‘Roma’: a série que ensinou a HBO a fazer ‘Game of Thrones’

‘Roma HBO’ custou US$ 100 milhões e construiu uma cidade real na Itália antes de ser cancelada. Analisamos como essa série criou o modelo visual e narrativo que ‘Game of Thrones’ herdou — e por que foi vítima de seu próprio pioneirismo.

Há uma ironia cruel na história da televisão que poucos mencionam: a série que criou o modelo para o maior sucesso da HBO foi cancelada justamente quando descobriu como fazer esse modelo funcionar. Roma HBO custou uma fortuna, construiu uma cidade de verdade na Itália e provou que audiências toleravam — na verdade, queriam — política complexa, violência gráfica e nudez frontal em série. Então foi cancelada. Dois anos depois, ‘Game of Thrones’ estreava usando exatamente a mesma fórmula.

O que ‘Roma’ fez entre 2005 e 2007 não foi apenas “mais uma série histórica”. Foi o momento em que a televisão olhou para o cinema e disse: podemos fazer isso também — e talvez melhor. A HBO apostou US$ 100 milhões na primeira temporada, algo como US$ 9-10 milhões por episódio. Para comparação: os primeiros anos de ‘Game of Thrones’ custavam “apenas” US$ 6 milhões por episódio. Ou seja, a predecessora era mais cara que o monstro de sucesso que viria depois.

Uma cidade de verdade na Itália: o custo que mudou a TV

Uma cidade de verdade na Itália: o custo que mudou a TV

A resposta está em Cinecittà, os lendários estúdios italianos onde Fellini filmou ‘La Dolce Vita’. Em vez de CGI e telas verdes, a HBO construiu uma Roma de verdade. Ruas com sistema de esgoto funcional. Interiores completamente mobiliados. Edifícios com profundidade suficiente para planos-sequência complexos. Isso não era cenário — era uma cidade habitável.

Quando você assiste a ‘Roma’ hoje, percebe a diferença. Há uma textura nas cenas de rua que CGI simplesmente não replica. Os soldados usavam armaduras feitas sob medida, não peças alugadas de produções anteriores. Os figurinos distinguem classes sociais com precisão: as faixas senatoriais estão lá, mas também estão as túnicas gastas dos plebeus. Milhares de extras povoavam cada cena de multidão. Era uma loucura produtiva — mas criava algo que o espectador sente, mesmo sem perceber tecnicamente.

A HBO estava apostando alto demais. E quando um incêndio destruiu parte dos cenários entre as temporadas, os custos de reconstrução se tornaram insustentáveis. A série foi cancelada não por falta de qualidade ou audiência — foi assassinada por planilha.

O DNA de Westeros está em Roma: a herança não reconhecida

É impossível assistir a ‘Roma’ e não ver o DNA de ‘Game of Thrones’ em cada frame. A estrutura narrativa que entrelaça figuras históricas reais com personagens fictícios lower class? ‘Roma’ fez primeiro com Lucius Vorenus e Titus Pullo, dois soldados inspirados em menções breves nos escritos de Júlio César. A mescla de intriga política com violência gráfica e sexo explícito? ‘Roma’ normalizou isso na televisão premium.

Mais importante: ‘Roma’ ensinou à HBO como gerenciar elencos enormes, produções internacionais e narrativas serializadas de longo fôlego. Três atores da série apareceram em ‘Game of Thrones’ — Ciaran Hinds (Mance Rayder), Indira Varma (Ellaria Sand) e Tobias Menzies (Edmure Tully). Não foi coincidência. Foi transferência de conhecimento institucional.

A diferença é que ‘Roma’ fazia tudo isso com um pé na realidade histórica. Os historiadores elogiaram a precisão: a cidade aparecia como era — lotada, caótica, colorida. Os penteados das mulheres da elite seguiam referências escultóricas da época. As batalhas tinham imprecisões, mas a vida cotidiana era surpreendentemente fiel. ‘Game of Thrones’ pegou essa lição de “realismo mesmo na fantasia” e aplicou a Westeros.

Onde Roma superou Game of Thrones: a ousadia que faltou em Westeros

Onde Roma superou Game of Thrones: a ousadia que faltou em Westeros

Vou dizer algo que pode gerar polêmica: em certos aspectos, ‘Roma’ era mais ousada que ‘Game of Thrones’. A série retratava a transição de República para Império Romano com uma complexidade moral que ‘Game of Thrones’ às vezes sacrificava em nome do espetáculo. Os protagonistas Vorenus e Pullo não eram heróis — eram homens falhos navegando um mundo em colapso. A série nunca julgava seus personagens; apenas mostrava as consequências de suas escolhas.

