‘Ripley’: por que a versão de Andrew Scott supera o filme de 1999

Em ‘Ripley’ na Netflix, Andrew Scott redefiniu o vilão de Patricia Highsmith com uma performance sombria que expõe o que o filme de 1999 romantizou. Analisamos como o preto e branco e o ritmo deliberadamente lento criam o estudo psicológico definitivo de Tom Ripley.

Há algo perverso na pergunta que dá título a este artigo. Comparar adaptações é um dos esportes favoritos da crítica — quase sempre um exercício de futilidade. Mas no caso de ‘Ripley’ na Netflix, a comparação não apenas faz sentido como se torna inevitável. E a conclusão, depois de oito episódios absorventes, é difícil de escapar: Andrew Scott fez o Tom Ripley que Patricia Highsmith merecia.

O filme de 1999, ‘O Talentoso Ripley’, tem seus méritos. Anthony Minghella transformou o romance de 1955 em um thriller elegante, com fotografia ensolarada da Itália e um elenco de estrelas no auge. Matt Damon interpretou Ripley como um homem cuja solidão e insegurança geravam empatia — um psicopata que você quase torce para que dê certo. Quase.

Por que a versão de Andrew Scott é mais fiel ao espírito de Highsmith

A série ‘Ripley’ joga essa abordagem no lixo. E faz isso com uma convicção que beira o brutal. O Tom Ripley de Scott não é um homem solitário buscando conexão — é um predador observando seu ambiente, calculando movimentos, esperando o momento certo de atacar. Não há simpatia a ser encontrada. O que há é fascínio mórbido.

Steven Zaillian, criador da série, entendeu algo fundamental que Minghella deixou escapar: o terror de ‘O Talentoso Ripley’ não está em suas ações, mas em sua mente. A escolha pelo preto e branco não é afetação estética — é funcional. Sem as cores vibrantes da costa amalfitana para distrair, ficamos presos nos olhos de Scott, observando cada microexpressão, cada momento em que o personagem decide mentir. E mentir de novo. E mentir mais uma vez até que a mentira vire verdade.

Quem conhece o trabalho de Scott em ‘Fleabag’ sabe que ele tem uma capacidade assustadora de comunicar volumes inteiros com um único olhar. Em ‘Ripley’, essa habilidade é levada ao extremo. Há uma cena no terceiro episódio — evitarei spoilers específicos — em que Ripley precisa improvisar uma mentira diante de uma autoridade italiana. A câmera permanece fixa em seu rosto por longos segundos. Scott não pisca. Não gagueja. Apenas… se transforma. É assustador porque é sutil. É brilhante porque você percebe que aquele homem não sente nervosismo — apenas calcula probabilidades.

O que o preto e branco revela que o filme de 1999 escondeu

A fotografia de Robert Elswit em ‘Ripley’ merece cada um dos Emmys que conquistou — incluindo o de Melhor Fotografia em Série Limitada. Mas não pelo virtuosismo técnico — embora haja muito disso. O que torna o visual monocromático genial é o que ele tira do enquadramento: a tentação de romantizar.

No filme de Minghella, a Itália é um cartão-postal. As praias, as ruas de Veneza, a luz dourada — tudo convida o espectador a se perder na paisagem. Ripley se torna quase um coadjuvante de seu próprio cenário. Na série, o preto e branco reduz a Itália a texturas e sombras. Os cenários majestosos viram palcos para a performance de um homem que não pertence a lugar nenhum. A Itália não é o paraíso que Ripley deseja conquistar — é o território que ele precisa dominar.

Dennis Hopper também interpretou uma versão de Ripley em ‘The American Friend’ (1977), de Wim Wenders — uma abordagem igualmente fascinante, mas que usa o personagem como ponta de um thriller noir existencialista. A série da Netflix consegue algo diferente: torna Ripley o centro gravitacional de cada cena. Não há para onde olhar exceto para ele.

