Shane Black assume adaptação de ‘Julgamento de um Traidor’ após décadas de falhas

Após 50 anos de tentativas frustradas, a série ‘Julgamento de um Traidor’ finalmente ganha uma adaptação com Shane Black. Explicamos por que o criador de ‘Máquina Mortífera’ é a escolha perfeita para trazer Mack Bolan às telas.

Há projetos que parecem amaldiçoados. Outros, apenas teimosos — se recusam a morrer, atravessam décadas, mudam de mãos, perdem estrelas, ganham roteiristas, e continuam lá, esperando o momento certo. ‘Julgamento de um Traidor’ é desse segundo tipo. E se alguém duvidava que um dia sairia do papel, a notícia de que Shane Black assumiu a adaptação é um sinal de que a calibragem pode ter sido encontrada.

Não é pouco tempo. Estamos falando de uma série literária que começou em 1969, acumulou 464 livros ao longo de 51 anos, gerou spin-offs, criou um protagonista icônico no universo dos thrillers de ação — Mack Bolan — e, ainda assim, nunca conseguiu uma adaptação para o cinema. Tentaram. Várias vezes. Desde 1972, produtores, roteiristas e estúdios bateram na porta dessa franquia e saíram de mãos vazias.

Por que ninguém conseguia adaptar ‘Julgamento de um Traidor’?

Por que ninguém conseguia adaptar 'Julgamento de um Traidor'?

A resposta está parcialmente na natureza do material. Don Pendleton criou Mack Bolan como um veterano do Vietnã que, após perder a família para a máfia, se torna um justiceiro implacável. A estrutura é episódica: cada livro é uma missão, um alvo, uma guerra particular. Funciona em papel — leitores devoravam um título por mês durante décadas. Mas no cinema, essa fórmula apresenta um problema clássico: como transformar uma série procedural em um filme com começo, meio e fim satisfatórios?

William Friedkin tentou. O diretor de ‘O Exorcista’ e ‘Caçada ao Outubro Vermelho’ escreveu uma versão nos anos 1980 que teria Sylvester Stallone no papel principal. Imagino o que seria ver Stallone como Bolan — físico imponente, presença silenciosa, violência controlada. Mas o projeto morreu. Mais recentemente, Shane Salerno desenvolveu uma adaptação para a Warner Bros. com Bradley Cooper cotado para o papel. Também não foi adiante.

O fato é: adaptar ‘Julgamento de um Traidor’ exige alguém que entenda ação não como espetáculo, mas como consequência. Cada tiro tem um peso. Cada missão carrega um trauma. E é aqui que a escolha de Shane Black começa a fazer um sentido impressionante.

A calibragem que o projeto esperava há 50 anos

Shane Black não é apenas o roteirista de ‘Máquina Mortífera’. Ele é, talvez, o maior especialista vivo em um subgênero específico: o thriller de ação com humor seco e personagens que conversam como pessoas reais. Em ‘Dois Caras Legais’, seu filme de estreia na direção, ele transformou um noir de Los Angeles em uma comédia de erros cheia de cadáveres. Em ‘Beijos e Tiros’, pegou o arquétipo do detetive durão e o colocou em uma sessão de terapia.

Agora, pense em Mack Bolan. Um homem que perdeu tudo. Que carrega ódio como combustível. Que mata sem prazer, mas sem hesitação. O que acontece quando você coloca esse personagem nas mãos de alguém que sabe dar profundidade a figuras unidimensionais?

Não é difícil imaginar. A filmografia de Black demonstra uma obsessão consistente: homens quebrados tentando se manter funcionais. Martin Riggs em ‘Máquina Mortífera’ é o exemplo canônico — um suicida em potencial que encontra razão para viver através de uma amizade improvável. Holland March, o detetive de ‘Dois Caras Legais’, é um fracassado charmoso que se redime. Até mesmo seus filmes menos aclamados, como ‘O Predador’, carregam essa marca: personagens que são mais do que arquitetos de violência.

Bolan, na página, pode ser uma máquina de matar. Na tela, nas mãos de Black, tem potencial para ser algo mais — um homem cuja capacidade para violência é simultaneamente sua maldição e sua utilidade.

