‘The Acolyte’: por que a série de Star Wars merece ser reavaliada

Dois anos após seu lançamento, ‘The Acolyte’ merece ser reavaliada sem o ruído das polêmicas artificiais. Explicamos por que o cancelamento foi uma decisão financeira — não uma confirmação de qualidade ruim — e como a série expandiu o que Star Wars pode ser ao explorar a Alta República.

Existem obras que o tempo absolve. ‘The Acolyte’ pode ser uma delas — não porque era perfeita, mas porque o ruído que a cercou em 2024 era desproporcional ao que ela realmente tentava fazer. Dois anos depois, sem a polêmica artificial que dominou os feeds, dá para ver com clareza: The Acolyte era um dos projetos mais ambiciosos que Star Wars tentou na era Disney.

A série chegou ao Disney+ carregando um fardo que nenhuma produção deveria ter: a responsabilidade de ‘salvar’ ou ‘destruir’ uma franquia que já passou dos 45 anos. Falso dilema. ‘The Acolyte’ nunca foi sobre isso. Era sobre expandir, experimentar, arriscar — coisas que o cinema de grande orçamento raramente tem coragem de fazer.

A liberdade da Alta República: por que o período foi a escolha certa

A liberdade da Alta República: por que o período foi a escolha certa

Localizada na Alta República, cerca de um século antes da saga Skywalker, a série tinha uma liberdade narrativa que produções atreladas a personagens icônicos não possuem. Sem a obrigação de conectar-se a Darth Vader, Luke ou Mandalorians, a showrunner Leslye Headland podia explorar algo que Star Wars raramente toca: a ideologia Jedi vista de fora, com todas as contradições que isso implica.

Não é à toa que isso incomodou. Questionar a Ordem Jedi — mostrar suas rachaduras institucionais, seus dogmas questionáveis — é mexer com a fundação mitológica da franquia. Mas é exatamente isso que torna ‘The Acolyte’ interessante. Ela não queria apenas replicar a fórmula; queria interrogá-la. A distância temporal ajuda a perceber que essa postura não era miscalculation, como sugeriram críticos apressados — era experimentação consciente.

Os duelos de sabres de luz merecem menção específica. Coreografados por Chris Cowan com uma fluidez que mistura artes marciais do Sudeste Asiático com a gramática visual estabelecida por filmes anteriores, eles funcionam não como espetáculo vazio, mas como extensão da tensão narrativa. A sequência em que Qimir (o Estranho) enfrenta múltiplos Jedi no episódio 5 é um caso de estudo: a câmera acompanha os movimentos em planos longos que priorizam a clareza espacial sobre o corte frenético, e a ausência de trilha sonora em momentos-chave força o espectador a sentir cada impacto. Assistindo em uma tela grande, a diferença de abordagem para os duelos coreografados por Nick Gillard nos Prequels é gritante — aqui, os corpos se movem com peso e consequência.

Dafne Keen e a arte de construir uma Jedi convincente

Se existe um consenso sobre ‘The Acolyte’, é o nome de Dafne Keen. A atriz, que impressionou o mundo em ‘Logan’ como Laura/X-23 aos 12 anos, demonstra aqui — agora com 19 — um alcance dramático que poucos atores jovens conseguem. Sua Jecki Lon é uma Padawan que carrega a disciplina Jedi com naturalidade — não como uniforme imposto, mas como segunda pele.

O que distingue a performance de Keen é a economia gestual. Jecki fala pouco, mas cada movimento comunica competência, vigilância, uma mente treinada para observar antes de reagir. Em cenas de investigação, a câmera foca em seus olhos acompanhando pistas; em combate, seu corpo se move com precisão letal mas contida. É um trabalho de sutileza que a maioria dos espectadores nem percebe — justamente porque não chama atenção para si.

Comparar com seus papéis anteriores revela a extensão do talento. Em ‘His Dark Materials: Fronteiras do Universo’, sua Lyra era impulso puro, curiosidade sem freios. Em ‘Logan’, Laura era ferocidade nascida do trauma. Jecki Lon habita o polo oposto: contenção, reflexão, lealdade questionadora. Que a mesma atriz transite entre esses extremos diz muito sobre seu potencial de se tornar uma das grandes intérpretes de sua geração.

