Spielberg revela inspirações de ‘Dia D’, retorno aos aliens após 21 anos

Steven Spielberg retorna aos aliens em ‘Dia D’ com uma abordagem filosófica inédita em sua carreira. Analisamos como o diretor troca a invasão barulhenta de ‘Guerra dos Mundos’ pela angústia existencial da pergunta: “estamos sozinhos no universo?”

Steven Spielberg finalmente quebrou o silêncio sobre ‘Dia D’, seu retorno ao cinema de ficção científica extraterrestre após 21 anos — e o que ele revelou sugere algo raro no blockbuster contemporâneo: um filme de aliens que prefere perguntas a explosões. Em um vídeo promocional inédito divulgado durante o Super Bowl, o diretor de ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’ e ‘E.T.: O Extraterrestre’ detalhou as inspirações profundamente pessoais por trás do projeto, sugerindo que estamos diante de uma mudança de paradigma em sua própria filmografia de sci-fi.

A última vez que Spielberg mergulhou no gênero foi em 2005, com ‘Guerra dos Mundos’ — uma invasão visceral, barulhenta, onde o terror vinha da iminência da destruição. Agora, com ‘Dia D’ chegando aos cinemas em 12 de junho, o cineasta parece mais interessado no silêncio entre as estrelas do que no caos das naves espaciais. A diferença não é apenas estética; é filosófica.

Do espetáculo à introspecção: a evolução do cineasta

Do espetáculo à introspecção: a evolução do cineasta

Para entender o que torna ‘Dia D’ singular, precisamos olhar para trás. ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’ (1977) era sobre o encontro — aquela obsessão quase religiosa de Roy Neary em alcançar os visitantes, medida pela obsessiva repetição da fanfarra de cinco notas. ‘E.T.: O Extraterrestre’ (1982) tratava do laço emocional, da inocência infantil como ponte para o desconhecido, com a câmera baixa de Spielberg transformando o suburbano americano em território mágico. Já ‘Guerra dos Mundos’ (2005) explorava a invasão como catástrofe doméstica, uma história de paternidade sob fogo alienígena, onde o som dos tripods — aquela borduna mecânica — era puro pavor sensorial.

‘Dia D’, pelo que Spielberg insinua, opera em um registro diferente. O trailer mantém o mistério intocado — vemos Emily Blunt como uma meteorologista de Kansas City, o céu ameaçador com nuvens que parecem piscar em padrões intencionais, mas pouco dos visitantes propriamente ditos. O diretor descreve o filme como uma meditação sobre “por que a humanidade permanece cativada pelo mistério do que está além da Terra”. Em outras palavras: não é sobre o que os aliens fazem, mas sobre o que nós sentimos — e tememos — ao saber que eles existem.

Essa mudança de foco — de criaturas para consciência — ecoa uma fase mais madura do cineasta. Spielberg tem 78 anos. Não precisa mais provar que consegue dirigir sequências de ação (ninguém esquece o ataque ao acampamento em ‘O Mundo Perdido: Jurassic Park’, com o trailer pendurado no precipício). O que ele parece buscar agora é legado intelectual, algo que dialogue com a filmografia de forma mais contemplativa.

Infância, céu noturno e a garantia de que não estamos sós

O vídeo “A First Look with Steven Spielberg” revela detalhes que soam como confissões, não meras notas de produção. Spielberg menciona desenvolver, ainda criança nos subúrbios de Nova Jersey, “uma curiosidade real sobre o céu à noite e o que está acontecendo lá em cima”. Ele vai além da possibilidade — afirma acreditar na “garantia de que existe vida fora deste planeta”.

Essa crença fundamenta a abordagem de ‘Dia D’. O diretor nota que as perguntas sobre “o que está acontecendo em nossos céus, em nossos mundos, em nossas realidades” atingiram uma “massa crítica”. O filme parece capturar esse momento cultural específico — onde os relatórios de OVNIs deixaram de ser piada de conspiracionista para ocupar manchetes do Congresso americano e relatórios oficiais da NASA. A pergunta central, segundo Spielberg, é angustiante na simplicidade: “Estamos sozinhos ou não estamos sozinhos? E se alguém sabe que não estamos sozinhos, por que não nos contaram?”

É um roteiro escrito por David Koepp, parceiro de longa data que já trabalhou em ‘Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros’, ‘O Mundo Perdido: Jurassic Park’, ‘Guerra dos Mundos’ e ‘Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal’. A escolha é reveladora: Koepp entende a obsessão de Spielberg por fenômenos inexplicáveis (“de tubarões a discos voadores”, nas palavras do próprio diretor) e sabe construir suspense psicológico — veja ‘A Chave Mestra’ ou ‘Premium Rush’. Juntos, eles parecem mais interessados no thriller existencial do que no thriller de ação.

