‘Sicario’: por que o thriller de Taylor Sheridan e Villeneuve só melhora com o tempo

Analisamos por que ‘Sicario’ permanece como o thriller definitivo da década de 2010. Descubra como a colaboração entre Taylor Sheridan e Denis Villeneuve subverteu o gênero ao transformar a tensão técnica em um comentário devastador sobre a moralidade moderna.

Há filmes que operam como entretenimento e filmes que operam como traumas controlados. ‘Sicario: Terra de Ninguém’ (2015) pertence ao segundo grupo. Mais de uma década após sua estreia, o longa de Denis Villeneuve não apenas mantém sua relevância; ele se consolidou como o marco zero de uma nova era para o thriller político e de ação, servindo de fundação para o que hoje conhecemos como o ‘estilo Taylor Sheridan’.

A tempestade perfeita: Sheridan, Villeneuve e Deakins

A tempestade perfeita: Sheridan, Villeneuve e Deakins

O que torna ‘Sicario’ uma obra-prima de combustão lenta é o alinhamento quase milagroso de três talentos em seus auges criativos. Taylor Sheridan, então um ator de televisão em transição, entregou um roteiro despojado de gordura e de moralismo. Ele não escreveu uma história sobre a guerra às drogas; escreveu sobre o fim do idealismo americano diante de um sistema que não joga pelas regras.

Denis Villeneuve, por sua vez, trouxe a sensibilidade que o tornaria o mestre da ficção científica moderna em ‘Duna’. Em ‘Sicario’, ele usa o espaço e o silêncio para criar uma claustrofobia em campo aberto. A sequência da travessia da fronteira em Juarez é, tecnicamente, uma aula de montagem e ritmo. O uso de câmeras fixas e cortes precisos transforma um congestionamento sob o sol escaldante em uma zona de guerra iminente. Você não apenas assiste à tensão; você a sente fisicamente através da trilha sonora visceral e minimalista do saudoso Jóhann Jóhannsson.

A fotografia como ferramenta de desorientação

Não se pode falar de ‘Sicario’ sem dissecar o trabalho de Roger Deakins. A fotografia aqui não busca apenas o ‘belo’, mas o desconfortável. O uso de silhuetas durante a operação noturna no túnel — onde os soldados desaparecem na escuridão sob a luz infravermelha — é uma metáfora visual perfeita para o filme: a perda da identidade e da humanidade em nome da missão.

Deakins e Villeneuve evitam o clichê do ‘filtro amarelo’ para retratar o México. Em vez disso, usam uma paleta de cores naturalista, porém dura, que torna a violência ainda mais crua quando ela finalmente explode. É uma abordagem documental que empresta uma autoridade quase jornalística à ficção de Sheridan.

Kate Macer e a subversão da jornada do herói

Kate Macer e a subversão da jornada do herói

A personagem de Emily Blunt, Kate Macer, é o nosso ponto de entrada e, simultaneamente, nossa maior frustração. Em qualquer outro filme, ela seria a heroína que desmascara a conspiração. Em ‘Sicario’, ela é o espectador: uma observadora impotente. A cena final, onde ela confronta Alejandro (Benicio Del Toro) em sua cozinha, é o prego no caixão do herói clássico. ‘Você não é um lobo’, diz Alejandro. E ele tem razão. O filme nos obriga a aceitar que, nesse ecossistema, a ética é um peso morto.

Essa recusa em oferecer uma catarse moral é o que faz o filme envelhecer tão bem. Enquanto thrillers contemporâneos tentam ser ‘importantes’ através de diálogos expositivos, ‘Sicario’ é importante através da ação e da omissão. Ele entende que, na geopolítica moderna, o silêncio é muitas vezes mais revelador do que a confissão.

O legado de Taylor Sheridan: de ‘Sicario’ ao Império ‘Yellowstone’

É fascinante observar ‘Sicario’ como o embrião de tudo o que Sheridan viria a construir. Elementos como a fronteira como terra sem lei, o homem endurecido pelo sistema e a burocracia como vilã estão presentes em ‘Hell or High Water’ e ‘Wind River’ (que completam sua trilogia temática da fronteira americana). Hoje, com o sucesso massivo de ‘Yellowstone’ e suas expansões, percebemos que Sheridan não mudou seu estilo; ele apenas expandiu a escala da desolação que apresentou pela primeira vez em 2015.

Vale a pena rever em 2026?

Sim, e talvez mais agora do que no lançamento. Em um cenário cinematográfico saturado de efeitos visuais e narrativas higienizadas, ‘Sicario’ permanece como um lembrete do poder do cinema tátil e adulto. É um filme que confia na inteligência do público para entender o que não é dito e na paciência para suportar uma tensão que nunca se resolve totalmente. É, sem dúvida, o ápice da colaboração entre um roteirista implacável e um diretor visionário.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Sicario’

Onde posso assistir ‘Sicario: Terra de Ninguém’?

‘Sicario’ está disponível para streaming em diversas plataformas, incluindo Netflix e Prime Video (a disponibilidade pode variar conforme a região). Também é possível alugar ou comprar em 4K na Apple TV e Google Play.

O filme ‘Sicario’ é baseado em uma história real?

Não diretamente. Embora se baseie fortemente na realidade da guerra aos drogas e na violência dos cartéis em Ciudad Juárez, os personagens e a trama específica da força-tarefa da CIA são fictícios, criados por Taylor Sheridan.

O que significa a palavra ‘Sicario’?

Como explicado na introdução do filme, ‘Sicario’ é o termo em espanhol para assassino de aluguel ou matador. O termo tem raízes históricas nos ‘Sicarii’, um grupo de zelotes judeus que usavam pequenas adagas (sicae) para assassinar romanos e seus colaboradores.

Preciso assistir ao primeiro ‘Sicario’ para entender a sequência?

Embora ‘Sicario: Dia do Soldado’ (2018) possa ser compreendido como uma história isolada, assistir ao original é essencial para entender a motivação e o peso emocional dos personagens de Benicio Del Toro e Josh Brolin.

Haverá um ‘Sicario 3’?

Existem discussões sobre um terceiro filme, provisoriamente chamado de ‘Sicario: Capos’. Embora os produtores tenham manifestado interesse em reunir o elenco original, incluindo Emily Blunt, ainda não há uma data de produção confirmada ou o retorno oficial de Denis Villeneuve na direção.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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