‘Squid Game’: como o sucesso imprevisível mudou a Netflix e o streaming

Com 260 milhões de visualizações em dias, ‘Squid Game’ provou que conteúdo internacional pode dominar o mundo. Analisamos como esse sucesso imprevisível redefiniu a estratégia da Netflix e abriu portas para vozes não-inglesas no streaming.

Em setembro de 2021, a Netflix lançou uma produção sul-coreana com orçamento modesto, elenco desconhecido para o grande público ocidental e absolutamente nenhuma campanha massiva de marketing. Seis dias depois, Squid Game Netflix havia se tornado o programa mais assistido da história da plataforma. Ninguém previu isso — nem mesmo a própria Netflix.

O que aconteceu nos dias seguintes foi um fenômeno que a indústria do entretenimento ainda está tentando entender. Uma série em coreano, com legendas (ou dublagem questionável, dependendo de quem você perguntar), sobre pessoas endividadas jogando versões mortais de brincadeiras infantis, dominou conversas de escritório, timelines do Twitter e memes em todo o mundo. Mas o mais notável não foi o sucesso em si — foi o que ele representou para o futuro do streaming.

Os números que ninguém esperava

Quando falo que ninguém previu, não é hipérbole. Don Kang, chefe de conteúdo da Netflix na Coreia, admitiu explicitamente à Variety: “Nunca esperávamos que fosse o programa número um da Netflix globalmente, jamais.” Isso de uma empresa que usa algoritmos para prever comportamentos de audiência.

Os números finais são de encher os olhos: a primeira temporada acumulou mais de 260 milhões de visualizações. Para contexto, isso coloca ‘Squid Game’ não apenas no topo da Netflix, mas na conversa sobre “programas mais assistidos da história da televisão” — ao lado de finais de Super Bowl e episódios especiais de séries que levaram décadas para construir suas audiências. A série coreana fez isso em dias.

A segunda temporada, lançada três anos depois, manteve o momentum com 152 milhões de visualizações. A temporada final caiu para 106 milhões — “caiu” sendo relativo, porque esses ainda são números que qualquer estúdio mataria para ter. O fato de a audiência ter diminuído mostra que a novidade se desgastou, mas o fenômeno original permanece inegável.

Por que funcionou: mais do que “Jogos Vorazes coreano”

A comparação mais comum que vi na época foi com ‘Jogos Vorazes’ e ‘Maze Runner: Correr ou Morrer’. Faz sentido superficialmente: thrillers de sobrevivência com jogos mortais são uma fórmula testada. Mas reduzir ‘Squid Game’ a isso é perder completamente o ponto.

O criador Hwang Dong-hyuk levou 14 anos tentando produzir essa história. Em 2009, quando começou a escrever, nenhum estúdio sul-coreano se interessou — achavam o conceito grotesco demais, violento demais, estranho demais. A Netflix só entrou na vida dele em 2019, quando já tinha desistido e estava vendendo o roteiro como graphic novel. Essa trajetória explica por que a série tem uma obsessão temática com dívida e desespero: Hwang escreveu a partir da sua própria experiência de endividamento durante a crise financeira de 2008.

O que a série fez de diferente foi combinar a tensão visceral do gênero com uma crítica social afiada que ressoou globalmente num momento específico. Gi-hun, o protagonista, não é um herói convencional — é um homem de meia-idade endividado, viciado em jogo, que mal consegue cuidar da mãe e da filha. O público ocidental não estava acostumado a ver esse tipo de personagem no centro de uma produção de alto orçamento. Geralmente, protagonistas de thrillers são jovens, atraentes, moralmente claros. Gi-hun é nenhum desses.

A série também entende algo fundamental sobre tensão: não está na ação, está na espera. Aquele primeiro jogo, “Luz Vermelha, Luz Verde”, funciona porque a câmera se recusa a cortar rapidamente. Vemos os participantes processando o horror em tempo real. Vemos a mecânica brutal da boneca detectando movimento. O ritmo deliberado cria uma angústia que cortes frenéticos jamais conseguiriam.

O impacto estratégico que redefiniu o streaming

O impacto estratégico que redefiniu o streaming

Aqui está onde a história de ‘Squid Game’ se torna verdadeiramente relevante para entender a indústria. Antes de setembro de 2021, dramas coreanos eram considerados nicho no ocidente. Sim, existia uma base de fãs dedicada, mas as grandes plataformas de streaming tratavam conteúdo internacional como complemento, não como prioridade.

