‘The Gentlemen’: o antídoto perfeito para o cansaço de dramas criminais sombrios

Guy Ritchie traz para a Netflix o contraponto que o gênero criminal precisava: uma série que equilibra violência brutal com humor absurdo. Analisamos por que ‘The Gentlemen’ funciona como antídoto ao cansaço de dramas ‘gritty’ e como o formato série expande o estilo visual e narrativo do diretor.

Depois de uma temporada maratona de Terra da Máfia — com suas cenas de tortura psicológica e assassinatos com motosserra que fazem qualquer espectador experiente apertar os dentes — eu estava exausto. Não é o tipo de exaustão que vem de conteúdo ruim, mas algo mais específico: cansaço de tensão constante. É aí que The Gentlemen série entra como um copo d’água gelada no meio de um deserto de dramas criminais que confundem ‘sombrio’ com ‘profundo’.

A Netflix fez a escolha certa ao trazer Guy Ritchie de volta ao formato série. Não porque precisávamos de mais um crime drama — o streaming já está saturado deles — mas porque precisávamos de um que tivesse a coragem de rir de si mesmo. E Ritchie, com sua filmografia que vai de Lock, Stock and Two Smoking Barrels a Snatch, sempre soube que violência no cinema funciona melhor quando temperada com absurdo.

Por que The Gentlemen é o contraponto que o gênero precisava

Por que The Gentlemen é o contraponto que o gênero precisava

A última década consolidou o ‘gritty crime drama’ como o padrão de prestígio. Séries como True Detective (primeira temporada), Gomorrah e Terra da Máfia estabeleceram que sério significava visual escuro, moralidade ambígua e violência que faz o espectador sentir cada soco. Funciona. Mas quando todo mundo faz a mesma coisa, o que era fresco torna-se fórmula.

The Gentlemen série chega invertendo essa lógica. A violência existe — e é brutal, com cenas de luta que mostram personagens apanhando de verdade, sem coreografia limpa de filme de ação — mas Ritchie nunca deixa você esquecer que aquilo também é ridículo. Um personagem leva uma surra homérica e solta uma frase de efeito. Uma negociação de vida ou morte descamba para um argumento sobre galinhas. O tom não é de comédia pastelão, mas de reconhecimento: sim, o submundo do crime é violento, mas também é habitado por gente que faz piada na hora errada.

Essa abordagem cria um efeito curioso: você continua tenso durante as cenas de perigo, mas não carrega o peso embutido. É a diferença entre assistir a algo que te deixa exausto e algo que te deixa entretido — distinção que muitos showrunners parecem ter esquecido.

O formato série permite Ritchie expandir sua marca registrada

Fãs de longa data do diretor conhecem o estilo: diálogos afiados, cortes rápidos, trilhas que funcionam como pontuação narrativa. Em filmes, isso funciona em doses de duas horas. Em série, Ritchie tem espaço para brincar com ritmo de uma forma que seus filmes nunca permitiram.

A cena do frango — que já está circulando como momento icônico da primeira temporada — é exemplo perfeito. Em um filme, teria dois minutos. Aqui, Ritchie constrói a tensão ao longo de uma sequência inteira, deixando o espectador perguntar ‘isso vai dar ruim?’, e quando dá, dá de um jeito tão absurdo que você ri em vez de se contorcer. É a clássica técnica de suspense de Hitchcock — fazer o público esperar pelo desastre — mas aplicada à comédia de humor negro.

Visualmente, a série mantém a assinatura Ritchie: cores saturadas que fazem as propriedades rurais inglesas parecerem quase irreais, cortes que aceleram quando a ação explode e desaceleram nos momentos de diálogo. A trilha sonora usa rock e pop britânico com precisão cirúrgica, funcionando como comentário irônico sobre o que acontece na tela — uma cena de ameaça pontuada por uma música animada cria dissonância que é puro Ritchie.

