‘Soul’: Por que a obra-prima da Pixar foi injustiçada pela pandemia

‘Soul’, o filme mais ambicioso da Pixar, foi lançado direto no streaming durante a pandemia e nunca recebeu o reconhecimento que merecia. Analisamos como o contexto de 2020 prejudicou seu legado e por que a meditação sobre propósito de Pete Docter é uma obra-prima subestimada.

Existem filmes que nascem no momento errado. Não porque são fracos — justamente o oposto. São obras que, se lançadas em outro contexto, teriam sido celebradas como marcos culturais. ‘Soul’, a obra-prima da Pixar dirigida por Pete Docter, é o exemplo mais doloroso dessa categoria. Lançado diretamente no Disney+ em dezembro de 2020, quando o mundo estava isolado e os cinemas fechados, o filme mais maduro e ambicioso do estúdio jamais recebeu o reconhecimento que merecia.

O que torna isso particularmente trágico é que Soul Pixar talvez seja o filme mais corajoso que a Pixar já produziu. E não estou exagerando.

Por que ‘Soul’ é o filme mais corajoso da Pixar

Por que 'Soul' é o filme mais corajoso da Pixar

Pete Docter já havia dirigido ‘Monstros S.A.’ e ‘Divertida Mente’ — este último, uma exploração brilhante das emoções humanas através de uma menina de 11 anos. Com ‘Soul’, ele subiu a aposta: em vez de emocionar crianças, decidiu confrontar adultos com perguntas que muitos de nós evitamos fazer.

Joe Gardner não é um herói tradicional. É um homem de meia-idade, professor de música desiludido, que ainda sonha com uma carreira no jazz que nunca aconteceu. Quando finalmente consegue sua chance — uma audição com a lenda Dorothy Williams — ele morre. Cai num bueiro aberto. O filme não faz cerimônia: seu protagonista morre cinco minutos depois de realizar seu sonho.

A partir daí, ‘Soul’ constrói algo que nenhum filme de animação mainstream jamais tentou: uma meditação sobre o que significa estar vivo. Não “qual é o seu propósito” — essa pergunta clichê que filmes de autoajuda adoram — mas algo mais fundamental e perturbador: e se propósito não for o ponto?

O conceito de “faísca” que subverte tudo que aprendemos

O filme introduz o conceito de “faísca” — aquilo que faz uma alma estar pronta para a vida na Terra. A premissa parece, à primeira vista, mais do mesmo: encontre sua paixão, siga seus sonhos. Mas ‘Soul’ faz algo brilhante: subverte completamente essa ideia.

22, a alma que se recusa a nascer há milênios, é a chave dessa subversão. Ela testou tudo — hobbies, carreiras, atividades. Nada funcionou. Joe, convencido de que sua faísca é o jazz, tenta “ajudá-la” encontrando algo que a apaixone. O que ele descobre, e o que nós descobrimos junto com ele, é que a faísca não é profissão, nem talento, nem ambição.

A faísca é simplesmente o desejo de viver. O momento em que 22 finalmente encontra sua faísca não é grandioso — é ela comendo uma fatia de pizza, sentindo o vento no metrô, observando uma folha cair. Coisas que Joe passou a vida inteira ignorando enquanto perseguia seu “grande sonho”.

Há uma ironia precisa aqui: o filme mais filosófico da Pixar entrega sua mensagem mais profunda através de uma cena silenciosa de alguém apreciando uma fatia de pão. É cinema no seu estado mais puro — mostrando, não explicando.

Como a fotografia e o design sonoro criam dois mundos distintos

Como a fotografia e o design sonoro criam dois mundos distintos

Tecnicamente, ‘Soul’ é um tour de force que merece ser estudado. O diretor de fotografia Patrick Lin e a equipe de iluminação criaram duas linguagens visuais completamente distintas — e isso não é elogio genérico.

