‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’ ep 6: traição, morte e eco de ‘A Ira de Khan’

Em Star Trek Academia Frota Estelar episódio 6, a série troca “missão de treinamento” por tragédia e usa o eco de ‘A Ira de Khan’ para tornar a morte (e o coma) inevitáveis. Analisamos a traição de Nus Braka e o duelo Hunter–Giamatti que redefine a temporada.

Alguns episódios de série mudam o jogo. Não pelos efeitos especiais ou pela escala da ação, mas pela forma como destroem a segurança emocional que o espectador construiu ao longo das semanas anteriores. Star Trek Academia Frota Estelar episódio 6, intitulado “Come, Let’s Away”, é exatamente esse tipo de marco: um golpe que transforma uma missão de treinamento em tragédia — e ainda encontra tempo para acionar um gatilho afetivo específico da franquia, o eco de ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’.

A sensação aqui se parece com a de ver ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’ pela primeira vez: o episódio planta presságios, administra informações com crueldade e, quando a lâmina cai, não oferece o conforto do “isso vai se resolver até o fim dos créditos”. O peso emocional é amplificado por duas atuações que seguram o episódio pelo colarinho — Holly Hunter e Paul Giamatti — num confronto que é menos “herói vs. vilão” e mais acerto de contas entre pessoas que se conhecem demais.

Nus Braka não “vira” traidor: o roteiro mostra como a Frota deixa a porta aberta

Nus Braka nunca foi confiável. Desde sua primeira aparição, o híbrido Klingon/Tellarite de Giamatti carrega um tipo de perigo calculado — aquele personagem que fala baixo demais para alguém que diz estar cooperando. Mas o que ele executa no episódio 6 vai além da duplicidade: é uma humilhação institucional da Frota Estelar, montada em camadas, com a paciência de quem planejou não só vencer, mas fazer questão de ser lembrado.

O plano é engenhoso na crueldade. Braka oferece ajuda para resgatar cadetes reféns dos Furies na USS Miyazaki — criaturas híbridas canibalísticas que ele supostamente sabe derrotar. O “gesto” funciona como isca: o sequestro desvia a USS Sargasso para longe da estação J19-Alpha, onde Braka rouba tecnologia militar secreta. Quando a missão termina, não há “virada esperta” que minimize a derrota: a estação foi saqueada, há mortos em escala de tragédia, e Braka se torna, na prática, o novo pesadelo operacional do quadrante.

O que assusta não é a traição em si — Star Trek sempre soube que idealismo é uma arma de dois gumes —, e sim a velocidade com que a devastação é consolidada. O episódio não cede à tentação de um freio moral para poupar a Frota de passar vergonha. A série assume a escolha mais dura: confiança sem verificação vira vulnerabilidade, e vulnerabilidade, em guerra, vira contagem de corpos.

Hunter e Giamatti fazem do confronto um acerto de contas, não uma cena de exposição

Se o roteiro de Kenneth Lin e Kiley Rossetter arma o tabuleiro, são as atuações que fazem cada movimento parecer perigoso. No confronto direto entre Braka e a Capitã Nahla Ake (Holly Hunter), o episódio vira “cinema” em escala íntima: não é a câmera girando, é a linguagem corporal travando uma batalha de centímetros.

Giamatti evita o vilão cartunesco. A raiva do personagem parece polida por anos — não explosiva, mas metódica, como quem transformou ressentimento em estratégia. E o detalhe que deixa a cena desconfortável é a especificidade: ele não ataca “a Frota”; ele ataca Ake. É pessoal, e por isso é mais perigoso.

Hunter responde com contenção devastadora. O rosto dela segura duas coisas ao mesmo tempo: autoridade e culpa, especialmente quando Braka cutuca a ferida sobre a morte do filho dela durante A Queimadura (The Burn). A dinâmica lembra os melhores duelos de dramas criminais: duas pessoas inteligentes, conscientes de que a dor do outro tem endereço. E a fala sobre um “presente especial” no fim do episódio não soa como ameaça genérica — soa como alguém que estudou a vítima até descobrir qual lembrança dói mais do que qualquer phaser.

O eco de Spock: quando a citação de ‘A Ira de Khan’ vira presságio (e não fan service)

O eco de Spock: quando a citação de 'A Ira de Khan' vira presságio (e não fan service)

O momento que eleva o episódio acima do arco de ação padrão é quando B’Avi, o cadete Vulcano do War College, cita Spock: “as necessidades dos muitos superam as necessidades dos poucos, ou as de um”. A frase não entra como piscadela para fã; entra como contrato narrativo. O episódio promete que alguém vai pagar a conta — e cumpre.

A conexão com ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’ é precisa e cruel. Assim como Spock se sacrifica para salvar a Enterprise, B’Avi morre com um disparo de phaser no peito enquanto tenta ativar o Drive de Singularidade da Miyazaki. Só que aqui a série muda o que costuma confortar: Spock teve solenidade, tempo e mito. B’Avi morre no caos de um “treinamento” que virou combate real, sem moldura heroica, sem discurso pronto — apenas o impacto seco de uma vida interrompida cedo demais.

