Com o fim de ‘Strange New Worlds’, Star Trek enfrenta seu primeiro vácuo em nove anos. Analisamos por que a tentativa de emular dramas ‘Prestige TV’ sombrios dividiu os fãs e o que a franquia precisa fazer para recuperar sua identidade utópica.
Há algo tragicamente irônico no fato de Star Trek futuro depender agora de um período de silêncio para se reencontrar. A franquia que imaginou um mundo onde a humanidade superou suas divisões internas terminou a década mais prolífica de sua história completamente dividida. Não entre espécies alienígenas ou frotas rivais, mas entre os próprios fãs — aqueles que abraçaram a nova era sombria e os que se sentiram traídos por ela. Com o cancelamento de ‘Star Trek: Strange New Worlds’ e ‘Starfleet Academy’, e nenhum projeto oficialmente em desenvolvimento pela primeira vez em nove anos, a era moderna de Star Trek chega ao fim. A pergunta que fica não é quando voltaremos ao espaço, mas como voltaremos.
O otimismo não era ingenuidade — era filosofia
Gene Roddenberry criou algo estranhamente radical em 1966: um futuro onde a humanidade não apenas sobreviveu, mas melhorou. Não tecnologicamente — moralmente. A Federação não era uma potência militar expansionista; era um ideal. E essa escolha não era acidente de roteiro ou limitação da TV da época. Era proposital. A série original e, depois, ‘The Next Generation’ operavam sob uma premissa fundamental: de que o progresso humano é possível, de que podemos ser melhores do que somos.
Isso gerou episódios que hoje parecem quase ingênuos em sua fé no diálogo e na diplomacia. Mas essa ‘ingenuidade’ era o ponto. Quando Picard, em ‘The Measure of a Man’, defende os direitos de Data como ser senciente, a solução não passa por violência ou moralidade cinzenta — passa por princípios. A Federação não era perfeita, os roteiristas sabiam disso, mas representava algo pelo qual lutar. Era uma bússola ética em formato de série de TV.
Quando ‘maduro’ significou copiar o que estava dando certo
O problema central da era moderna não foi ousadia — foi conformismo. Quando ‘Star Trek: Discovery’ estreou em 2017, a paisagem televisiva era dominada por algo que críticos chamaram de ‘Segunda Era de Ouro da TV’: ‘Mad Men: Inventando Verdades’, ‘Breaking Bad’, ‘Game of Thrones’, ‘Família Soprano’, ‘A Escuta’. Anti-heróis moralmente ambíguos. Narrativas serializadas. Tonalidades sombrias. Complexidade psicológica a todo momento.
Era a fórmula do sucesso crítico. Então Star Trek adotou essa fórmula. Discovery trouxe um protagonista traumatizado, moralmente flexível, operando em uma Federação disposta a cometer atrocidades em nome da sobrevivência. ‘Jornada nas Estrelas: Picard’ dobrou a aposta: um Jean-Luc Picard desiludido, uma Federação corrompida, um universo onde os ideais pareciam ingenuidade de velhos. Era Star Trek tentando ser Prestige TV — e no processo, perdendo o que o tornava único.
O erro estratégico foi assumir que ‘maduro’ significa ‘sombrio’. A maturidade real de Star Trek sempre esteve na capacidade de imaginar um futuro onde a humanidade superou seus impulsos mais sombrios — não na de representar esses impulsos como inevitáveis. Ao tentar emular a gramática narrativa de ‘Game of Thrones’, a franquia abandonou sua própria gramática. E os fãs perceberam.
As exceções que provam a regra — e o desastre que selou o destino
O mais revelador dessa era é que os projetos mais bem-sucedidos foram justamente aqueles que se aproximaram do tom clássico. ‘Star Trek: Prodigy’ — uma série animada voltada para adolescentes — capturou algo que séries ‘adultas’ perderam: a capacidade de contar histórias episódicas com núcleo moral claro. ‘Star Trek: Strange New Worlds’ funcionou justamente quando abandonou a serialização forçada e voltou ao formato de ‘monstro da semana’, permitindo que cada episódio respirasse como uma pequena peça de teatro moral. O episódio ‘The Elysian Kingdom’, com sua fábula medieval dentro da nave, mostrava que a franquia podia ser leve sem ser rasa.