A cena em que Vorenus descobre a traição de sua esposa e a reação brutal que se segue não tem equivalente em ‘Game of Thrones’. Há uma crueza emocional ali que a série fantástica raramente alcançou. Kevin McKidd e Ray Stevenson criaram personagens que permaneciam no imaginário muito depois dos créditos — algo que a HBO tentou replicar com o elenco de Westeros, com sucesso variado.

Há também algo sobre a escala. ‘Roma’ era épica, mas íntima. Você conhecia cada canto do Aventine, cada templo, cada beco. ‘Game of Thrones’ expandiu para um mundo inteiro e às vezes perdia essa granularidade. A predecessora provou que você pode ter escopo cinematográfico sem sacrificar a proximidade com os personagens.

O cancelamento que mudou a história da TV

A decisão de cancelar ‘Roma’ após duas temporadas foi, na época, justificada como econômica. As audiências eram respeitáveis, mas não enormes. Os custos eram grotescos. A HBO olhou para os números e decidiu que não valia a pena.

O erro estratégico foi monumental. A série estava apenas encontrando seu ritmo. A transição de República para Impélio — um dos momentos mais dramáticos da história ocidental — foi interrompida no meio. Imagine se ‘Game of Thrones’ tivesse sido cancelada antes da Batalha de Winterfell ou da destruição de King’s Landing. Foi isso que aconteceu com ‘Roma’.

O cancelamento ensinou à HBO a lição que tornou ‘Game of Thrones’ possível. A emissora aprendeu que precisava de propriedades intelectuais existentes para amortizar riscos (George R.R. Martin já era best-seller). Aprendeu que sets práticos eram lindos, mas CGI bem feito era mais barato. Aprendeu que elencos grandes precisavam de gestão ativa. ‘Roma’ foi o laboratório caro que permitiu o sucesso posterior.

Por que você deveria assistir ‘Roma’ em 2026

Se você nunca viu ‘Roma’, está perdendo uma das séries mais subestimadas da era dourada da televisão. Não é perfeita — os primeiros episódios são lentos, alguns atores secundários são irregulares, e o final apressado denuncia o cancelamento repentino. Mas quando funciona, atinge alturas que poucas séries alcançam.

A produção visual resiste ao tempo de forma impressione. Vinte anos depois, aqueles sets de Cinecittà continuam mais convincentes que muito CGI atual. As atuações centrais de McKidd, Stevenson, e especialmente Polly Walker como a manipuladora Atia, permanecem memoráveis. E a ambição de contar a queda da República Romana através dos olhos de soldados anônimos é o tipo de premissa que raramente vemos hoje em dia.

Para fãs de ‘Game of Thrones’, ‘Roma’ é obrigatório. É a pré-história do estilo que você ama. Para quem gosta de história, é uma das representações mais respeitosas da Roma antiga já feitas na TV. Para quem simplesmente quer boa televisão, é uma série que merecia mais tempo — e que entrega muito em suas 22 horas.

No fim, ‘Roma’ foi vítima de seu próprio pioneirismo. Pagou o preço de ser a primeira a fazer algo que ninguém tinha feito. Abriu a porta por onde ‘Game of Thrones’ passaria triunfante. A HBO nunca reconheceu oficialmente essa dívida, mas está lá, gravada em cada frame de Westeros: sem a cidade construída na Itália, sem os soldados romanos, sem a ousadia de US$ 100 milhões em 2005, o Trono de Ferro nunca teria existido como conhecemos.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Roma’ da HBO

Onde assistir ‘Roma’ da HBO?

‘Roma’ está disponível na HBO Max (atual Max) em sua totalidade. As duas temporadas podem ser assistidas completas na plataforma.

Quantas temporadas tem ‘Roma’?

A série tem 2 temporadas, totalizando 22 episódios. Foi cancelada após a segunda temporada, deixando a história inacabada.

Por que ‘Roma’ foi cancelada?

O cancelamento foi motivado principalmente pelos custos de produção — cerca de US$ 100 milhões apenas na primeira temporada. Um incêndio que destruiu parte dos cenários entre as temporadas tornou a continuação financeiramente inviável para a HBO.

‘Roma’ é baseada em fatos reais?

Parcialmente. Os personagens principais Vorenus e Pullo são fictícios, mas inspirados em menções breves nos escritos de Júlio César. Já figuras como Júlio César, Marco Antônio, Otaviano e Atia são históricos, e os eventos políticos seguem a transição real de República para Império Romano.

Quais atores de ‘Roma’ apareceram em ‘Game of Thrones’?

Três atores de ‘Roma’ foram escalados em ‘Game of Thrones’: Ciaran Hinds (César em Roma, Mance Rayder em GoT), Indira Varma (Niobe em Roma, Ellaria Sand em GoT) e Tobias Menzies (Brutus em Roma, Edmure Tully em GoT).

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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