Taylor Sheridan estreou na TV como ator convidado em ‘Walker, Texas Ranger’ (1995) — o primeiro neo-Western moderno da televisão. Trinta anos depois, ele domina o gênero com ‘Yellowstone’. Analisamos como essa trajetória fecha um ciclo histórico e o paradoxo de monopolizar um nicho criativo.
Há uma ironia deliciosa na trajetória de Taylor Sheridan que poucos percebem. Em 1995, ele era um ator desconhecido interpretando Vernon, um piloto de corrida de arrancada, no episódio duplo “War Zone” de ‘Walker, Texas Ranger’ — exibido no Brasil como ‘Chuck Norris: O Homem da Lei’. Era uma série que, sem saber, estava ajudando a definir um subgênero. Quase três décadas depois, esse mesmo ator se tornou o criador mais influente do neo-Western televisivo, dono de uma franquia que movimenta bilhões e redefine como o Oeste contemporâneo é retratado na tela. Não é apenas uma história de sucesso pessoal. É o fechamento de um ciclo que conecta Chuck Norris a Kevin Costner, o CBS dos anos 90 ao Paramount+ de hoje.
Quando Taylor Sheridan era apenas um rosto em ‘Walker, Texas Ranger’
Antes de escrever roteiros que Hollywood disputa, antes de criar o império Dutton, Taylor Sheridan era um ator caçando qualquer papel que aparecesse. Em 1995, ele conseguiu um: Vernon, um piloto de arrancada perseguido por Cordell Walker na estreia da terceira temporada. Dois episódios. Algumas cenas. Nada que sugerisse um futuro brilhante.
Os créditos de Sheridan nessa época eram exatamente isso: aparições únicas em séries variadas. O ator estava construindo uma carreira de trabalho, não de estrelato. Mas algo curioso aconteceu. Anos depois, quando Sheridan escreveu ‘A Qualquer Custo’ (2016), o filme sobre dois irmãos assaltando bancos perseguidos por Texas Rangers, a inspiração veio diretamente daquele programa onde ele fizera seu primeiro trabalho na TV. A semente tinha sido plantada em 1995.
Ver Sheridan hoje atuando em seus próprios projetos — como o rancher Travis Wheatley em ‘Yellowstone’ — carrega uma simetria quase poética. Ele nunca abandonou completamente a atuação. Apenas trocou papéis de um episódio por personagens que ele mesmo criou, em universos que ele mesmo construiu.
Como ‘Walker, Texas Ranger’ inventou o neo-Western televisivo
Nos anos 90, a ideia de um xerife do Velho Oeste operando no mundo contemporâneo simplesmente não existia na televisão. Westerns eram coisa de período histórico: cavalos, revólveres, saloons. A modernidade e o Oeste pareciam mutuamente exclusivos.
‘Walker, Texas Ranger’ mudou isso. Cordell Walker era um Texas Ranger — a mesma profissão de lendas como Augustus McCrae e Woodrow Call de ‘Os Pistoleiros do Oeste’ — mas ele existia no presente. Usava pickup, lidava com crimes modernos, mas carregava a ética e os métodos de um lawman do século XIX. E, claro, sabia artes marciais, porque era Chuck Norris.
Houve uma tentativa anterior: ‘Cade’s County’, em 1971, colocou Glenn Ford como um xerife moderno. Durou uma temporada. Foi esquecida. ‘Walker, Texas Ranger’, por outro lado, durou oito temporadas, entrou na cultura pop e provou que audiências aceitavam o conceito. Sem Walker, não haveria ‘Justificado’. Não haveria ‘Longmire’. Não haveria o espaço que Sheridan agora ocupa.
De Chuck Norris a John Dutton: a evolução do neo-Western
O neo-Western que Sheridan herdou e transformou é radicalmente diferente daquele que Chuck Norris popularizou. ‘Walker, Texas Ranger’ era televisão de rede aberta dos anos 90: moralidade clara, vilões unidimensionais, justiça sempre prevalecendo de forma limpa. Era entretenimento familiar com pitadas de ação.
O que Sheridan faz em ‘Yellowstone’ e ‘Landman’ pertence a outra era — e a outra ambição artística. Seus neo-Westerns são moralmente cinzas, seus protagonistas são anti-heróis disfarçados de heróis, e a “justiça” frequentemente envolve violência brutal ou manipulação política. John Dutton protege sua terra com métodos que Cordell Walker jamais aprovaria.
