O remake de ‘Homem ao Mar’ com Anna Faris e Eugenio Derbez tem apenas 24% no Rotten Tomatoes, mas lidera o Top 10 da Netflix em 2026. Entenda por que esse ‘fracasso’ de 2018 virou fenômeno de streaming.
Existe uma categoria específica de filme que só encontra seu público verdadeiro anos depois de estrear — e geralmente não é porque o filme melhorou com o tempo. É porque o contexto mudou. Homem ao Mar Netflix é o caso perfeito disso: um remake de comédia romântica que foi massacrado pela crítica em 2018, esquecido pelo grande público na época, e que agora, oito anos depois, ocupa o segundo lugar nos Estados Unidos e o quarto no ranking global da plataforma. O mais curioso? Ele continua sendo o mesmo filme com 24% de aprovação no Rotten Tomatoes. A diferença é que, em 2026, ninguém está mais tentando compará-lo com o original de 1987 ou avaliá-lo como “cinema de arte”. Ele finalmente pode ser o que sempre foi: um produto de entretenimento despretensioso que funciona perfeitamente para uma noite de sexta-feira no sofá.
Como um filme de 24% no Rotten Tomatoes conquistou o top 2 da Netflix
Desde que entrou no catálogo da Netflix em 6 de fevereiro, ‘Homem ao Mar’ não para de subir. Em apenas três dias, alcançou a segunda posição no Top 10 dos Estados Unidos, atrás apenas do documentário ‘Investigando Lucy Letby’, e quarto lugar no ranking mundial. Mas o que chama atenção não é só a posição — é o mapa geográfico do sucesso. O filme lidera as visualizações em países como Bolívia, Equador, Guatemala, Malta e Nicarágua, e aparece em segundo lugar em mercados tão distintos quanto Itália, Áustria, Suécia, México e Honduras.
Esse padrão revela algo importante: o apelo internacional do filme, especialmente na América Latina, está diretamente ligado à presença de Eugenio Derbez. O ator e comediante mexicano trouxe para o remake uma base de fãs que, em 2018, não foi suficiente para transformar o filme em um evento cinematográfico, mas que agora, no streaming, funciona como um algoritmo humano — milhões de espectadores que clicam assim que veem seu rosto na capa. O resultado é que um filme que estreou em segundo lugar nas bilheterias dos EUA (atrás de ‘Vingadores: Guerra Infinita’) e foi considerado um fracasso crítico, agora gera um engagement que muitos lançamentos originais da Netflix invejariam.
2018: O ano em que ‘Homem ao Mar’ não teve chance
Para entender o presente, precisamos voltar a 2018. O remake, dirigido por Rob Greenberg (estreante no cinema, conhecido por séries como ‘How I Met Your Mother’) e estrelado por Anna Faris (ainda no auge de ‘Mom’) e Derbez, chegou aos cinemas em maio daquele ano. O timing não poderia ser pior. Estrear uma comédia romântica modesta, com orçamento de apenas $12 milhões, na mesma época em que ‘Vingadores: Guerra Infinita’ dominava absolutamente tudo foi quase suicídio comercial — embora, ironicamente, o filme tenha conseguido arrecadar $91 milhões mundialmente, um lucro considerável que, na época, passou despercebido diante da avalanche de super-heróis.
Mas o problema maior foi a crítica. Com 24% no Rotten Tomatoes (contra 46% do original de 1987), os reviews foram desastrosos. O filme sofreu com a comparação inevitável com a versão de Garry Marshall, que tinha Kurt Russell e Goldie Hawn no auge da química de Hollywood. A inversão de gênero — aqui é o homem rico (Derbez) que sofre amnésia e é enganado pela trabalhadora (Faris) — foi vista por muitos como uma tentativa forçada de atualizar uma premissa que, nos anos 80, já era problemática. A química entre os protagonistas foi questionada. O humor foi tachado de previsível.
O que a crítica não percebeu na época, ou escolheu ignorar, é que ‘Homem ao Mar’ nunca tentou ser uma releitura “importante”. Ele era, acima de tudo, um veículo para duas estrelas de comédia com estilos distintos — o timing físico de Faris e o carisma latino de Derbez — funcionarem como alívio cômico em um ano dominado por Thanos.
