‘Starfleet Academy’ corrige erro de ‘Enterprise’ 23 anos depois

Analisamos como ‘Starfleet Academy’ resgata o debate sobre militarismo que ‘Enterprise’ desperdiçou em 2003. Entenda por que a introdução do War College e o trauma do ‘Burn’ criam o conflito ideológico mais profundo da franquia em décadas.

Existe uma tensão fundamental que permeia o DNA de ‘Star Trek’ desde os anos 60: a Frota Estelar é uma organização científica e exploratória ou um braço militar disfarçado? Por décadas, a franquia dançou em volta dessa questão, mas foi em 2003 que ela tentou encarar o problema de frente — e falhou. Agora, vinte e três anos depois, ‘Starfleet Academy’ parece finalmente pronta para corrigir o que ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’ deixou pelo caminho.

Para quem acompanha a nova fase da franquia na Paramount+, a premissa de ‘Starfleet Academy’ pode parecer, à primeira vista, apenas um drama adolescente no espaço. Mas o roteiro de Noga Landau e Alex Kurtzman prova que o buraco é mais embaixo. Ao introduzir o War College (Colégio de Guerra) na Terra do século 32, a série retoma um conflito ideológico que ‘Enterprise’ abandonou precocemente: a coexistência espinhosa entre quem quer descobrir novos mundos e quem acredita que a prioridade é, puramente, a sobrevivência armada.

O fantasma dos MACOs e a oportunidade perdida de ‘Enterprise’

O fantasma dos MACOs e a oportunidade perdida de 'Enterprise'

Lembro-me bem da terceira temporada de ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’. Estávamos no auge do clima pós-11 de setembro, e a série decidiu colocar soldados de verdade — os MACOs (Military Assault Command Operations) — a bordo da NX-01. A ideia era brilhante: colocar o pragmatismo militar de Major Hayes contra a ética exploratória de Malcolm Reed. Havia faíscas reais ali, especialmente na sequência de treinamento no ginásio onde a coreografia de luta espelhava o choque de doutrinas.

Infelizmente, assim que a crise dos Xindi foi resolvida, os MACOs viraram mobília de cenário. A tensão que deveria ter moldado a identidade da Frota Estelar em seus anos formativos foi varrida para debaixo do tapete. ‘Enterprise’ nos deu o conflito, mas faltou fôlego para explorar as consequências de ter “botas no chão” em uma missão de paz. O militarismo foi tratado como uma fase rebelde, não como uma filosofia concorrente.

O War College: A resposta traumática ao ‘Burn’

Em ‘Star Trek: Discovery’, fomos apresentados ao Burn (a Combustão), o evento cataclísmico que fragmentou a Federação. É nesse vácuo de poder que o War College nasceu. Com a Terra isolada, a mentalidade mudou: o foco deixou de ser a diplomacia e passou a ser a construção de escudos planetários e redes de defesa agressivas.

O que torna a abordagem de ‘Starfleet Academy’ superior é a contextualização desse trauma. O War College não existe porque seus membros são vilões unidimensionais, mas porque são o subproduto de um século de medo. Visualmente, a série marca essa distinção de forma impecável: enquanto a Academia usa tons pastéis e luz natural, as instalações do Colégio de Guerra são brutistas, frias e focadas em eficiência tática.

Por que a rivalidade atual é mais do que apenas ‘bullying’ escolar

No episódio ‘Vitus Reflux’, a série brilha ao mostrar que essa tensão é institucional. A cena em que os cadetes da Frota tentam resolver um problema de comunicação enquanto os alunos do Colégio de Guerra sugerem uma neutralização preventiva não é apenas um artifício de roteiro para gerar drama juvenil. É o choque entre o otimismo renascido da Federação e o realismo cínico de quem passou gerações acreditando que o universo é um lugar onde é preciso atirar primeiro.

Ao contrário da briga de egos entre Reed e Hayes, aqui o militarismo é apresentado como uma alternativa sedutora porque oferece segurança imediata. A exploração, por outro lado, exige vulnerabilidade. Se ‘Starfleet Academy’ continuar trilhando esse caminho, ela não será apenas a “série jovem” da franquia. Ela será a obra que finalmente resolve o paradoxo de Gene Roddenberry, mostrando que a Frota Estelar não vence o militarismo ignorando-o, mas provando que a curiosidade é uma ferramenta de defesa muito mais potente do que qualquer escudo planetário. Já era hora de alguém terminar o que os MACOs começaram.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Starfleet Academy’

Em que época de Star Trek se passa ‘Starfleet Academy’?

A série se passa no século 32, o mesmo período das temporadas finais de ‘Star Trek: Discovery’, após a reconstrução da Federação e o fim do isolamento da Terra.

O que é o War College mencionado na série?

O War College (Colégio de Guerra) é uma instituição militar terrestre que surgiu durante o isolamento da Terra após o ‘Burn’. Ele foca na defesa armada e segurança planetária, muitas vezes entrando em conflito ideológico com os ideais exploratórios da Frota Estelar.

Preciso ter assistido ‘Enterprise’ para entender a nova série?

Não é obrigatório, mas conhecer a história dos MACOs em ‘Enterprise’ ajuda a entender o contexto histórico de como a Frota Estelar sempre lutou para equilibrar sua natureza científica com a necessidade de defesa militar.

Quem são os MACOs em Star Trek?

Os MACOs eram soldados de elite da Terra pré-Federação, introduzidos na 3ª temporada de ‘Star Trek: Enterprise’. Eles representavam o braço puramente militar que operava ao lado da Frota Estelar durante crises de segurança.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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