A equipe que aumenta as chances de sucesso

A equipe que aumenta as chances de sucesso

Black não está sozinho. Ele vai escrever o roteiro com Anthony Bagarozzi e Charles Mondry, seus colaboradores em ‘Dirty Money’ — o filme que ele lançou recentemente após anos de desenvolvimento. Mais importante: a produção conta com Joel Silver, o homem que produziu ‘Máquina Mortífera’, ‘Matrix’ e definiu a linguagem do filme de ação moderno.

Silver e Black trabalharam juntos em quatro filmes. Conhecem a gramática um do outro. Sabem onde um exagera e onde o outro contém. Essa parceria, somada ao fato de a Sony ter adquirido os direitos de toda a série, cria um cenário que as tentativas anteriores nunca tiveram: controle criativo centralizado e uma equipe que se entende.

Há também o contexto do mercado atual. Séries como ‘John Wick’ e ‘Jason Bourne’ provaram que existe público para heróis de ação taciturnos, eficientes e moralmente complicados. ‘Julgamento de um Traidor’ pode parecer, à primeira vista, um relicário dos anos 1970 — justiça vigilante, crime organizado, um homem contra o sistema. Mas se você trocar a máfia italiana por cartéis globais, se atualizar as ameaças para o mundo pós-11 de setembro, o material se torna perfeitamente contemporâneo.

O que ainda não sabemos — e por que isso importa

Não há anúncio de elenco. Não sabemos quais livros serão adaptados — se um específico, se uma síntese de vários, se uma história original usando o personagem. Também não há garantia de que Black dirigirá; por ora, ele está confirmado apenas como roteirista, com possibilidade de assumir a cadeira de diretor.

Mas o simples fato de o projeto ter saído do limbo já é uma vitória. E a escolha de Black sugere algo que as tentativas anteriores talvez não compreendessem: respeito pela natureza do material. ‘Julgamento de um Traidor’ nunca foi sobre explosões grandiosas ou vilões caricatos. É sobre um homem que declara guerra ao crime organizado e mantém essa guerra por décadas, sozinho, sem glória, sem reconhecimento.

Se Shane Black conseguir traduzir essa solidão para a tela — e sua filmografia sugere que é exatamente isso que ele faz melhor —, a espera de 50 anos pode ter valido a pena. Às vezes, um projeto não falha por maldição. Falha porque ainda não encontrou a pessoa certa. Para ‘Julgamento de um Traidor’, essa pessoa pode ter finalmente chegado.

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Perguntas Frequentes sobre a adaptação de ‘Julgamento de um Traidor’

Quem é Mack Bolan, protagonista de ‘Julgamento de um Traidor’?

Mack Bolan é um veterano da Guerra do Vietnã que, após perder sua família para a máfia, se torna um justiceiro dedicado a destruir o crime organizado. Foi criado por Don Pendleton em 1969 e protagonizou 464 livros ao longo de cinco décadas.

Quem já tentou adaptar ‘Julgamento de um Traidor’ antes de Shane Black?

William Friedkin (‘O Exorcista’) tentou nos anos 1980 com Sylvester Stallone cotado para o papel. Mais recentemente, Shane Salerno desenvolveu uma versão para a Warner Bros. com Bradley Cooper em mente. Ambos os projetos não avançaram.

Shane Black vai dirigir o filme ou apenas escrever o roteiro?

Por ora, Shane Black está confirmado apenas como roteirista, trabalhando com Anthony Bagarozzi e Charles Mondry. Há possibilidade de ele assumir a direção, mas nada foi anunciado oficialmente.

Quando será lançado o filme de ‘Julgamento de um Traidor’?

Não há data de lançamento anunciada. O projeto acabou de sair do estágio de desenvolvimento e ainda não há elenco definido nem confirmação de quem dirigirá.

Quantos livros tem a série ‘Julgamento de um Traidor’?

A série criada por Don Pendleton em 1969 acumulou 464 livros ao longo de 51 anos, gerando também spin-offs. A Sony adquiriu os direitos de toda a série para a adaptação.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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