‘The Bear’: como ‘Fishes’ definiu o auge da série e seu maior dilema

‘The Bear Fishes’ elevou a série ao auge criativo mas criou um dilema: a expectativa que a própria série não consegue igualar. Analisamos como o episódio de Natal definiu o trauma de Carmy e por que a série luta para encontrar seu caminho depois dele.

Existe um tipo de episódio de televisão que funciona como uma faca de dois gumes: ao mesmo tempo em que eleva uma série ao seu ápice criativo, estabelece uma expectativa que a própria série pode nunca mais alcançar. ‘Fishes’, o sexto episódio da segunda temporada de ‘The Bear’, é exatamente isso. Uma hora de televisão tão precisa que se tornou referência instantânea, mas que também plantou as sementes do maior dilema que o show enfrenta até hoje.

Assisti a ‘Fishes’ três vezes. Na primeira, terminei exausto, como se tivesse sobrevivido a algo. Na segunda, consegui prestar atenção aos detalhes técnicos que escapam quando você está tenso. Na terceira, entendi por que o episódio é genial e problemático ao mesmo tempo. Não é exagero dizer que está entre as melhores horas de televisão dos últimos anos. Mas há uma ironia nisso: ao mostrar o inferno familiar que moldou Carmy Berzatto, o episódio deu à série uma profundidade que ela passou as temporadas seguintes tentando — e frequentemente falhando — em processar.

Quando o passado explode: a anatomia de um jantar de Natal

Quando o passado explode: a anatomia de um jantar de Natal

A premissa é simples: um jantar de Natal na família Berzatto, cinco anos antes dos eventos principais da série. Mas o que o roteiro faz com essa premissa é cirúrgico. Em vez de expositar o passado de Carmy através de diálogos explicativos, ‘Fishes’ nos coloca dentro do inferno.

A construção de tensão funciona como um relógio suíço. Cada copo de vinho que Donna (Jamie Lee Curtis) serve para si mesma é uma bala sendo inserida na arma de Chekhov. Você sabe que vai disparar. Só não sabe quando, nem em quem. Essa sensação de dread constante — de que qualquer palavra pode ser a faísca que incendeia tudo — transforma um jantar de família em algo que beira o terror psicológico.

E não é apenas tensão por tensão. O episódio responde à pergunta que a série inteira fazia: por que Carmy é assim? A resposta não é apenas o suicídio do irmão Michael. É Donna, a mãe alcoólatra e emocionalmente vampírica que transforma cada momento compartilhado em um campo minado. É o irmão volátil que roubava todo o oxigênio da sala. É a sensação de que, na família Berzatto, amor e agressão eram indistinguíveis.

‘Hereditary’ sem sobrenatural: a direção de Christopher Storer

A comparação com ‘Hereditary’ (2018) não é casual. ‘Fishes’ funciona como uma versão doméstica do filme de Ari Aster — sem elementos sobrenaturais, mas com a mesma sensação de horror familiar inevitável. A diferença é que aqui, o monstro da casa é sua própria mãe, e você não pode fugir porque é Natal e ‘família é família’.

A direção de Christopher Storer merece dissecção. A escolha de manter a câmera quase sempre no nível dos olhos, frequentemente em planos fechados que nos forçam a encarar o desconforto, cria uma claustrofobia visual que espelha a emocional. Há momentos em que a câmera simplesmente permanece fixa em um rosto enquanto a tensão cresce fora de quadro — e isso é mais eficaz do que qualquer corte frenético.

Um detalhe que impressiona: a forma como o som é usado. A trilha sonora diegética — canções de Natal tocando constantemente — cria um contraponto grotesco com o que está acontecendo. É como se o mundo insistisse em fingir normalidade enquanto a família se despedaçava. O silêncio, quando finalmente chega, é mais ensurdecedor que qualquer grito.

Jamie Lee Curtis e a mãe que todos reconhecemos

Jamie Lee Curtis e a mãe que todos reconhecemos

Não é novidade que Jamie Lee Curtis ganhou o Emmy por este episódio. Mas vale entender por que a atuação dela funciona tão bem. Donna não é uma vilã caricata — é uma mulher em dor, processando seus próprios demônios, incapaz de não transmitir essa dor para os filhos. Curtis consegue algo difícil: fazemos sentir pena dela enquanto tememos o que ela fará a seguir.

Há uma cena específica que ilustra isso: o momento em que Donna, já bêbada, tenta conectar com Carmy e Natalie na cozinha. Há genuína necessidade de afeto ali — mas também há a exigência implícita de que os filhos gerenciem suas emoções por ela. É essa ambiguidade que torna Donna tão realista e tão devastadora.