O Nova York de Joe é renderizado com um realismo quase documental. A luz dourada do final de tarde batendo nos prédios, o reflexo das vitrines no asfalto molhado, a textura do terno puído de Joe — cada detalhe respira vida real. Há uma cena específica, quando Joe caminha pela cidade após a audição bem-sucedida, em que a câmera o segue em plano-sequência enquanto ele flutua entre a euforia e a descrença. A luz muda gradualmente, do cinza urbano para um dourado quente, acompanhando sua transformação interna. É visualização de estado emocional no mais alto nível.

Contraste isso com o “Antes” — o reino onde almas são preparadas para a vida. Aqui, tudo é abstrato: linhas curvas, geometria impossível, uma paleta de azuis e roxos etéreos. Os Conselheiros, seres bidimensionais que parecem desenhos de fio de cobre vivos, existem num espaço que desafia a física. É como se Docter e sua equipe tivessem visualizado o conceito platônico de “antes da existência” — não um lugar, mas um estado de potencialidade pura.

E o som? Trent Reznor e Atticus Ross, os mesmos que assinaram a trilha de ‘The Social Network’, criaram algo que oscila entre o etéreo e o jazzístico. Quando Joe toca piano, o som é íntimo, próximo — você ouve os dedos deslizando nas teclas, a madeira do instrumento vibrando. É uma escolha que torna as cenas de performance quase táteis.

O lançamento na pandemia: um crime contra o cinema

Agora, o elefante na sala: ‘Soul’ foi lançado diretamente no Disney+ em 25 de dezembro de 2020. Sem festival de filme. Sem campanha de marketing robusta. Sem o ritual de ir ao cinema, comprar pipoca, sentar no escuro com estranhos e experimentar algo juntos.

Não é culpa da Pixar, claro. A pandemia forçou decisões impossíveis em toda a indústria. Mas o custo foi altíssimo.

Filmes de animação da Pixar tradicionalmente têm um ciclo de vida que começa nos cinemas e se expande para o cultural. ‘Toy Story’ definiu uma era. ‘Procurando Nemo’ fez gerações de crianças pedirem peixe-dourado. ‘Up’ virou referência emocional. ‘Soul’ nunca teve essa chance. Ele chegou nas casas das pessoas num momento em que todos estavam exaustos, ansiosos, consumindo conteúdo como distração — não como evento.

O filme venceu o Oscar de Melhor Animação e Melhor Trilha Sonora em 2021. Num ano normal, esses prêmios teriam sido o ponto de partida para uma campanha cultural robusta. Em 2020, foram apenas mais duas estatísticas numa cerimônia reduzida, sem plateia, sem o brilho que a categoria merece.

Além disso, o filme foi vítima de sua própria ambição. Alguns críticos o chamaram de “complicado demais para crianças” — uma crítica que revela mais sobre a expectativa do que sobre a execução. ‘Soul’ não é um filme infantil — é um filme sobre vida adulta disfarçado de animação. Crianças podem apreciar as cores, o humor, a jornada de Joe e 22. Mas o verdadeiro peso do filme — a meditação sobre mediocridade, sobre sonhos não realizados, sobre encontrar significado no ordinário — isso é para adultos.

Por que ‘Soul’ assusta (e por que isso é bom)

Por que 'Soul' assusta (e por que isso é bom)

Vou ser honesto: quando assisti pela primeira vez, ‘Soul’ me incomodou. Não porque fosse confuso, mas porque era preciso demais. Joe é um personagem que espelha uma ansiedade muito real — a de ter passado a vida esperando que algo “grande” acontecesse enquanto a vida real passava despercebida.

Há uma cena, próxima do final, que deveria ser estudada em escolas de roteiro. Joe finalmente realiza seu sonho — toca com Dorothy Williams, dá seu melhor solo, sente a glória do momento. E depois, no camarim, ele pergunta: “E agora? O que vem depois?” Dorothy responde com uma história sobre um peixe que busca o oceano, só para descobrir que já estava nele o tempo todo.

