‘Sneaky Pete’ é o sucessor espiritual de Breaking Bad que você deixou passar

‘Sneaky Pete’ é o sucessor espiritual de ‘Breaking Bad’ que quase ninguém viu: um thriller de golpes onde o suspense nasce de mentiras acumuladas, não de tiroteios. Analisamos por que a série da Prime Video captura o mesmo humor negro e a mesma moralidade ambígua do universo de Walter White.

Quando ‘Breaking Bad’ terminou em 2013, deixou um buraco específico na TV. Não era só Walter White — era aquela mistura rara de tensão existencial, humor negro e o prazer culpado de acompanhar um protagonista que racionaliza cada passo rumo ao abismo. Quando a Amazon cancelou ‘Sneaky Pete’ após a terceira temporada, em 2019, pouca gente percebeu que tinha acabado de perder uma das séries que melhor herdaram esse sabor. E isso não acontece por “parecer com” — acontece por compartilhar o mesmo motor dramático: um anti-herói competente, um mundo onde moralidade é moeda de troca e reviravoltas que nascem mais de psicologia do que de explosões.

O parentesco com ‘Breaking Bad’ é literal e, ao mesmo tempo, enganoso se você ficar só no crédito: Bryan Cranston é produtor executivo e aparece em papel importante, mas a semelhança real está no modo como ‘Sneaky Pete’ (Prime Video, 2015–2019) constrói suspense por acúmulo. Cada mentira resolve um problema imediato e cria outros três — e o roteiro faz você entender por que o personagem escolhe o pior caminho, justamente porque o caminho “certo” quase nunca está disponível.

O que ‘Sneaky Pete’ herda de ‘Breaking Bad’ (e o que troca no processo)

O que 'Sneaky Pete' herda de 'Breaking Bad' (e o que troca no processo)

Se ‘Breaking Bad’ era sobre transformação — um homem comum se tornando monstro — ‘Sneaky Pete’ é sobre disfarce: o protagonista já começa do lado errado e tenta sobreviver vestindo uma persona. A série troca o épico do deserto por um crime de escala doméstica, quase suburbano, onde a tensão nasce de conversas na mesa de jantar, olhares longos e perguntas simples que podem destruir uma vida inteira.

Isso aproxima a série não do “estilo” de Gilligan, mas do seu efeito: a sensação de inevitabilidade. Você vê a armadilha se fechando, mas torce mesmo assim — porque o personagem é rápido, carismático e, pior, muitas vezes está tecnicamente “certo” dentro do próprio raciocínio.

A premissa: identidade como arma, escudo e vício

Marius Josipovic (Giovanni Ribisi) sai da prisão com um problema claro: Vince (Bryan Cranston), um criminoso violento, quer seu dinheiro de volta. A saída é desesperada e brilhante — Marius assume a identidade de Pete Murphy, ex-colega de cela, e se infiltra na família distante do verdadeiro Pete no interior de Nova York. O que começa como um golpe de curto prazo vira um laço perigoso quando ele descobre que os Murphy também têm negócios sujos e segredos demais para uma família “normal”.

A série é melhor quando trata a impostura como tema, não como truque. Ribisi faz um trabalho corporal preciso: ele altera postura, cadência e até o jeito de ocupar o espaço dependendo do que está “interpretando”. Há um tipo de desconforto específico quando Marius começa a se sentir genuinamente acolhido fingindo ser outra pessoa — não porque isso é “bonito”, mas porque revela algo perturbador: às vezes, pertencimento vem mais fácil quando você mente direito.

Uma cena que explica tudo: o jantar e a mentira que cresce sozinha

Uma cena que explica tudo: o jantar e a mentira que cresce sozinha

Logo na primeira temporada, existe uma sequência exemplar em que Marius precisa explicar um ferimento de faca durante um jantar em família. O suspense não depende de ninguém sacar uma arma; depende de tempo e detalhe. A mentira vai se expandindo em tempo real — ele adiciona nomes, motivos, circunstâncias, e cada palavra abre uma nova chance de contradição. É o mesmo princípio que fazia ‘Breaking Bad’ funcionar nas cenas “pequenas”: você prende a respiração porque sabe que o desastre pode nascer de uma frase mal colocada.

E é aí que a série mostra seu diferencial: ela filma e monta essas situações como jogo de xadrez. O corte costuma respeitar a reação dos outros personagens (um micro-silêncio, um olhar que demora um segundo a mais), porque o perigo real é social: ser lido, decodificado, expulso.