Andrew Scott e o silêncio que fala mais que qualquer diálogo

Andrew Scott tem um currículo respeitável — de ‘007 Contra Spectre’ a papéis de destaque no teatro britânico. Mas nada prepara para o que ele constrói aqui. Seu Ripley é magro, nervoso, aparentemente frágil. Você olha para ele e pensa: “Este homem não sobreviveria cinco minutos em uma briga”. E então você assiste-o manipular, mentir, matar — e percebe que a força dele nunca foi física.

A série leva seu tempo. Com oito episódios de cerca de uma hora cada, ‘Ripley’ é inequivocamente um slow burn. Para espectadores acostumados ao ritmo acelerado de produções como ‘You’ ou ‘Lupin’, a cadência pode parecer inicialmente frustrante. Mas é precisamente essa paciência que permite a profundidade psicológica que o material exige.

Cada mentira que Ripley conta é construída camada por camada. Cada assassinato é preparado com uma minúcia que beira o clínico. A série não tem pressa porque Ripley não tem pressa — e Scott transmite essa metodologia sem nunca torná-la tediosa. Há tensão em cada pausa, perigo em cada silêncio. O design de som, com seus ecos em espaços vazios e passos solitários, reforça o isolamento do personagem de forma quase opressiva.

O veredito: qual Ripley fica na história?

Se você me perguntar qual adaptação assistir, a resposta depende do que você busca. O filme de 1999 é mais acessível, mais convencional, mais “agradável” no sentido tradicional de entretenimento. Há beleza, há romance, há Damon fazendo um psicopata quase simpático.

A série ‘Ripley’ na Netflix é algo diferente. É um estudo de personagem que se recusa a facilitar as coisas. Não há redenção, não há desculpa, não há o conforto de torcer pelo vilão. Há apenas a observação clínica de um homem que quer ser outra pessoa — e está disposto a destruir qualquer um que atrapalhe esse objetivo.

Para quem valoriza cinema como arte psicológica, a série é superior. Para quem quer entretenimento mais tradicional, o filme de Minghella ainda tem seu lugar. Mas se você me perguntar qual versão permanece na memória dias depois de terminar, a resposta é simples: aquela em que Andrew Scott olha para a câmera, mente, e você acredita nele mesmo sabendo que não deveria.

Isso não é apenas atuação. É um estudo sobre o que somos capazes de acreditar quando queremos muito que algo seja verdade. Highsmith sabia disso. Zaillian entendeu. Scott executou com precisão cirúrgica. O resultado é uma das melhores séries de crime que a Netflix já produziu — e a adaptação definitiva de um dos personagens mais perturbadores da literatura.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Ripley’

Onde assistir ‘Ripley’ na Netflix?

‘Ripley’ está disponível exclusivamente na Netflix desde abril de 2024. É uma produção original da plataforma, com todos os oito episódios lançados simultaneamente.

Quantos episódios tem ‘Ripley’ e qual a duração?

A série tem 8 episódios, cada um com aproximadamente 60 minutos de duração. O formato permite um desenvolvimento psicológico mais profundo do personagem que um filme de 2 horas permitiria.

Precisa ter visto ‘O Talentoso Ripley’ (1999) para assistir à série?

Não. ‘Ripley’ é uma adaptação independente do mesmo romance de Patricia Highsmith, e não requer conhecimento prévio do filme de 1999. Na verdade, assistir sem referências anteriores pode tornar a experiência mais impactante.

Por que ‘Ripley’ é em preto e branco?

A escolha pelo preto e branco é narrativa, não estética. O criador Steven Zaillian e o diretor de fotografia Robert Elswit queriam eliminar as cores vibrantes da Itália que poderiam romantizar a história, forçando o espectador a focar exclusivamente nas ações e expressões de Ripley.

‘Ripley’ é baseado em história real?

Não. A série é adaptação do romance ‘O Talentoso Ripley’ (The Talented Mr. Ripley), publicado por Patricia Highsmith em 1955. O personagem Tom Ripley é fictício, embora a autora tenha se inspirado em elementos da psique humana para criá-lo.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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