Meteorologistas e freiras: o elenco como arquétipos da dúvida

Meteorologistas e freiras: o elenco como arquétipos da dúvida

A escalação de ‘Dia D’ sugere drama humano escalado pela incerteza cósmica, não apenas escala épica de destruição. Emily Blunt — que já provou em ‘A Chegada’ (filme que, coincidentemente, também lida com linguagem alienígena de forma cerebral, sob direção de Denis Villeneuve) — lidera como uma meteorologista. O elenco inclui Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell e Elizabeth Marvel como uma freira.

A diversidade de tipos (desde figuras religiosas até cientistas, passando por burocratas e militares) reforça a tese de que o filme examina a questão alienígena através de múltiplas lentes humanas: fé, ciência, medo, esperança, cinismo institucional. Spielberg parece estar construindo um filme onde a tensão vem da ambiguidade, não da ameaça explícita. Se ‘Guerra dos Mundos’ nos fazia sentir a poeira vermelha da destruição cobrindo a lente da câmera, ‘Dia D’ promete nos fazer sentir o frio na barriga da dúvida — aquele silêncio antes do contato.

É uma aposta arriscada para um blockbuster de verão — especialmente considerando que o diretor praticamente inventou o conceito de “filme de verão” com ‘Tubarão’ em 1975. Mas é uma aposta que só Spielberg tem autoridade para fazer.

O legado e a pergunta que permanece

O que Spielberg está propondo com ‘Dia D’ é, talvez, seu filme de sci-fi mais pessoal desde ‘E.T.’ — mas por razões opostas. Se aquele era sobre um garoto que encontra um amigo no céu, este parece ser sobre adultos que perdem a inocência ao descobrir que o céu nos observa de volta. A abordagem cerebral, focada na “urgência” da questão sobre nossa solidão cósmica, posiciona o filme como uma reflexão sobre crença no século XXI.

Resta saber se Spielberg conseguirá manter o equilíbrio entre a contemplação filosófica e a necessidade de entretenimento de massa. Seu histórico sugere que sim — poucos diretores entendem melhor como esconder complexidade em embalagens acessíveis (pense em ‘Minority Report’, que discute livre-arbítrio disfarçado de perseguição futurista). Mas ‘Dia D’ representa um desafio distinto: como fazer um filme sobre aliens onde o verdadeiro monstro (ou a verdadeira redenção) seja a própria incerteza humana?

A resposta chega aos cinemas em 12 de junho. Até lá, fica a expectativa: estamos prestes a ver não apenas um retorno ao gênero, mas possivelmente a redefinição dele. Se ‘Dia D’ entregar o que o trailer e as declarações de Spielberg prometem, teremos algo raro — um blockbuster de 150 milhões de dólares que valoriza o silêncio do espaço sideral mais do que o barulho das explosões.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘Dia D’ de Spielberg

Quando estreia ‘Dia D’ nos cinemas?

‘Dia D’ tem estreia mundial prevista para 12 de junho de 2025 nos Estados Unidos. No Brasil, a distribuição é pela Universal Pictures, com lançamento simultâneo ou próximo à data americana.

Qual a diferença entre ‘Dia D’ e ‘Guerra dos Mundos’?

Enquanto ‘Guerra dos Mundos’ (2005) foca na invasão alienígena como catástrofe imediata e visceral, ‘Dia D’ adota abordagem filosófica. O novo filme explora a angústia existencial da descoberta de vida extraterrestre, priorizando o mistério e a introspecção sobre a ação e a destruição.

‘Dia D’ é sequência de ‘Contatos Imediatos’ ou ‘E.T.’?

Não. ‘Dia D’ é uma obra original, não relacionada às narrativas de ‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’ (1977) ou ‘E.T.: O Extraterrestre’ (1982). Trata-se de um novo capítulo independente na filmografia de ficção científica de Spielberg.

Quem está no elenco principal de ‘Dia D’?

O elenco é liderado por Emily Blunt (como uma meteorologista), Josh O’Connor, Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo, Wyatt Russell e Elizabeth Marvel. A diversidade de personagens (cientistas, religiosas, autoridades) sugere múltiplas perspectivas sobre o fenômeno alienígena.

O filme é baseado nos recentes relatórios de OVNIs do Congresso americano?

Embora não seja baseado em fatos específicos, Spielberg confirmou que o filme captura o “momento cultural” atual, onde discussões sobre OVNIs (agora chamados de UAPs) deixaram de ser marginais para ocupar audiências no Congresso. O roteiro reflete essa urgência contemporânea sobre a possibilidade de vida extraterrestre.

Mais lidas

Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

Veja também