A mensagem não é “não persiga seus sonhos”. É algo mais sutil e mais perturbador: realizar seu sonho não vai magicamente consertar sua vida. A satisfação que Joe buscava no palco estava disponível o tempo todo — no arroz com feijão que sua mãe preparava, nas aulas de música que ele considerava um fracasso, nas conversas com o barbeiro que ele nunca realmente ouviu.

Isso é um filme “para crianças”? Claro que não. E graças a isso, é uma obra-prima.

O curta ’22 Contra a Terra’ prova que o mundo de ‘Soul’ merecia mais

Em 2021, a Pixar lançou ’22 Contra a Terra’, um curta dirigido por Kevin Nolting que funciona como prequela direta do filme. Tina Fey retorna como 22, e a trama mostra ela formando uma “aliança rebelde” para impedir que almas vão para a Terra.

O curta é leve, engraçado, bem construído. Mas seu mero existir diz algo importante: o universo de ‘Soul’ era rico o suficiente para expansões. Os conceitos criados por Docter e sua equipe — o Antes, o Além, a burocracia das almas, os Conselheiros — tinham potencial para muito mais. Um longa sequela? Uma série animada? Um especial de Natal?

Não vamos ter nada disso. ‘Soul’ não performou bem o suficiente comercialmente para justificar investimentos. E isso é uma pena, porque o curta prova que havia mais história para contar — particularmente sobre 22, uma das personagens mais interessantes que a Pixar já criou.

O veredito: uma obra-prima que o mundo não estava pronto para receber

‘Soul’ não é perfeito. O terceiro ato acelera demais, algumas piadas não pousam, e a resolução final é mais convencional do que o resto do filme merecia. Mas essas falhas são irrelevantes diante do que o filme alcança.

É raro um filme de estúdio mainstream tratar seu público como adultos capazes de reflexão. É mais raro ainda um filme de animação que questiona as próprias premissas do gênero — o herói que alcança seu sonho, a jornada linear de autodescoberta, a ideia de que propósito é destino. ‘Soul’ desafia tudo isso com elegância e humor.

Se você ainda não viu, ou se viu na época do lançamento e não deu a devida atenção, recomendo rever. Não como distração de domingo, mas como o que o filme merece ser: uma experiência meditativa sobre o que significa estar vivo.

Para quem gosta de cinema que arrisca, que não subestima seu público, que trata temas profundos sem ser pretensioso, ‘Soul’ é obrigatório. Para quem busca animações “bonitinhas” para as crianças, talvez seja melhor escolher outra coisa — e isso é o maior elogio que posso fazer.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Soul’

Onde assistir ‘Soul’ da Pixar?

‘Soul’ está disponível exclusivamente no Disney+ desde dezembro de 2020. O filme não foi lançado em outras plataformas de streaming ou venda digital.

‘Soul’ é um filme para crianças?

Tecnicamente, sim — a classificação indicativa é livre. Mas ‘Soul’ é, na prática, um filme sobre vida adulta disfarçado de animação. Crianças podem aproveitar o visual e o humor, mas a meditação sobre propósito, mediocridade e significado da vida é voltada para adultos.

Quem dirigiu ‘Soul’?

‘Soul’ foi dirigido por Pete Docter, também responsável por ‘Monstros S.A.’ (2001), ‘Up – Altas Aventuras’ (2009) e ‘Divertida Mente’ (2015). Ele é o diretor criativo da Pixar desde 2018.

‘Soul’ ganhou Oscar?

Sim. ‘Soul’ venceu dois Oscars em 2021: Melhor Filme de Animação e Melhor Trilha Sonora Original (para Trent Reznor, Atticus Ross e Jon Batiste).

Qual a mensagem principal de ‘Soul’?

A mensagem central de ‘Soul’ subverte o clichê de “siga seus sonhos”: o filme argumenta que propósito não é profissão ou ambição, mas o simples desejo de viver e apreciar os momentos ordinários. A satisfação que buscamos em grandes realizações muitas vezes está disponível no cotidiano que ignoramos.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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