Analisamos por que os Irmãos Duffer rejeitaram o modelo ‘Game of Thrones’ no final de ‘Stranger Things’. Entenda como a preservação do elenco principal não foi uma escolha segura, mas uma decisão técnica para manter o DNA de amadurecimento e a estética Amblin que define a série desde 2016.
Quando os créditos de ‘Stranger Things’ subiram pela última vez, a internet se dividiu em um debate ruidoso. De um lado, o alívio; do outro, uma sede de sangue quase medieval. ‘Cadê as mortes de peso?’, questionaram muitos, traçando um paralelo imediato com o final de ‘Game of Thrones’, que transformou Westeros em um necrotério televisivo. Mas, para os Irmãos Duffer, a ausência de um massacre não foi falta de coragem — foi uma decisão cirúrgica de design narrativo.
Em uma análise profunda no podcast Happy Sad Confused, Matt e Ross Duffer revelaram que o final de Stranger Things foi moldado para proteger a essência da série, e não para satisfazer o desejo por choque momentâneo. Como editor, vejo aqui uma lição de integridade criativa: eles entenderam que ‘Stranger Things’ nunca foi sobre quem morre, mas sobre quem sobrevive e como eles mudaram no processo.
A estrutura temática: por que o massacre ‘desmontaria’ a série
Na sala de roteiristas, os Duffers admitem ter explorado todos os cenários, inclusive os mais sombrios. ‘Você quer explorar cada avenida possível’, explicou Matt Duffer. No entanto, ao simular a morte de membros do ‘core group’ (como Steve, Dustin ou Hopper), eles perceberam que a estrutura temática da série simplesmente colapsava.
‘Stranger Things’ é, em seu DNA, uma homenagem ao cinema de Steven Spielberg e à literatura de Stephen King dos anos 80 — o chamado ‘Amblin aesthetic’. Nessas histórias, o trauma é real, mas a esperança é o motor. Matar personagens como Steve Harrington apenas pelo valor do choque destruiria o arco de amadurecimento que a série construiu por uma década. O final precisava ecoar o triunfo da amizade sobre o niilismo, algo que ‘Game of Thrones’ nunca se propôs a fazer.
O fantasma de Westeros e a armadilha do ‘final épico’
A comparação com ‘Game of Thrones’ é um equívoco de gênero. Enquanto a obra de George R.R. Martin opera sob a lógica da instabilidade política e do realismo brutal, Hawkins opera sob a lógica do amadurecimento e da nostalgia. Exigir um banho de sangue em ‘Stranger Things’ seria como exigir que ‘E.T.: O Extraterrestre’ terminasse com uma autópsia militar.
Ross Duffer foi enfático: ‘Os finais que acertaram realmente permaneceram fiéis ao que eram. Precisamos ser fiéis ao que Stranger Things é desde a primeira temporada’. Essa fidelidade se traduz na tela através de uma cinematografia que, mesmo nos momentos mais sombrios do Mundo Invertido, mantém uma paleta de cores que remete à infância e à proteção mútua.
Eleven e Kali: a tragédia silenciosa do isolamento
Embora o final tenha evitado mortes em massa, ele não foi indolor. A ausência de Eleven e Kali no epílogo de Hawkins carrega um peso técnico e emocional subestimado. As duas personagens que carregam as cicatrizes literais do laboratório de Hawkins são as únicas que não conseguem se reintegrar plenamente à ‘normalidade’.
Essa é uma escolha narrativa mais sofisticada do que uma morte física. Ao deixar o destino de Eleven em uma zona cinzenta de isolamento necessário, os Duffers entregam uma tragédia de exclusão. Elas salvaram o mundo, mas o mundo que salvaram não tem mais espaço para o que elas se tornaram. É o custo do herói, um tropo clássico que ressoa muito mais do que o simples encerramento de um contrato de ator.
Tensão como ferramenta de arco, não de eliminação
O que torna o final tecnicamente robusto é como a tensão foi usada para fechar ciclos. A sequência em que Nancy se coloca como isca para o Mind Flayer não é apenas um momento de perigo; é a conclusão visual de sua transição de ‘namorada do colégio’ para ‘guerreira estratégica’.
A trilha sonora de Kyle Dixon e Michael Stein no episódio final reforça essa escolha: em vez de temas fúnebres constantes, temos sintetizadores que evocam determinação e uma melancolia agridoce. Os Duffers entenderam que, para o público que cresceu com esses personagens, a verdadeira catarse não estava em vê-los morrer, mas em vê-los finalmente respirar fora da sombra do Mundo Invertido.
Veredito: o triunfo da identidade sobre o ‘hype’ do choque
Pode-se argumentar que a falta de baixas permanentes diminui o senso de perigo, mas isso é ignorar o contrato emocional da série. ‘Stranger Things’ sempre foi sobre o poder de ‘não estar sozinho’. Terminar a jornada com o grupo fragmentado por mortes gratuitas seria trair o espectador que investiu dez anos nessa promessa.
O final pode não ter tido o ‘banho de sangue’ que os fãs de thrillers viscerais desejavam, mas teve algo muito mais raro na TV moderna: coerência. Os Duffers escolheram ser fiéis à sua própria criação, e no atual cenário de séries que se perdem tentando viralizar com reviravoltas vazias, essa é a maior vitória de Hawkins.
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Perguntas Frequentes sobre o Final de Stranger Things
Quem morre no final de Stranger Things?
O final evitou mortes do elenco principal (o grupo de amigos e adultos centrais). As baixas foram focadas em antagonistas e personagens secundários, mantendo o foco na sobrevivência e no amadurecimento do grupo de Hawkins.
Por que os Irmãos Duffer não mataram personagens importantes?
Segundo os criadores, matar protagonistas como Steve ou Dustin ‘desmontaria a estrutura temática’ da série, que é focada em amadurecimento e esperança, diferenciando-se de tons niilistas como o de Game of Thrones.
Eleven morre no final?
O destino de Eleven é deixado de forma ambígua e melancólica. Embora ela não morra fisicamente, ela termina isolada do grupo principal de Hawkins, simbolizando o sacrifício pessoal necessário para fechar o portal definitivamente.
Haverá uma 6ª temporada ou spin-offs?
A 5ª temporada é o encerramento oficial da história principal. No entanto, a Netflix e os Irmãos Duffer já confirmaram que o universo de Stranger Things continuará através de spin-offs, incluindo uma série de animação e uma peça de teatro (The First Shadow).