O elenco ajuda a vender essa proposta. Theo James carrega o papel de Eddie Horniman com a combinação certa de aristocracia deslocada e capacidade de adaptação — um homem que herdou uma propriedade e descobre que o subsolo esconde um império de maconha. Kaya Scodelario, como Rosalind, tem presença que equilibra ameaça e carisma. Giancarlo Esposito traz a autoridade que construiu em Breaking Bad, mas com mais folga para o humor. Ray Winstone e Vinnie Jones completam o time com a credibilidade de quem já viveu esse tipo de personagem tantas vezes que pode brincar com o arquétipo.

A conexão com o filme de 2019 (e por que você não precisa ter visto)

A conexão com o filme de 2019 (e por que você não precisa ter visto)

Quando anunciei a série, a primeira pergunta que ouvi foi: ‘preciso assistir ao filme?’ A resposta curta: não. A resposta longa: você deveria assistir aos dois, mas por motivos diferentes.

A série habita o mesmo universo do longa de 2019, com referências e nomes que fãs reconhecerão. Mas os projetos funcionam de forma independente — uma decisão criativa inteligente que evita o problema comum de spin-offs que exigem conhecimento prévio. Se você chegou fresco, não sente que está perdendo uma piada interna.

O que é mais curioso é que Ritchie essencialmente recontou sua própria história. O filme e a série têm a mesma premissa central, mas contam de perspectivas diferentes. Era um risco criativo — recontar algo que saiu há apenas sete anos soa como falta de ideias no papel. Na prática, funciona porque o formato série permite expandir personagens que o filme só esboçou.

Os números não mentem: o filme tem 76% no Rotten Tomatoes entre críticos, a série 75%. Diferença de um ponto. O público deu 84% para ambos. Ritchie não fez melhor nem pior — fez diferente, o que é mais interessante.

O veredito: para quem essa série foi feita

Vou ser direto: se você é do time que considera Terra da Máfia o padrão-ouro de drama criminal e acha que humor diminui a gravidade do gênero, The Gentlemen série vai te irritar. Ritchie não está interessado em fazer você refletir sobre a moralidade do crime organizado. Ele quer que você se divirta com um mundo onde criminosos têm timing cômico.

Agora, se você — como eu — assistiu tantos dramas sombrios nos últimos anos que começou a sentir falta de histórias que não exigissem terapia pós-maratona, essa série é o contraponto que faltava no seu catálogo. Não é fuga da realidade, é alternativa à monotonia de tom.

A segunda temporada confirmada para 2026 é sinal de que a Netflix entendeu o apelo. Em um streaming lotado de thrillers pesados que competem para ver quem é mais sombrio, ter algo que reconhece a absurdidade inerente do submundo do crime é mais valioso do que parece.

The Gentlemen série não vai mudar sua visão de mundo nem ganhar prêmios de prestígio. Mas vai te dar oito horas de entretenimento que respeitam sua inteligência sem exigir seu fígado. Às vezes, isso é exatamente o que você precisa.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre The Gentlemen série

Onde assistir The Gentlemen série?

The Gentlemen série está disponível exclusivamente na Netflix desde março de 2024. É uma produção original da plataforma.

Precisa assistir ao filme de 2019 para entender a série?

Não. A série habita o mesmo universo do filme, com algumas referências que fãs reconhecerão, mas funciona de forma independente. Você pode assistir sem conhecimento prévio.

Quantos episódios tem a primeira temporada?

A primeira temporada de The Gentlemen tem 8 episódios, cada um com aproximadamente 45-55 minutos de duração.

The Gentlemen tem segunda temporada confirmada?

Sim. A Netflix confirmou a segunda temporada de The Gentlemen para 2026. A renovação veio rapidamente após o sucesso de audiência da primeira temporada.

Quem são os principais atores de The Gentlemen série?

O elenco principal inclui Theo James como Eddie Horniman, Kaya Scodelario como Rosalind, Giancarlo Esposito como Stanley, Ray Winstone como Bobby e Vinnie Jones como Geoff Seacombe.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também