‘The Boys’ e o segredo para expandir um universo sem perder a essência

O Universo The Boys provou que expansão de franquia funciona quando a série principal é estabelecida antes dos spin-offs. Analisamos como Gen V manteve 97% no Rotten Tomatoes e por que a paciência criativa é o segredo que Hollywood insiste em ignorar.

Todo estúdio quer seu próprio “Universo Cinematográfico” desde 2008. A Marvel provou que dá dinheiro, e aí veio uma enxurrada de tentativas — a maioria desastrosa. O DCEU tentou pular direto para uma Liga da Justiça sem construir nada antes. O Senhor dos Anéis: Os Anéis do Poder custou uma fortuna e ainda debate-se para justificar sua existência. Mas existe uma franquia que está fazendo isso dar certo, e o Universo The Boys tem uma lição simples que ninguém parece querer ouvir: primeiro você faz uma série boa. Só depois você expande.

Não parece revolucionário, certo? Mas se você olhar ao redor, é exatamente isso que todo mundo está errando. A Prime Video deixou The Boys respirar por três temporadas antes de anunciar spin-offs. Deixou a série estabelecer seu tom, seus personagens, sua identidade — aquela mistura de violência gráfica, sátira política afiada e diálogos que misturam pop culture com horror existencial. E quando Gen V finalmente chegou, não parecia um produto de comitê de marketing — parecia uma história que alguém realmente queria contar.

O que The Boys entendeu que o DCEU não entendeu

O que The Boys entendeu que o DCEU não entendeu

A diferença fundamental está na ordem das coisas. Quando Warner decidiu acelerar seu universo de super-heróis, pulou etapas. Batman v Superman tentou condensar anos de construção de personagem em um único filme — incluindo um Dream Sequence do Flash que só fazia sentido se você já conhecesse o personagem. O resultado? Uma base frágil que rachou no primeiro teste de peso. A Liga da Justiça foi o coup de grâce — um filme que ninguém pediu, com personagens que ninguém conhecia direito, tentando replicar o sucesso de uma fórmula que levou uma década para ser montada.

The Boys fez o oposto deliberadamente. A primeira temporada é completamente autocontida. Você pode assistir, entender, se emocionar com o arco de vingança de Hughie e Butcher contra o Capitão Pátria, e fechar a história ali mesmo se quiser. Os roteiristas não deixaram ganchos forçados para spin-offs, não inseriram personagens que só fariam sentido em outra série. Construíram algo que funcionava por si só — e isso, paradoxalmente, criou a base perfeita para expansão.

É a mesma lógica de construir uma casa: você não começa pelo telhado. A Prime Video entendeu que um universo compartilhado não é um evento — é uma consequência. Quando sua obra principal é forte o suficiente, o público começa a querer mais naturalmente. A demanda precedeu a oferta. Revolucionário, eu sei.

Gen V prova que o método funciona — e como

Aqui está onde a teoria encontra a prática: Gen V não é apenas “mais The Boys“. É uma série que consegue ser derivada e original ao mesmo tempo — no melhor sentido possível. Pega a premissa central (super-heróis como produtos corporativos, violentos e moralmente falhos) e transporta para um contexto que a série principal não exploraria: a universidade para supers, com toda a crueldade adolescente e competição por patrocínios corporativos que isso implica.

O que impressiona não é apenas a qualidade — é a independência narrativa. Você pode assistir Gen V sem ter visto um episódio sequer de The Boys e entender tudo. Os crossovers existem, sim. Aquele cameo do Billy Butcher na primeira temporada? Um aceno para quem acompanha a franquia, não um requisito. A trama de Marie Moreau e seus colegas no Godolkin University funciona por conta própria, com seus próprios conflitos, seus próprios vilões — incluindo a revelação sobre os experimentos no Woods, que expande a mitologia sem depender de conhecimento prévio.

Não é coincidência que Gen V tenha alcançado 97% no Rotten Tomatoes — exatamente a mesma pontuação da terceira temporada de The Boys. Isso raramente acontece com spin-offs. Geralmente, a qualidade cai em proporção direta ao aumento da ambição comercial. Mas aqui, os números contam uma história diferente: quando você deixa a narrativa guiar a expansão em vez do contrário, o público percebe. E recompensa.

