‘Smallville’ está no Top 2 da Netflix no Brasil 25 anos após a estreia. Analisamos os dados globais do fenômeno e como a série criou o modelo narrativo que o Arrowverse copiou — e por que uma produção de 2001 conquista novos públicos em 2026.
Vinte e cinco anos depois de estrear, ‘Smallville: As Aventuras do Superboy’ está no Top 2 da Netflix no Brasil — e não é nostalgia barata explicando o fenômeno. É uma geração inteira descobrindo que, antes do MCU dominar os cinemas e do Arrowverse lotar a televisão, existiu uma série que tratou super-heróis com uma seriedade que o gênero nunca tinha ousado tentar na TV.
Os números do FlixPatrol não mentem: a série lidera em #1 no México, segura o segundo posto não só no Brasil como em Chipre, República Dominicana, Bahamas, Finlândia, Jamaica, El Salvador e Trinidad e Tobago. A escalada é global. Em outubro de 2026, ‘Smallville’ completa um quarto de século de existência.
Como ‘Smallville’ criou o mapa que o Arrowverse seguiu
Quando Al Gough e Miles Millar lançaram a série em 16 de outubro de 2001, adaptações de quadrinhos na televisão eram um deserto. O cinema tinha o franchise Batman de Burton e Schumacher — uma montanha-russa de qualidade — e a TV tinha basicamente nada de relevante. ‘Smallville’ chegou propondo algo que parecia herético: um Superman sem capa, sem voo, sem a mitologia completa. O que parecia limitação virou liberdade criativa.
A série se concentrou em Clark Kent aprendendo a lidar com poderes que ele não pediu, em um ambiente que misturava o formato procedural de “o monstro da semana” com uma mitologia serializada que se aprofundava temporada a temporada. Fórmula que ‘Arqueiro’ copiou explicitamente quando estreou em 2012 — e que se tornou o padrão para todo o Arrowverse. Oliver Queen começou como um vigilante sem poderes, enfrentando vilões standalone enquanto construía uma conspiração maior. É herança direta.
O que ‘Smallville’ fez melhor que a maioria dos seus sucessores foi a construção lenta de Lex Luthor como adversário. Michael Rosenbaum não interpretou um vilão de cartola desde o dia um. Ele interpretou um amigo. Um aliado. Alguém que o público torcia para que não caísse — sabendo que a queda era inevitável. Essa tensão dramática, o público sabendo o destino enquanto os personagens ignoram, é pura tragédia grega aplicada ao gênero de super-heróis.
Por que uma série de 2001 está conquistando novos espectadores em 2026
A resposta óbvia seria “algoritmo de recomendação”. A resposta real é mais complexa. ‘Smallville’ tem algo que muita produção moderna perdeu no caminho: paciência narrativa. Em uma era de séries que resolvem arcos em oito episódios e cancelam antes de desenvolver personagens, ver uma produção que levou dez temporadas para contar uma jornada completa — do adolescente confuso ao herói que aceita seu destino — oferece algo raro: certeza de que o investimento vale a pena.
O piloto estabeleceu o tom em sua sequência de abertura: Clark pendurado num espantalho, no meio de um campo de milho, com um S vermelho pintado no peito. A imagem resume a proposta da série — um herói caído, humano, preso entre dois mundos, ainda não pronto para voar. A fotografia saturada de dourados e verdes, a trilha sonora de Mark Snow que ecoava o mistério de ‘Arquivo X’, tudo conspirava para dizer: isso não é um programa de heróis para crianças.
Há também o fator Tom Welling. O ator nunca vestiu a capa — uma decisão criativa que gerou debates fervorosos na época e que, visto em retrospecto, envelheceu bem. Ele encarnou um Clark Kent que nunca se reduziu ao herói perfeito ou ao nerd desajeitado de tropos antigos. Era um jovem carregando o peso de segredos que não compreendia, em uma cidade pequena onde todos tinham segredos próprios. Universal o suficiente para atravessar gerações.