Mas a estrutura permanece reconhecível: um homem da lei (ou alguém que se vê assim) defendendo seu pedaço do Oeste contra forças externas. Sheridan não reinventou o gênero. Ele o levou a sério como drama adulto, algo que a televisão de rede aberta dos anos 90 não podia fazer.
A ironia que ninguém percebe: Sheridan fecha o ciclo
A ironia é difícil de ignorar. Taylor Sheridan começou sua carreira televisiva no programa que criou o neo-Western como subgênero viável. Hoje, ele é a pessoa que mais produz conteúdo desse tipo na TV americana. A franquia ‘Yellowstone’ — com spin-offs como ‘1883’ e ‘1923’, além de ‘Landman’ e outros projetos — representa a hegemonia de um único criador sobre um nicho que, tecnicamente, ele ajudou a inaugurar como ator.
Não foi planejado. Sheridan não olhou para ‘Walker, Texas Ranger’ em 1995 e pensou “um dia dominarei este gênero”. Ele era um ator precisando pagar contas. Mas a vida artística frequentemente funciona assim: você absorve influências sem perceber, e elas emergem décadas depois sob formas irreconhecíveis.
Quando ‘A Qualquer Custo’ foi indicado ao Oscar de melhor roteiro original, poucos sabiam que o filme tinha DNA de ‘Walker, Texas Ranger’. Dois Texas Rangers perseguindo criminosos no Oeste contemporâneo. Sheridan voltou às suas origens sem anunciar. Talvez sem perceber.
O paradoxo de Sheridan: dominando um gênero que pode estagnar
Sheridan agora está em posição curiosa. Ele domina o subgênero tão completamente que qualquer novo neo-Western será comparado ao seu trabalho — e frequentemente considerado derivativo. Isso cria um problema: quando um criador monopoliza um nicho, o nicho estagna?
Os sinais são contraditórios. Por um lado, Sheridan expande implacavelmente: mais temporadas, mais spin-offs, mais shows. Por outro, a fórmula começa a mostrar desgaste. Críticos apontam que ‘Landman’ repete temas de ‘Yellowstone’ em contexto diferente. A obsessão pela terra, pela masculinidade tradicional, pelo Oeste como último refúgio de valores perdidos — tudo isso se repete.
O neo-Western precisa evoluir ou morrerá de repetição. E curiosamente, a evolução pode vir de criadores que, como Sheridan nos anos 90, estão agora em posições humildes, absorvendo influências que só entenderão décadas depois. O ciclo que começou com Chuck Norris pode continuar com alguém que hoje faz figuração em ‘Yellowstone’.
Não seria apropriado? Sheridan provou que o subgênero tem espaço para vozes novas. Ele mesmo é a evidência viva de que um ator de um episódio pode se tornar o criador mais poderoso do nicho. A história tende a se repetir — especialmente no Oeste, onde tudo é ciclo, onde o passado nunca realmente passa.
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Perguntas Frequentes sobre Taylor Sheridan
Taylor Sheridan atuou em ‘Walker, Texas Ranger’?
Sim. Sheridan apareceu no episódio duplo “War Zone” (terceira temporada, 1995) interpretando Vernon, um piloto de corrida de arrancada. Foi um de seus primeiros trabalhos na televisão.
Quais são os principais shows criados por Taylor Sheridan?
Sheridan é criador de ‘Yellowstone’, ‘1883’, ‘1923’, ‘Landman’, ‘Tulsa King’, ‘Mayor of Kingstown’ e ‘Special Ops: Lioness’. A franquia ‘Yellowstone’ é sua obra mais conhecida.
O que é neo-Western?
Neo-Western é um subgênero que transporta temas e arquétipos do Western tradicional (xerifes, fronteiras, conflitos por terra) para o cenário contemporâneo. ‘Walker, Texas Ranger’ foi pioneiro na TV, e ‘Yellowstone’ é o exemplo mais popular atualmente.
Taylor Sheridan ainda atua?
Sim. Sheridan interpreta Travis Wheatley, um vendedor de cavalos e rancher, em ‘Yellowstone’. Ele também atuou em ‘Sons of Anarchy’ como David Hale e continua fazendo pontas em seus próprios projetos.
‘A Qualquer Custo’ tem conexão com ‘Walker, Texas Ranger’?
Indiretamente, sim. O filme de 2016 indicado ao Oscar mostra dois Texas Rangers perseguindo criminosos no Oeste texano contemporâneo — a mesma premissa básica de ‘Walker’. Sheridan escreveu o roteiro anos depois de atuar na série.