O risco que The Boys corre — e a ironia que ele abraça

O risco que The Boys corre — e a ironia que ele abraça

Existe, claro, um elefante na sala. The Boys construiu sua identidade criticando exatamente o tipo de franquia que está se tornando. A série zomba do Vought+ (leia-se Disney+), de universos expandidos por dinheiro, de spin-offs que ninguém pediu. Quando Homelander faz um discurso sobre “narrativa compartilhada” no episódio “Herogasm”, o programa está rindo na cara do modelo Marvel. Mas agora? Agora temos Gen V, Vought Rising, Diabolical, e um spin-off ambientado no México em desenvolvimento.

A ironia não é perdida nem nos criadores. Eric Kripke já brincou sobre isso em entrevistas, reconhecendo a contradição enquanto defende a abordagem: cada novo projeto precisa justificar sua existência artisticamente, não apenas comercialmente. Vought Rising, por exemplo, não foi anunciado como “mais um spin-off” — foi apresentado como uma história de período com potencial para expandir a mitologia de formas que a série principal não poderia. A premissa de explorar supers nos anos 40, com a ascensão do Vought como potência militar-corporativa, abre portas narrativas genuínas.

Mas há um limite. Se a Prime Video continuar anunciando projetos sem o mesmo cuidado criativo, a franquia corre o risco de se tornar exatamente o que satiriza. O equilíbrio é frágil. Por enquanto, a qualidade se mantém — Gen V provou que a expansão pode ser orgânica, e Diabolical mostrou que até animação antológica funciona quando respeita o tom da série principal. Mas “orgânico” é um adjetivo que expira rápido quando os executivos veem números de audiência.

Por que Hollywood deveria estudar o Universo The Boys

A lição do Universo The Boys não é complicada, mas exige algo que Hollywood parece ter perdido: paciência. Criar uma série principal forte, que se sustenta sozinha, que constrói um mundo rico sem depender de cruzamentos forçados. Esperar esse mundo gerar histórias naturalmente, em vez de encomendá-las por contrato. E, crucialmente, aceitar que talvez não haja histórias suficientes para justificar cinco spin-offs — e estar certo disso.

A temporada final de The Boys chega em 2026, e é significativo que a série principal tenha um fim planejado. Universos infinitos tendem a diluir sua identidade — basta ver o que aconteceu com The Walking Dead, que multiplicou spin-offs enquanto a série principal perdia relevância. Ao encerrar a história central no tempo certo, a franquia preserva sua força. Os spin-offs podem continuar, mas sem a âncora de uma série principal interminável que arrasta tudo consigo.

No fim, o segredo é quase decepcionante de tão óbvio: faça algo bom primeiro. O resto — o universo, a franquia, os crossovers — vem como consequência, não como objetivo. A Prime Video provou que funciona. A questão é se alguém mais vai ter a paciência de tentar.

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Perguntas Frequentes sobre o Universo The Boys

Preciso assistir The Boys antes de Gen V?

Não. Gen V foi escrita para funcionar de forma independente. Os crossovers com The Boys existem, mas são acenos para fens, não requisitos para entender a trama principal.

Quantos spin-offs de The Boys existem?

Atualmente são três: Gen V (série sobre a universidade de supers), The Boys: Diabolical (antologia animada) e Vought Rising (em produção, ambientada nos anos 40). Há ainda um spin-off mexicano em desenvolvimento.

Quando termina The Boys?

A quinta temporada, prevista para 2026, será a última. Eric Kripke confirmou que a série tem um final planejado desde o início, evitando a diluição que afeta franquias sem fim definido.

Onde assistir The Boys e Gen V?

Ambas as séries estão disponíveis exclusivamente na Prime Video. Diabolical também está na mesma plataforma.

Gen V é tão boa quanto The Boys?

Os números sugerem que sim: Gen V atingiu 97% de aprovação no Rotten Tomatoes, mesma pontuação da terceira temporada de The Boys. A crítica elogiou especialmente a independência narrativa e o elenco.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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