Depois de ‘Squid Game’, tudo mudou. A mensagem que a série enviou para executivos foi clara e em alto volume: o público global não se importa com barreiras linguísticas quando a história é boa o suficiente. Mais do que isso, existe um apetite gigantesco por narrativas que não venham de Hollywood.

A Netflix já investia em produções internacionais antes, mas o sucesso da série coreana acelerou e intensificou essa estratégia de forma dramática. Outras plataformas seguiram. De repente, conteúdo original em línguas não-inglesas não era mais “experimento” — era central para a estratégia de crescimento. ‘La Casa de Papel’ já tinha mostrado potencial, mas os números de ‘Squid Game’ foram o argumento definitivo.

O legado: vozes internacionais no centro do palco

Olhando em 2026, o impacto mais duradouro de ‘Squid Game’ não são os recordes que quebrou, mas a mentalidade que mudou. A indústria do entretenimento passou a enxergar histórias internacionais não como “conteúdo para mercados específicos”, mas como potencial para fenômenos globais.

Isso significa mais diversidade de vozes, mais riscos narrativos, mais oportunidades para criadores que não falam inglês. Significa que um diretor na Coreia do Sul, na Turquia ou no Brasil pode imaginar sua obra sendo vista por centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo — algo que, há cinco anos, parecia fantasia.

Claro, nem toda produção internacional vai replicar o sucesso de ‘Squid Game’. A série teve uma combinação rara de qualidade, timing e sorte que é difícil de reproduzir. Mas o que ela provou é que o caminho para o sucesso global não precisa passar por Los Angeles.

Para a Netflix especificamente, o fenômeno também serviu como validação parcial de seu modelo de dados. A plataforma identificou que fãs de dramas coreanos e de thrillers de sobrevivência poderiam se interessar pela série — mas até eles subestimaram o potencial. Às vezes, os algoritmos acertam a direção mas erram a magnitude.

Veredito: fenômeno que mereceu seu lugar na história

Reassistindo a primeira temporada hoje, separada do hype inicial, ela se mantém como um thriller sólido com momentos genuinamente memoráveis. Não é perfeita — o ritmo em alguns episódios arrasta, certas escolhas de personagem são questionáveis, e a violência às vezes parece mais gratuita do que necessária. A estética, com seus contrastes neon e cenários pastel, é visualmente distintiva, embora funcione melhor como ícone pop do que como linguagem cinematográfica coerente.

O verdadeiro legado de ‘Squid Game’, porém, está fora da tela. Está nas reuniões de executivos que agora consideram produções internacionais como apostas sérias. Está nos criadores ao redor do mundo que ganharam uma prova de conceito de que suas histórias podem viajar. Está na própria Netflix, que aprendeu que às vezes o maior sucesso vem de onde você menos espera.

Para quem curte entender a indústria do entretenimento, ‘Squid Game’ é um caso de estudo obrigatório. Para quem só quer uma série boa para maratonar, também funciona — mas sugiro assistir com a consciência de que você está vendo algo que mudou as regras do jogo.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Squid Game’

Quantas temporadas tem ‘Squid Game’ na Netflix?

‘Squid Game’ tem três temporadas. A primeira estreou em setembro de 2021, a segunda em dezembro de 2024, e a terceira e última foi lançada em 2025, encerrando a história de forma definitiva.

‘Squid Game’ é baseado em história real?

Não. A série é ficção original do criador Hwang Dong-hyuk. Porém, os temas de endividamento e desespero econômico foram inspirados na experiência pessoal do diretor durante a crise financeira de 2008.

Quem criou ‘Squid Game’?

A série foi criada, escrita e dirigida por Hwang Dong-hyuk, cineasta sul-coreano. Ele levou 14 anos tentando produzir o projeto, que foi rejeitado por estúdios locais até ser aprovado pela Netflix em 2019.

Qual é a classificação indicativa de ‘Squid Game’?

No Brasil, a série é classificada como 16 anos. Contém violência gráfica intensa, suicídio, uso de drogas e linguagem forte. Não é recomendada para públicos sensíveis a esses temas.

Vale a pena assistir em coreano com legendas ou dublado?

Recomenda-se assistir em coreano com legendas. As atuações originais carregam nuances que se perdem na dublagem, e a dublagem em português foi amplamente criticada por qualidade técnica inferior e escolhas de voz inadequadas.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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