‘Star Trek IV’: a cena cortada onde Kirk descobre o bebê de Spock e Saavik

A cena deletada Saavik Spock Star Trek IV recriada por Robin Curtis em 2024 revela um subplot que mudaria o cânone: Kirk descobre a gravidez de Saavik. Entenda por que Leonard Nimoy cortou a sequência — e o que isso apagou de Saavik e de Spock.

Existe um tipo de “e se” que só franquias longas como Star Trek conseguem produzir: não é teoria de fã, nem final alternativo inventado — é material que foi escrito, ensaiado, filmado e depois sumiu no corte final. É exatamente esse o caso da cena deletada Saavik Spock Star Trek IV, em que Kirk percebe (e verbaliza) aquilo que o filme de 1986 preferiu varrer para debaixo do tapete: Saavik estaria grávida de Spock.

O detalhe que reacendeu a conversa não veio de um “vazamento” da Paramount, mas de uma recriação: em 2024, Robin Curtis voltou ao papel para reencenar o diálogo no podcast The Trek Files, de Larry Nemecek. O que torna a cena irresistível não é o choque barato; é a sensação de que ela reorganiza a mitologia ao redor de Spock — e, principalmente, muda o lugar de Saavik na história.

A cena: um confronto gentil que mudaria o cânone

A cena: um confronto gentil que mudaria o cânone

A estrutura do momento é quase doméstica para padrões de Star Trek: Kirk observa, conecta pontos e pergunta “do jeito Kirk” — direto, mas com cuidado. Saavik, vulcana até o osso, não “confessa”; ela administra a informação. É um tipo de cena que funciona menos pelo que declara e mais pelo que obriga o espectador a concluir.

O subtexto é o verdadeiro “explosivo”: se a gravidez entra no filme, ‘Jornada nas Estrelas IV: A Volta para Casa’ deixa de ser apenas a comédia inteligente das baleias em São Francisco e passa a carregar uma consequência biológica e moral do que aconteceu em Genesis. E isso muda a chave emocional do longa inteiro.

Genesis e o que o filme III deixou aberto (de propósito)

Para essa engrenagem fazer sentido, o texto se apoia no que ‘Jornada nas Estrelas III: À Procura de Spock’ já havia plantado: Spock renasce em condições anômalas no planeta Genesis, atravessando um período de instabilidade e impulsos vulcanos que o filme associa ao pon farr. Na lógica do roteiro original, Saavik (já interpretada por Robin Curtis após a saída de Kirstie Alley) permaneceria com ele tempo suficiente para que “as consequências” existissem.

O ponto delicado — e que explica por que a cena nunca seria simples — é que esse “ato fundador” nasce de circunstâncias extremas: hierarquia, vulnerabilidade, sobrevivência. Transformar isso em “romance secreto” seria desonesto; tratar como fato com implicações éticas seria inevitavelmente mais pesado do que o tom que IV escolheu.

Por que Leonard Nimoy cortou: tom, imagem e um problema moral impossível de ignorar

Por que Leonard Nimoy cortou: tom, imagem e um problema moral impossível de ignorar

O motivo mais óbvio para Leonard Nimoy (diretor de IV) remover o subplot é tonal: ‘A Volta para Casa’ funciona porque é leve sem ser bobo — uma aventura com timing cômico, choque cultural e uma pauta ambiental clara. Uma revelação sobre gravidez e paternidade deslocaria o filme para um terreno dramático que exigiria outra narrativa (e outro tempo de tela) para não soar gratuito.

Mas há um segundo motivo, mais espinhoso e mais convincente: Spock com um filho nessas circunstâncias cria uma sombra moral que o filme não teria como tratar com responsabilidade sem reconfigurar o personagem. Nimoy sempre foi o maior curador da “integridade” de Spock. Manter a cena significaria colocar no centro do cânone uma pergunta que Star Trek IV não quer — e talvez não saiba — responder: que tipo de responsabilidade Spock teria, e como a Federação (e a própria tripulação) reagiria a isso?