A morte prematura de Jecki no decorrer da série foi, para muitos, um erro narrativo. Eu entendo o argumento: Keen era tão forte que sua ausência deixou um vácuo palpável. Mas também vejo isso como um risco que a produção assumiu conscientemente — subverter a expectativa de que ‘o personagem interessante sobrevive’. Em Star Wars, até os Jedi morrem. Às vezes, especialmente eles.

O cancelamento: números frios, não ‘fan backlash’

O cancelamento: números frios, não 'fan backlash'

Aqui é onde o discurso precisa ser preciso. ‘The Acolyte’ não foi cancelada porque ‘os fãs odiaram’ ou porque ‘a Disney cedeu à pressão’. Foi cancelada porque era cara demais para o público que conquistou. Simples assim.

Alan Bergman, co-presidente da Disney, foi direto em declaração à Vulture em setembro de 2024: a produção estava satisfeita com a qualidade, mas os números de audiência não justificavam o custo de uma segunda temporada. Produções com extensos efeitos visuais, cenários complexos e elenco amplo têm um preço — e quando a conta não fecha, não há ideologia que salve o projeto.

Isso é importante de estabelecer porque existe uma narrativa conveniente de que ‘o cancelamento prova que a série era ruim’. Não prova nada além de realidade industrial. Séries caras precisam de audiências massivas. ‘The Acolyte’ teve audiência respeitável — estreou com 4.8 milhões de visualizações em 24 horas, recorde do ano para estreias Disney+ — mas não suficiente para seu orçamento. Fim da história.

A perda, no entanto, é real. Os fios narrativos deixados no final da primeira temporada — rachaduras ideológicas dentro da Ordem, o surgimento de antagonistas com motivações complexas, a promessa de aprofundar o lore Sith — eram material para uma continuação fascinante. Ver isso interrompido é como ler a metade de um livro que você sabe que nunca será terminado.

Por que ‘The Acolyte’ envelhece melhor que suas críticas

Dois anos depois de seu lançamento, ‘The Acolyte’ envelhece bem pelo motivo certo: suas ambições permanecem válidas mesmo quando suas imperfeições ficam evidentes. Problemas de ritmo em alguns episódios, escolhas de roteiro que dividem opiniões, um final que promete mais do que entrega — tudo isso existe. Mas o que permanece é a sensação de que Star Wars tentou algo novo, e foi punido por isso não pela qualidade do produto, mas pelo ruído ao redor.

A série merece ser vista — ou revista — sem o filtro das polêmicas artificiais que dominaram seu lançamento. Para quem gosta de Star Wars mas sente que a franquia tem repetido fórmulas, ‘The Acolyte’ é um respiro. Para quem aprecia ficção científica que questiona suas próprias premissas, ela é um exercício intelectual raro em produções de grande orçamento.

Não vou fingir que é uma obra-prima sem falhas. Mas também não vou negar que é uma obra que merece mais do que recebeu. Às vezes, o tempo é o único crítico imparcial. E ele está sendo gentil com ‘The Acolyte’.

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Perguntas Frequentes sobre ‘The Acolyte’

Onde assistir ‘The Acolyte’?

‘The Acolyte’ está disponível exclusivamente no Disney+. A série é uma produção original da plataforma, lançada em junho de 2024.

Por que ‘The Acolyte’ foi cancelada?

A série foi cancelada por razões financeiras, não criativas. Segundo Alan Bergman, co-presidente da Disney, os números de audiência não justificavam o alto custo de produção de uma segunda temporada — efeitos visuais extensos e cenários complexos têm um preço elevado.

Quantos episódios tem ‘The Acolyte’?

A primeira (e única) temporada de ‘The Acolyte’ tem 8 episódios, com duração entre 30 e 40 minutos cada.

Em que período se passa ‘The Acolyte’?

A série se passa na Alta República, aproximadamente 100 anos antes dos eventos de ‘A Ameaça Fantasma’. É uma era de prosperidade da Ordem Jedi, antes da corrupção institucional mostrada nos Prequels.

‘The Acolyte’ terá segunda temporada?

Não. A série foi oficialmente cancelada em setembro de 2024. Os fios narrativos deixados no final da primeira temporada permanecerão sem resolução.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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