Mas o momento mais esclarecedor veio com o fracasso retumbante de ‘Star Trek: Seção 31’ em 2025. O conceito parecia perfeito para o mercado atual: Michelle Yeoh como anti-heroína implacável em uma história de espionagem intergalática. Em qualquer outra franquia — Star Wars, Marvel — funcionaria. Em Star Trek, naufragou. E naufragou porque a premissa fundamental era incompatível com o universo onde foi inserida. Uma heroína que celebra a imoralidade não funciona em uma franquia construída sobre a ideia de que a moralidade é algo pelo qual vale a pena lutar.
A lição foi cara, mas necessária: Star Trek não é Star Wars. Não é Marvel. Tentar fazer com que seja é garantir mediocridade em duas frentes — alienar fãs antigos enquanto falha em conquistar novos, que já têm suas próprias franquias sombrias para consumir.
O Star Trek futuro precisa escolher o que quer ser
Com nenhum projeto oficialmente em desenvolvimento, a franquia enfrenta seu primeiro vácuo real desde os quatro anos entre o fim de ‘Jornada nas Estrelas: Enterprise’ em 2005 e o reboot cinematográfico de 2009. Mas esse silêncio pode ser oportunidade. A era moderna provou, por negação, o que torna Star Trek insubstituível: sua capacidade de oferecer algo que nenhuma outra franquia de ficção científica oferece — um futuro otimista, não distópico.
O Star Trek futuro não precisa ignorar complexidade. ‘Deep Space Nine’ provou que a franquia pode lidar com moralidade cinzenta sem abandonar seus ideais — a diferença está em como essa complexidade é enquadrada. Quando Sisko, em ‘In the Pale Moonlight’, manipula eventos para trazer os Romulanos para a guerra, a série não celebra essa escolha; ela pesa sobre ele. A Federação permanece algo pelo qual lutar, mesmo quando falha em viver à altura de seus ideais.
O caminho adiante requer coragem criativa de um tipo diferente: a coragem de acreditar que otimismo não é ingenuidade, que heróis morais não são chatos, que episódicos não é inferior a serializado. Requer escritores que entendam que a utopia de Roddenberry não era uma limitação a ser superada — era a identidade da franquia.
Nove anos de produção constante terminaram. Resta saber se o silêncio que vem aí será usado para reflexão genuína — ou se, quando a franquia retornar, tentará novamente ser o que nunca foi.
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Perguntas Frequentes sobre Star Trek
Quantas séries de Star Trek existem?
Existem 12 séries canônicas: Série Original, The Animated Series, The Next Generation, Deep Space Nine, Voyager, Enterprise, Discovery, Picard, Lower Decks, Prodigy, Strange New Worlds e Seção 31. Além dos 13 filmes cinematográficos.
Qual série de Star Trek assistir primeiro?
Para novos espectadores, ‘The Next Generation’ é o melhor ponto de partida — representa o auge do estilo clássico de Star Trek. Se preferir algo mais moderno, ‘Strange New Worlds’ funciona bem e mantém o tom otimista original.
Por que Star Trek: Discovery foi cancelado?
Discovery encerrou naturalmente após 5 temporadas em 2024. A série foi a primeira da era moderna, mas sua abordagem sombria e serializada dividiu a base de fãs tradicional, gerando debate constante sobre a direção da franquia.
Onde assistir séries de Star Trek?
No Brasil, as séries modernas (Discovery, Picard, Strange New Worlds, Lower Decks, Prodigy) estão na Paramount+. As séries clássicas (Série Original, TNG, DS9, Voyager) também estão disponíveis na plataforma.
Star Trek terá novas séries?
Atualmente não há projetos oficialmente anunciados. É o primeiro vácuo da franquia desde 2016. Rumores sugerem que a Paramount está reavaliando a direção criativa antes de anunciar novos projetos.

