Analisamos por que o reboot de ‘Scanners’, a obra-prima de David Cronenberg que previu a premissa de ‘The Boys’, continua preso no limbo do desenvolvimento. Descubra os desafios técnicos, o peso do legado do body horror e por que a HBO ainda não conseguiu tirar o projeto do papel.
Existe um tipo de filme que deveria ter se tornado uma franquia multibilionária, mas que Hollywood parece ter deixado no fundo de uma gaveta trancada. ‘Scanners’, de David Cronenberg, é o exemplo mais frustrante dessa categoria. O longa de 1981 não apenas antecipou a estética do cinema de super-humanos, como estabeleceu as bases do body horror moderno — e, mesmo assim, continua preso em um ciclo interminável de promessas de reboot que nunca se materializam.
A pergunta que persiste entre os entusiastas do gênero é: em uma era saturada de heróis e reviravoltas biológicas, por que ninguém consegue fazer ‘Scanners’ cruzar a linha de chegada da produção?
A técnica por trás da explosão: muito além do efeito visual
Se você conhece ‘Scanners’, é por causa daquela cena. Michael Ironside (o vilão Darryl Revok) usa sua vontade psíquica para detonar a cabeça de um oponente. Mas o que torna essa cena um marco não é apenas o choque; é o artesanato. Para 1981, Cronenberg e sua equipe de efeitos (liderada por Dick Smith) realizaram o impossível usando um busto de gesso recheado de fatias de fígado, látex e comida de cachorro, detonado por uma espingarda disparada por trás.
O problema é que esse momento icônico acabou se tornando uma maldição para a marca. Hollywood passou décadas tentando replicar o choque visual, esquecendo que o verdadeiro poder do filme reside na sua paranoia política e na biologia transgressora — marcas registradas do cinema de Cronenberg.
A conexão direta com ‘The Boys’ e o conceito de Ephemerol
É impossível assistir a produções contemporâneas como ‘The Boys’ ou ‘Gen V’ sem ver o DNA de ‘Scanners’. Cronenberg introduziu o Ephemerol, uma droga teratogênica dada a mulheres grávidas que, acidentalmente, criou a geração de scanners. É o precursor exato do Composto V da Vought.
A diferença fundamental é o tom. Enquanto as séries atuais pendem para o cinismo satírico, ‘Scanners’ é um thriller de espionagem frio e clínico. O protagonista Cameron Vale não é um herói relutante comum; ele é um pária social que vive em um estado de cacofonia mental constante até aprender a ‘escanear’. Essa abordagem mais séria e visceral é o que falta nas tentativas de reboot: os estúdios parecem ter medo de abraçar o horror biológico puro em favor de uma ação mais palatável.
O labirinto do desenvolvimento: da HBO ao veto criativo
Por que o reboot não sai? Houve tentativas legítimas. A mais promissora surgiu recentemente com a HBO, envolvendo nomes como William Bridges (‘Black Mirror’) e Yann Demange (‘Lovecraft Country’). A ideia de transformar a guerra entre os scanners e a corporação ConSec em uma série de prestígio parecia o caminho óbvio.
No entanto, o projeto enfrenta o ‘Fator Cronenberg’. Diferente de outras franquias onde o criador original é apenas um nome nos créditos, David Cronenberg é o arquiteto de uma linguagem muito específica. Qualquer tentativa de suavizar o material para o grande público descaracteriza a obra. Além disso, a saturação do gênero de super-heróis criou um paradoxo: os executivos temem que ‘Scanners’ seja visto como ‘apenas mais um’ filme de gente com poderes, ignorando que ele é o pai de todos eles.
O final que Hollywood teme explorar
Sem entregar spoilers para quem ainda não revisitou o clássico, o desfecho de ‘Scanners’ é um dos mais perturbadores e ambíguos da ficção científica. Ele sugere uma fusão de identidades que desafia a lógica narrativa convencional de Hollywood. Em um mercado que exige respostas claras e ganchos óbvios para sequências, a estranheza orgânica de Cronenberg é um obstáculo comercial.
Para um reboot funcionar em 2026, ele precisaria de um diretor que não tenha medo do ‘feio’. Alguém como Julia Ducournau (‘Titane’) ou Brandon Cronenberg (filho de David, que já provou carregar o gene do horror biológico em ‘Possessor’).
Veredito: Uma franquia desperdiçada ou um clássico protegido?
Talvez a inércia em torno de ‘Scanners’ seja, secretamente, uma benção. Em um cenário onde clássicos são diluídos por comitês de marketing, o silêncio sobre o reboot preserva a aura de perigo do original. ‘Scanners’ não é apenas sobre cabeças explodindo; é sobre a invasão da privacidade definitiva — o pensamento. E talvez Hollywood ainda não tenha a mente aberta o suficiente para processar isso.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Scanners’ de David Cronenberg
Onde posso assistir ao filme ‘Scanners’ original?
Atualmente, ‘Scanners’ (1981) está disponível em plataformas de nicho como o MUBI ou para aluguel digital no Prime Video e Apple TV, dependendo da sua região.
Haverá uma série de ‘Scanners’ na HBO?
Um projeto de série foi anunciado pela HBO em 2022 com produção da Waystar e Michael Ellenberg. Embora ainda não tenha sido oficialmente cancelado, o desenvolvimento segue em ritmo lento e sem data de estreia confirmada.
Como foi feita a cena da cabeça explodindo em ‘Scanners’?
A cena foi realizada com efeitos práticos: um busto de gesso preenchido com sobras de comida e látex foi detonado por um tiro de espingarda real disparado por trás da escultura para criar o efeito de dispersão visceral.
Existem sequências de ‘Scanners’?
Sim, existem ‘Scanners II: The New Order’ (1991) e ‘Scanners III: The Takeover’ (1992), além da trilogia spin-off ‘Scanner Cop’. No entanto, nenhum desses filmes teve o envolvimento de David Cronenberg ou alcançou o status de culto do original.