Humor negro: a comédia de erros como mecanismo de tensão

É fácil esquecer como ‘Breaking Bad’ era engraçada no começo — uma comédia sombria de improvisos malditos antes de virar tragédia total. ‘Sneaky Pete’ opera nessa frequência por bastante tempo: situações absurdas acontecem porque a farsa exige soluções cada vez mais improváveis, e a graça nasce da habilidade (e do desespero) com que Marius tenta manter o controle.

O riso, porém, vem sempre com ansiedade. A pergunta não é “o que vai acontecer?”, e sim “até onde ele vai para impedir que aconteça?”. Marius não é um novato tropeçando; é um profissional do golpe. O que muda não é sua competência — é a escala do dano emocional que ele aceita causar para continuar sendo “Pete”.

Elenco e química: por que a família Murphy não é só cenário

Elenco e química: por que a família Murphy não é só cenário

Ribisi segura o centro, mas a série cresce porque a família não é um conjunto de vítimas passivas. Margo Martindale (Audrey) é o trunfo: maternal e predatória na mesma cena, ela desconfia do “sobrinho” por motivos que o roteiro faz questão de complicar, evitando a caricatura da “velha intuitiva”. Marin Ireland (Julia) adiciona instabilidade emocional real — o vínculo com Marius é feito de atração, competição e autoengano, e a série nunca deixa claro se o que eles chamam de conexão é afeto ou reconhecimento entre manipuladores.

Cranston, como Vince, funciona quase como comentário metanarrativo sem virar piscadela barata. Quando ele entra, o mundo moral escurece: não é um vilão gritante, é um empresário do crime com regras próprias, capaz de carinho e crueldade no mesmo gesto. A dinâmica com Marius tem um quê de relação paterna distorcida — e isso é muito mais ‘Breaking Bad’ do que qualquer referência direta.

Três temporadas: suficientes para o golpe, insuficientes para a cicatriz

O cancelamento em 2019 pareceu parte de uma virada de mercado: streamings priorizando “evento” e IP alto em vez de dramédias criminais de médio orçamento, sustentadas por roteiro e performance. E ‘Sneaky Pete’ é exatamente esse tipo de série: ela precisa de diálogos afiados, de subtexto, de suspense construído no detalhe.

Ainda assim, há um mérito no formato curto. A estrutura de con — cada golpe gerando novos riscos — tem um ritmo de metrônomo que poderia virar repetição se esticado demais. O problema é que a terceira temporada eleva as apostas e abre portas emocionais que pediam fechamento: algumas relações ficam deliberadamente no ar, e certas revelações sobre o passado (especialmente em torno do próprio “Pete”) funcionam mais como ponto de virada do que como conclusão. Não é que a série “acaba mal”; ela acaba cedo.

Para quem ‘Sneaky Pete’ é a herança perfeita (e para quem não é)

Se o que te fisgou em ‘Breaking Bad’ foi a lógica interna do colapso — decisões justificáveis no momento que, somadas, viram tragédia — ‘Sneaky Pete’ acerta em cheio. É uma herança que troca química por psicologia, o deserto por vizinhança e a transformação por dissimulação.

Agora, se você quer ação constante, resolução limpa e um protagonista “evoluindo” de forma épica, talvez a série pareça contida demais. Ela exige paciência, porque o prazer está em observar como mentiras pequenas viram realidades alternativas. Minha recomendação é simples: assista aos três primeiros episódios com atenção ao jogo de olhares e às pausas — é ali que a série mostra seu verdadeiro parentesco com a era dourada dos anti-heróis.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Sneaky Pete’

Onde assistir ‘Sneaky Pete’ no Brasil?

‘Sneaky Pete’ é uma série original do Prime Video e, em geral, fica disponível no catálogo da plataforma (a disponibilidade pode variar por região e data).

Quantas temporadas e episódios tem ‘Sneaky Pete’?

A série tem 3 temporadas. No total, são 30 episódios (10 por temporada).

Preciso assistir ‘Breaking Bad’ para entender ‘Sneaky Pete’?

Não. A comparação com ‘Breaking Bad’ é de tom (humor negro e moralidade ambígua) e de “DNA” criativo, mas a história de ‘Sneaky Pete’ é totalmente independente.

Bryan Cranston atua em ‘Sneaky Pete’ ou só produz?

Ele faz os dois: é produtor executivo e atua como Vince, um criminoso que pressiona o protagonista desde o começo da série.

‘Sneaky Pete’ termina com final fechado?

Parcialmente. A 3ª temporada entrega resoluções importantes, mas o cancelamento fez com que alguns arcos e ganchos ficassem sem um fechamento completo.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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