O elenco de apoio é igualmente preciso. Jon Bernthal retorna como Michael, e vemos que a volatilidade dele já existia muito antes de qualquer suicídio. Sarah Paulson, como a tia Michelle, traz uma energia de ‘normalidade performática’ que é igualmente perturbadora. Bob Odenkirk, como o tio Lee, encapsula o tipo de parente que quer ajudar mas não sabe como — e acaba piorando tudo.

O dilema que ‘Fishes’ criou para ‘The Bear’

Aqui está o problema que o episódio criou: ao estabelecer um padrão de excelência tão alto, ‘Fishes’ expôs as fraquezas que viriam depois. A terceira temporada, em particular, foi criticada por abandonar quase completamente o humor que equilibrou as primeiras temporadas. Isso não é coincidência.

‘Fishes’ mudou a série fundamentalmente. Antes dele, ‘The Bear’ era sobre Carmy processando trauma. Depois dele, tornou-se sobre Carmy tentando se curar de algo que o público agora entendia visceralmente. O problema é que essa jornada de cura, na terceira temporada, frequentemente confundiu ‘sombrio’ com ‘profundo’.

Não estou dizendo que a série deveria ignorar o trauma. Mas há uma diferença entre retratar dor de forma significativa e simplesmente afundar na miséria. ‘Fishes’ funcionou porque tinha um propósito narrativo claro: revelar a origem. O que veio depois muitas vezes pareceu martelar no mesmo ponto sem acrescentar novas camadas.

A lição esquecida de ‘Forks’: esperança como equilíbrio

Há uma ironia estrutural fascinante na segunda temporada. Imediatamente após ‘Fishes’, a série entregou outro episódio extraordinário: ‘Forks’, focado na jornada de Richie no restaurante Ever. Enquanto ‘Fishes’ é sobre o peso do passado, ‘Forks’ é sobre a possibilidade de transformação.

A sequência final de ‘Forks’ — Richie cantando ‘Love Story’ de Taylor Swift no carro, finalmente sentindo que pertence a algo maior — é tão emocionalmente poderosa quanto qualquer momento em ‘Fishes’. Mas é um tipo diferente de emoção. É esperança, não desespero. É crescimento, não trauma.

A crítica que se faz à série agora é: e se ‘The Bear’ tivesse seguido o caminho de ‘Forks’ em vez de se fixar no tom de ‘Fishes’? Isso não significa ignorar a dor, mas reconhecer que ela pode coexistir com momentos de genuína alegria e progresso. A segunda temporada entendeu esse equilíbrio. As subsequentes pareceram esquecê-lo.

Dito tudo isso, ‘Fishes’ permanece como um marco. É o tipo de episódio que justifica a existência de uma série — um trabalho de arte que funciona por si só, que pode ser assistido independentemente do resto e ainda assim destruir o espectador. Se ‘The Bear’ eventualmente encontrar seu caminho de volta ao equilíbrio entre drama e comédia, entre dor e esperança, será em parte porque ‘Fishes’ estabeleceu o padrão de excelência que a série ainda tenta reencontrar.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Fishes’ de The Bear

Qual episódio é ‘Fishes’ em The Bear?

‘Fishes’ é o sexto episódio da segunda temporada de ‘The Bear’. É o episódio de flashback que mostra o jantar de Natal da família Berzatto cinco anos antes dos eventos principais.

Onde assistir The Bear?

‘The Bear’ está disponível exclusivamente no Star+ na América Latina e no Hulu nos Estados Unidos. Todas as três temporadas já lançadas estão na plataforma.

Por que Jamie Lee Curtis ganhou o Emmy por The Bear?

Jamie Lee Curtis ganhou o Emmy de Melhor Atriz Convidada em Série de Comédia por sua atuação como Donna Berzatto em ‘Fishes’. Sua performance como a mãe alcoólatra e emocionalmente instável foi aclamada pela crítica por retratar uma figura simultaneamente patética e aterrorizante.

Qual é o significado do título ‘Fishes’?

‘Fishes’ refere-se ao prato principal do jantar de Natal: o ‘Feast of the Seven Fishes’, tradição ítalo-americana de servir sete tipos diferentes de peixe na véspera de Natal. O título também funciona metaforicamente — a família está submersa em águas turbulentas.

‘Fishes’ pode ser assistido separadamente do resto da série?

Sim. ‘Fishes’ funciona como uma peça autônoma de televisão. Embora ganhe mais significado com o contexto da série, o episódio tem início, desenvolvimento e conclusão próprios, e pode ser apreciado sem conhecimento prévio de ‘The Bear’.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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