro
Em abril de 2019, a Fox cancelou ‘The Gifted’. A justificativa oficial foi a queda de audiência entre a primeira e segunda temporada — dados que não mentem, com a segunda temporada marcando cerca de 2 milhões de espectadores em média, contra 4 milhões da primeira. Mas há um fator que números de rating não explicam: a fusão entre Disney e 20th Century Fox foi finalizada em 20 de março de 2019, cerca de um mês antes do anúncio. Isso não é coincidência.
A série era produzida pela Marvel Television, braço que operava separadamente do Marvel Studios de Kevin Feige. Após a fusão, tudo foi absorvido sob um mesmo guarda-chuva corporativo. ‘WandaVision’ e outras produções do MCU estavam sendo desenvolvidas diretamente para o Disney+, com orçamentos cinematográficos e conexões diretas com os filmes. ‘The Gifted’, com sua estética de TV aberta e universo isolado, não se encaixava nos planos da nova era Marvel.
Houve especulação inicial sobre a série encontrar um novo lar dentro da Disney. Não aconteceu. Os números de audiência da segunda temporada eram um argumento convincente para o cancelamento, mas o contexto corporativo pesou mais. Manter uma série de mutantes que não pertencia ao MCU canônico seria um desperdício de recursos — pelo menos era assim que os executivos viam. O resultado: um final que não é final.
O mistério que permanece sem resposta
Desde o primeiro episódio, uma pergunta paira sobre a série: para onde foram os X-Men? O evento de 15 de julho de 2013 é mencionado como o marco do desaparecimento, mas detalhes permanecem vagos. A ausência de Professor X, Magneto, Wolverine e Storm não era apenas uma questão logística de direitos de personagem — era um elemento narrativo que pedia resolução.
A terceira temporada poderia finalmente abordar isso. Não necessariamente trazendo os personagens principais — a série funcionava bem focada em seu elenco original — mas explicando o que aconteceu. Uma menção aqui, um flashback ali, talvez até um sobrevivente escondido. Qualquer coisa que desse closure ao mito central da ausência dos X-Men. Em vez disso, o mistério permanece eternamente em aberto.
Os personagens que a série desenvolveu mereciam mais. Polaris, filha de Magneto, carregava o peso desse legado sem nunca interagir com o pai — uma dinâmica que Emma Dumont interpretou com fúria contida e vulnerabilidade. Os irmãos Strucker, Andy e Lauren, descobriam poderes mutações complementares enquanto fugiam do governo. A Frost Sisters — três das cinco Stepford Cuckoos dos quadrinhos — operavam com moralidade ambígua que ganharia ainda mais profundidade num cenário apocalíptico. Todos esses arcos interrompidos.
Por que o cancelamento é mais trágico que o normal
‘The Gifted’ não era uma série perfeita. A primeira temporada tropeçava em diálogos expositivos e um vilão genérico no Dr. Campbell. Mas a segunda encontrou o tom certo: dividir o Mutant Underground, introduzir o Hellfire Club como alternativa radical, explorar os Morlocks como comunidade marginalizada dentro da comunidade marginalizada. A série estava crescendo.
O cancelamento no auge dessa evolução é o que torna o caso particularmente frustrante. Não é como perder uma série que já tinha dito tudo o que tinha para dizer. É perder uma série que estava prestes a dizer seu mais importante. “Dias de um Futuro Esquecido” não é apenas um arco de ação — é uma reflexão sobre genocídio, resistência e as consequências do medo. Temas que ‘The Gifted’ estava pronta para abordar com a nuance que a TV permite e o cinema raramente tem tempo para explorar.
Fica a ironia: uma série sobre mutantes lutando contra um futuro distópico teve seu futuro cortado antes de chegar. O portal que Blink abriu no final da segunda temporada nunca foi atravessado. O que está do outro lado permanece uma pergunta sem resposta — assim como o destino de uma produção que merecia pelo menos mais uma chance.
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Perguntas Frequentes sobre ‘The Gifted’
Por que ‘The Gifted’ foi cancelada?
A série foi cancelada em abril de 2019 por uma combinação de fatores: queda de audiência da primeira para a segunda temporada (de 4 milhões para 2 milhões de espectadores em média) e a fusão Disney/Fox, que tornou a produção redundante diante dos planos do MCU para o Disney+.
Onde assistir ‘The Gifted’?
‘The Gifted’ está disponível na Disney+ em mercados selecionados. No Brasil, as duas temporadas podem ser assistidas através do Disney+ ou mediante compra digital em plataformas como Amazon Prime Video e Google Play.
Quantas temporadas tem ‘The Gifted’?
‘The Gifted’ tem 2 temporadas completas, totalizando 29 episódios. A primeira temporada tem 13 episódios e a segunda tem 16 episódios. Não houve terceira temporada.
‘The Gifted’ tem final fechado?
Não. A série termina com um cliffhanger significativo que introduz “Dias de um Futuro Esquecido”. O final da segunda temporada foi claramente escrito como setup para uma terceira temporada que nunca foi produzida.
‘The Gifted’ pertence ao MCU?
Não. ‘The Gifted’ foi produzida pela Marvel Television em parceria com a 20th Century Fox, existindo em um universo separado dos filmes do Marvel Cinematic Universe. Após a fusão Disney/Fox, a série foi descontinuada em favor das produções canônicas do MCU.