E é aí que o episódio cutuca uma ferida antiga da franquia: Star Trek ama o sacrifício nobre (Data em ‘Nemesis’, Kirk na era Chris Pine). Em “Come, Let’s Away”, não há glória. Há falha de leitura tática e negligência estratégica. É ‘A Ira de Khan’ sem o consolo imediato de ‘A Busca por Spock’.

Tarima no limite: o coma não é “gancho”, é consequência

Enquanto B’Avi representa a perda física, Tarima Sadal encarna o custo psíquico. A cadete Betazoide, que vinha construindo um romance tenso com Caleb Mir, arranca o inibidor neural para salvar os amigos presos na ponte da Miyazaki. O resultado é uma onda de choque psíquico-sônica que extermina os Furies — e a empurra para um coma profundo.

O detalhe que realmente fecha a garganta vem depois: Tarima já havia perdido o controle na infância, e aquele episódio deixou o pai dela surdo. A cena em que o irmão Ocam explica isso, enquanto Caleb observa o corpo inerte de Tarima, dá ao sacrifício um peso raro em Trek centrado em jovens. Não é “heroísmo”. É repetição de trauma familiar — e a possibilidade real de que ela não acorde para lidar com as consequências.

A conexão psíquica entre Tarima e Caleb, construída ao longo da temporada, funciona como metáfora simples e eficaz: intimidade cria um canal. Em tempos de guerra, esse canal vira o lugar por onde a dor entra primeiro.

SAM glitchando e a pergunta que o episódio deixa no ar: o que pode “morrer” num ser sintético?

Se B’Avi e Tarima carregam perdas biológicas, o dano sofrido por SAM (Series Acclimation Mil) abre uma discussão clássica de Star Trek: consciência artificial não é conceito abstrato quando o corpo é código. A cadete holográfica, recém-empoderada como Emissária do povo Kasqian, é atingida por um phaser Fury e começa a apresentar glitches potencialmente irreversíveis.

A ironia dramática é bem calculada: SAM acabara de aceitar identidade e propósito — com ecos de legados como o do Capitão Sisko — e, no episódio seguinte, sua forma fotônica falha diante de nós. A dúvida sobre se The Doctor (Robert Picardo) conseguirá repará-la não é só questão de manutenção técnica; é a pergunta que Star Trek sempre volta a fazer de um jeito novo: se você recompila um “corpo”, o que acontece com a continuidade do “eu”?

O que muda depois de ‘Star Trek Academia da Frota Estelar’ episódio 6

O episódio funciona como finale de meia-temporada disfarçado, reconfigurando o tabuleiro com perdas reais. A Academia perdeu um cadete; outro está em coma; uma terceira existência pode estar se apagando; e Ake agora tem uma dívida pessoal com o homem que expôs a instituição inteira.

A pergunta mais interessante não é “a Frota vai capturar Braka?”. É: quanto Ake vai aceitar deformar os próprios princípios para conseguir isso? A promessa é de caçada intergaláctica, mas o conflito decisivo parece interno — porque idealismo em Star Trek sempre foi um músculo, e músculos se rompem quando a série decide puxar com força.

Para quem acompanha a nova geração de Star Trek, este é o ponto em que ‘Academia da Frota Estelar’ deixa de flertar com “diversão juvenil espacial” e assume um compromisso mais amargo: mesmo no século XXXII, o preço do paraíso é cobrado. E, às vezes, quem paga primeiro são os jovens que ainda acreditavam que treinamento era só treinamento.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’ (episódio 6)

Qual é o título do episódio 6 de ‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’?

O episódio 6 se chama “Come, Let’s Away”.

O episódio 6 tem ligação direta com ‘Jornada nas Estrelas II: A Ira de Khan’?

Tem um eco temático e uma citação explícita associada a Spock, usada como presságio e comentário moral — não é continuação da trama do filme, e sim uma referência dramática dentro do episódio.

Tarima morre no episódio 6?

Não. O episódio coloca Tarima em coma após ela remover o inibidor neural e liberar uma onda psíquica para salvar os demais, deixando o destino dela em aberto para os próximos capítulos.

Quem é Nus Braka em ‘Star Trek: Academia da Frota Estelar’?

Nus Braka é um híbrido Klingon/Tellarite interpretado por Paul Giamatti. No episódio 6, ele executa um plano que expõe vulnerabilidades da Frota e coloca Ake como alvo pessoal.

SAM é uma personagem “holográfica” como o Doutor de ‘Voyager’?

Sim, SAM é apresentada como cadete holográfica (fotônica), e o episódio 6 explora justamente a fragilidade desse tipo de existência quando há dano e glitches que podem afetar continuidade de consciência.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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