Cortar, então, não foi só “enxugar roteiro”. Foi um ato de proteção da imagem — e, ao mesmo tempo, um apagamento do potencial mais adulto de Saavik.

O que a franquia fez com Saavik depois (e o que preferiu não fazer)

Sem a cena (e sem o subplot), Saavik vira uma personagem que o público “lembra” mais pelo que representa do que pelo que vive: disciplina, lealdade, o eco vulcano dentro de uma tripulação humana. O problema é que ela também vira uma espécie de beco sem saída narrativo. A franquia segue, Spock segue, e Saavik fica congelada como promessa.

Décadas depois, o fandom e projetos paralelos tentaram devolver agência a ela. Em 2024, o curta 765874 – Unification (Roddenberry Archives/OTOY, dirigido por Carlos Baena) oferece uma resolução emocional ao imaginar Saavik como mãe de Sorak. Não é cânone oficial — como a cena deletada também não é —, mas é revelador: a necessidade de “fechar” Saavik aparece porque o corte de 1986 deixou uma ferida narrativa.

Até quando ‘Jornada nas Estrelas: Picard’ (T3) acena para o legado da personagem (inclusive em materiais auxiliares que a colocam em posição de comando), o gesto é cuidadoso em não tocar naquilo que realmente a tornaria singular dentro da saga: a linhagem ligada a Spock.

Proteção ou apagamento? O corte como decisão editorial com consequências

Rever (ou ouvir) a recriação de Robin Curtis em 2026 tem um efeito curioso: não parece fofoca de bastidor; parece um raio-X do que Star Trek escolheu ser em cada era. Se Nimoy mantivesse a cena, a franquia teria antecipado discussões sobre consentimento, responsabilidade parental e consequências do “extraordinário” no corpo e na vida cotidiana — temas que ela só viria a encarar com mais frontalidade muito depois.

Ao mesmo tempo, a escolha de Nimoy é defensável como cinema: IV tem uma missão clara, um ritmo calibrado e uma energia que desmorona se você injeta um conflito moral que exige resolução. O que incomoda é o preço: para salvar o filme, sacrifica-se a personagem.

No fim, a cena deletada Saavik Spock Star Trek IV vale menos como “curiosidade” e mais como diagnóstico. Ela mostra onde a franquia hesitou. Nimoy preservou Spock de uma complexidade incômoda; Curtis, décadas depois, devolveu a Saavik algo que o corte final tomou dela: a chance de existir no centro do quadro — nem que seja por alguns minutos de uma cena fantasma.

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Perguntas Frequentes sobre a cena deletada de Saavik e Spock em ‘Star Trek IV’

Onde dá para ouvir a recriação da cena deletada com Robin Curtis?

A recriação foi disponibilizada no podcast The Trek Files, apresentado por Larry Nemecek, com Robin Curtis retomando Saavik em áudio.

A cena deletada confirma oficialmente que Saavik teve um filho de Spock?

Não. Como foi cortada antes do lançamento de 1986, a ideia não entrou no cânone do filme. Ela existe como material de roteiro/produção e como recriação posterior, mas não como fato oficial estabelecido na narrativa final de ‘Star Trek IV’.

Por que Leonard Nimoy teria removido esse subplot em ‘Jornada nas Estrelas IV’?

O motivo mais provável é tonal e narrativo: ‘A Volta para Casa’ é construído como aventura cômica com pauta ambiental, e uma trama de gravidez/paternidade exigiria um registro mais dramático e tempo de tela para lidar com implicações éticas ligadas a Genesis.

Existe filmagem oficial dessa cena cortada disponível ao público?

Até o momento, o que circula publicamente com destaque é a recriação em áudio (e discussões em materiais de bastidores). Uma filmagem oficial completa, se existir nos arquivos do estúdio, não é tratada como lançamento amplamente disponível.

O curta ‘765874 – Unification’ é cânone de ‘Star Trek’?

Não. É uma produção das Roddenberry Archives/OTOY que funciona como complemento e celebração para fãs, mas não é considerada parte do cânone oficial da franquia.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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