Em ‘Rooster’, Steve Carell retorna ao humor constrangedor de Michael Scott, mas com 15 anos de experiência dramática que adicionam camadas ao constrangimento. Analisamos por que a série da HBO, criada por Bill Lawrence, pode ser mais que nostalgia.
Há quinze anos Steve Carell se despediu de Michael Scott e, desde então, evitou o tipo de comédia que o consagrou. Agora, Steve Carell em ‘Rooster’ representa algo que muitos consideravam improvável: um retorno ao humor constrangedor, àquele “cringe comedy” que ele aperfeiçoou em ‘The Office’. A pergunta que fica não é se ele ainda consegue ser engraçado — isso já provou em ‘Pequena Miss Sunshine’ e em momentos de ‘The Morning Show’ —, mas sim se o público está pronto para reviver o desconforto de assistir alguém que não tem noção do próprio ridículo.
A sinopse de ‘Rooster’ soa como uma carta na manga para fãs de Carell: ele interpreta um pai superprotetor que, após o término da filha com um professor universitário, decide “monitorar” a situação se infiltrando no campus. Aí entra o detalhe que transforma a premissa de “comédia familiar genérica” em algo muito mais específico: o personagem é um autor best-seller de romances eróticos. Não é difícil imaginar onde isso vai dar errado — e é exatamente aí que mora a promessa da série.
O timing cômico que Carell nunca perdeu
Ver o trailer de ‘Rooster’ é como reencontrar um velho amigo que você não via há anos e perceber que ele continua engraçado, só que agora com mais cicatrizes. A expressão de Carell quando seu personagem percebe que virou uma espécie de “guru sexual” para estudantes universitários? Puramente no estilo de Michael Scott — a convicção absurda de alguém que acredita ser algo que claramente não é. A forma como ele tenta ser protetor sem perceber que está sendo invasivo demais? Constrangimento na veia, aquele mesmo que nos fazia cobrir o rosto com as mãos durante episódios de ‘The Office’.
A diferença crucial é que Carell chegou a ‘Rooster’ com uma década de papéis dramáticos nas costas. Mitch Kessler em ‘The Morning Show’ era um homem desmoronando. Seu terapeuta em ‘O Paciente’ carregava um peso existencial palpável. Até mesmo ‘As Quatro Estações do Ano’ explorava dinâmicas emocionais que exigiam um ator que soubesse segurar o silêncio. Essa experiência dramática pode parecer um desvio da comédia, mas ela adicionou camadas ao que Carell faz agora. Quando seu personagem em ‘Rooster’ faz uma piada que cai completamente no vazio, há algo mais triste ali do que haveria em 2011 — e essa tristeza é o que torna o constrangimento ainda mais eficaz.
Por que ‘Space Force’ não contava como retorno
É impossível falar sobre Carell na comédia sem mencionar o elefante na sala: ‘Space Force’. Tecnicamente, era comédia. Na prática, era uma série que nunca soube direito o que queria ser — sátira política? Paródia de workplace? Drama de escritório com piadas ocasionais? O problema não era Carell, cujo compromisso com o personagem nunca esteve em dúvida. O problema era que o material pedia que ele fizesse “versão séria de Michael Scott no espaço”, um conceito que soa melhor no papel do que na execução.
‘Rooster’ parece ter aprendido com esse erro. Bill Lawrence, co-criador de ‘Ted Lasso’ e ‘Scrubs’, entende algo fundamental: comédia de personagem funciona quando o ambiente permite que o protagonista seja ridículo sem que o mundo ao redor pareça uma piada. Em ‘Ted Lasso’, o futebol era levado a sério mesmo quando Ted era um peixe fora d’água. Em ‘Rooster’, a academia parece tratada com realismo — o que torna a presença de um autor de romances eróticos tentando dar aulas ainda mais absurda.