O contexto atual da DC pesa. Com James Gunn pilotando um novo universo cinematográfico e a Warner reavaliando seu catálogo de propriedades, o momento pede olhar para trás. ‘Smallville’ representa uma era onde a DC na TV funcionava de forma relativamente autônoma, criando sua própria mitologia sem precisar se alinhar com um filme a cada dois anos. Essa liberdade criativa brilha quando comparada com a complexidade atual de cronologias interconectadas.
O revival animado que nunca saiu do papel — e provavelmente não vai
Desde o final da série em 2011, Tom Welling e Michael Rosenbaum tentam emplacar uma continuação animada. O projeto, que teria os atores originais dublando seus personagens, nunca recebeu sinal verde da Warner. Com o foco da DC Studios no Universo DC de Gunn, as chances diminuíram ainda mais.
É uma pena. ‘Smallville’ terminou no momento certo, mas deixou fios soltos que uma animação poderia explorar sem comprometer o legado da série live-action. O final mostrou Clark finalmente assumindo a identidade de Superman, mas deixou implícito que a jornada estava apenas começando. Quinze anos de história não contada — mais do que suficiente para uma temporada animada.
A resistência da Warner faz sentido comercial: reviver uma propriedade de 25 anos para um público que talvez não conheça o original é risco. Mas o sucesso atual na Netflix prova que existe demanda. Existe audiência. Existe, principalmente, uma janela de oportunidade que pode fechar quando a nostalgia der lugar à próxima descoberta do algoritmo.
Veredito: vale maratonar em 2026?
Sim, com ressalvas. As primeiras temporadas sofrem com o formato “monstro da semana” herdado de séries como ‘Arquivo X’ — alguns episódios envelheceram mal, outros são esquecíveis. Mas a partir da terceira temporada, quando a mitologia kryptoniana se aprofunda e Lex Luthor começa sua descida moral, ‘Smallville’ encontra um ritmo que justifica as 217 episódios. A quarta temporada, que introduz Lois Lane interpretada por Erica Durance, marca um salto de qualidade — a química entre Welling e Durance é um dos pontos altos da série.
Para quem cresceu vendo a série originalmente, é uma oportunidade de reavaliar com distância crítica. Para a nova geração descobrindo através da Netflix, é uma aula de como o gênero de super-heróis na televisão aprendeu a andar antes de tentar correr.
Nos EUA, a série está na Hulu. No resto do mundo, a Netflix detém os direitos de streaming — o que explica a explosão simultânea em múltiplos territórios latinos. Se você está no Brasil e nunca viu, esse é o momento. Se viu e está em dúvida sobre reassistir: a série merece ser revisitada não pelo que foi, mas pelo que construiu. O Arrowverse, o MCU na televisão, a normalização de super-heróis como assunto sério na telinha — tudo tem raízes em Kent, Kansas.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre Smallville na Netflix
Onde assistir Smallville no Brasil?
No Brasil, todas as 10 temporadas de ‘Smallville’ estão disponíveis na Netflix desde 2026. A série também pode ser encontrada em serviços de compra digital como Amazon e Apple TV.
Quantas temporadas e episódios tem Smallville?
‘Smallville’ tem 10 temporadas com um total de 217 episódios. A série foi exibida originalmente de 2001 a 2011, com temporadas variando entre 20 e 24 episódios cada.
Smallville tem conexão com o Arrowverse?
Não há conexão direta de história, mas ‘Smallville’ criou o modelo narrativo que ‘Arqueiro’ e o Arrowverse inteiro seguiram: protagonista jovem, formato “monstro da semana” nas primeiras temporadas e mitologia serializada que se aprofunda com o tempo.
Quem interpreta Clark Kent em Smallville?
Tom Welling interpreta Clark Kent em todas as 10 temporadas. O ator nunca vestiu o uniforme claje de Superman na série — uma decisão criativa que manteve o foco na jornada do personagem antes de se tornar o herói.
Vale a pena assistir Smallville em 2026?
Sim, especialmente a partir da terceira temporada. As primeiras temporadas têm episódios esquecíveis no formato “monstro da semana”, mas a mitologia se aprofunda e o arco de Lex Luthor é uma das melhores construções de vilão na TV de super-heróis.