O que o trailer revela sobre o tom da série
Alguns detalhes do trailer merecem atenção. A forma como Carell entrega aulas sobre seus próprios livros eróticos com total seriedade, como se estivesse ministrando um seminário sobre literatura russa, é um exemplo perfeito de como o ator usa a “convicção equivocada” como ferramenta cômica. Michael Scott acreditava que era um grande líder. O personagem de ‘Rooster’ acredita que é um pai exemplar e um autor respeitável. Em ambos os casos, a piada não é a situação — é a distância entre o que o personagem pensa de si mesmo e o que a realidade mostra.
Phil Dunster, que roubou cenas como Jamie Tartt em ‘Ted Lasso’, aparece como o ex-namorado da filha — um professor universitário que trocou ela por uma estudante de pós-graduação. A dinâmica entre Dunster e Carell promete ser um dos pontos altos: dois homens com egos frágeis em ambientes onde não deveriam estar, colidindo de forma inevitável.
O legado de Michael Scott e o risco das comparações
Todo artigo sobre ‘Rooster’ vai mencionar Michael Scott. É inevitável e, até certo ponto, justo — Carell construiu um dos personagens cômicos mais influentes da história da televisão, e qualquer retorno à comédia pura vai ser medido por esse padrão. Mas há um risco nessa comparação: ela pode cegar o espectador para o que ‘Rooster’ está tentando fazer de diferente.
Michael Scott era um chefe incompetente em um ambiente onde incompetência tinha consequências limitadas. O personagem de ‘Rooster’ é um pai em um ambiente onde suas escolhas afetam diretamente a vida adulta da filha. As apostas são emocionalmente mais altas, e isso muda a textura da comédia. O constrangimento em ‘The Office’ era sobre “como esse homem ainda tem emprego?”. Em ‘Rooster’, a pergunta é “como essa filha ainda fala com esse pai?”. É uma diferença sutil, mas significativa.
Se ‘Rooster’ conseguir equilibrar o humor constrangedor com momentos de genuína conexão familiar — algo que ‘Ted Lasso’ provou ser possível —, teremos algo mais do que uma nostalgia bem executada. Teremos prova de que Carell não está voltando ao passado, mas usando tudo o que aprendeu nos últimos 15 anos para fazer um tipo de comédia que só agora ele conseguiria.
Veredito: promessa que merece ser acompanhada
Baseado no material disponível, ‘Rooster’ tem os elementos para funcionar: um criador com pedigree em comédia de personagem, um elenco que entende timing cômico, e uma premissa que permite tanto humor físico quanto verbal. A grande incógnita é se o público de 2026 tem paciência para o tipo de constrangimento que ‘The Office’ oferecia. Vivemos em uma era de comédia mais suave, mais “confortável” — e ‘Rooster’ parece propositalmente desconfortável.
Para fãs de Carell que sentiam falta dele “no modo Michael Scott”, a série é obrigatória. Para quem nunca viu ‘The Office’ ou nunca se conectou com esse tipo de humor, pode ser um teste de tolerância ao constrangimento alheio. De qualquer forma, é bom ter Steve Carell de volta fazendo o que ele faz melhor: nos fazendo rir enquanto cobrimos o rosto de vergonha alheia.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Rooster’
Onde assistir ‘Rooster’ de Steve Carell?
‘Rooster’ será disponibilizada na HBO e na plataforma de streaming Max. A série é uma produção original do canal.
Quem criou ‘Rooster’?
‘Rooster’ foi criada por Bill Lawrence (também criador de ‘Ted Lasso’ e ‘Scrubs’) em parceria com Steve Carell e Matt Tarses.
Qual é a premissa de ‘Rooster’?
Steve Carell interpreta um pai superprotetor que é autor best-seller de romances eróticos. Após o término da filha com um professor universitário, ele se infiltra no campus para “monitorar” a situação.
‘Rooster’ tem o mesmo humor de ‘The Office’?
Sim, ‘Rooster’ resgata o “cringe comedy” — humor constrangedor — que Carell aperfeiçoou como Michael Scott. A diferença é que as apostas emocionais são mais altas, já que o personagem é um pai e não um chefe.
Quem mais está no elenco de ‘Rooster’?
Além de Steve Carell, o elenco inclui Phil Dunster (‘Ted Lasso’) como o ex-namorado da filha, e Vivienne Lyra Blair como a filha do protagonista.