Por que funciona agora: a lógica do streaming
A Netflix mudou as regras do jogo. No cinema, ‘Homem ao Mar’ competia com blockbusters de $300 milhões e a expectativa de que você deveria sair de casa e pagar $15 por ingresso. Na tela da sala de estar, o filme compete com o scroll infinito e a decisão de “o que tem de leve para assistir antes de dormir?”. E é exatamente nesse nicho que o remake brilha.
Reassisti o filme na semana passada, curioso para entender o hype repentino. A primeira coisa que salta é como a fotografia digital limpa da Netflix realça a estética de “comédia de sábado à tarde” do filme. As cores vibrantes do cenário costeiro — especialmente nas sequências de pesca onde Leonardo aprende a limpar peixes — criam uma atmosfera de conforto visual que, em 2018, passou batido quando avaliado sob a lente da “relevância cinematográfica”. A câmera de Greenberg não inventa: mantém planos médios estáveis que deixam os atores respirarem, uma escolha que hoje soa como alívio comparada à montagem frenética de muitas comédias atuais.
Anna Faris, aqui longe da personagem maternal de ‘Mom’, entrega uma performance que equilibra desespero financeiro com uma doçura que evita que a trama fique muito ácida. E Derbez, apesar de alguns momentos de exaggeração típica de suas comédias mexicanas, consegue vender a vulnerabilidade de um homem rico e arrogante que precisa reaprender a humanidade através do trabalho braçal. Não é ‘Cidadão Kane’. Mas é exatamente o tipo de narrativa redentiva que alimenta o algoritmo de “títulos similares a…” quando você acabou de ver ‘Doce Lar’ ou ‘O Primeiro Amor’ — ambos, coincidentemente, também no Top 10 global atual.
A inversão de gênero que irritou em 2018 e passa batido em 2026
Uma das críticas mais ferrenhas em 2018 foi sobre a troca de papéis. No original, Joanna (Goldie Hawn) é a vilã rica que sofre amnésia e é “escravizada” pelo carpinteiro Dean (Kurt Russell) como vingança. No remake, Kate (Faris) é a trabalhadora solteira mãe de três filhas que engana Leonardo (Derbez), um playboy mexicano bilionário. A crítica argumentou que, ao inverter os gêneros, o filme tornava a heroína “tóxica” de uma forma que o herói original não era.
Oito anos depois, essa discussão parece menos relevante — não porque o problema desapareceu, mas porque o público de streaming aprendeu a consumir comédias românticas como fantasia, não como manual de comportamento. O filme funciona porque estabelece claramente que Leonardo, antes da amnésia, é insuportavelmente elitista. A cena inicial no iate, onde ele insulta a equipe de cozinha e joga Kate ao mar (literalmente) com sua roupa de trabalho, é desenhada para que você não tenha pena dele. Quando Kate decide mantê-lo em sua casa de trabalhador pobre, fingindo que ele é seu marido e pai de suas filhas, o filme navega na área cinzenta da moralidade, mas sempre com o freio de mão puxado do humor.
O que funciona, e isso só fica evidente quando você para de procurar problemas, é a dinâmica entre Faris e Derbez. Eles não tentam recriar a química de Russell-Hawn; eles criam algo diferente, baseado na frustração de classe e na descoberta gradual de que a “família” improvisada que montaram é mais funcional que a vida de excessos de Leonardo. É bobo? É. Mas é bobo de um jeito que funciona quando você está lavando louça e precisa de algo na TV.
O veredito: um filme ruim que é bom exatamente por saber o que é
Vou ser direto: ‘Homem ao Mar’ de 2018 não é um clássico. Não é nem tão bom quanto o original de 1987, que já era um produto de seu tempo. Mas é um exemplo fascinante de como o streaming resgata filmes do limbo da reputação e os recoloca no centro da conversa cultural, ainda que por motivos completamente diferentes da intenção original.
O sucesso atual de Homem ao Mar Netflix não é sobre qualidade cinematográfica. É sobre conveniência, representação latina em um mercado global faminto por conteúdo bilíngue, e sobre como comédias românticas de estrutura clássica — encontro, conflito, reconciliação, beijo final — são raras hoje em dia. Em um mundo onde o cinema de estúdio é dominado por universos compartilhados e efeitos especiais, um filme onde o maior conflito é “será que ele vai descobrir que não é realmente pai daquelas crianças?” é, paradoxalmente, uma novidade.
Se você curte o gênero e consegue suspender a descrença suficiente para aceitar que uma mulher manteria um amnésico em casa como marido falso, vai se divertir. Se você procura uma comédia com nuances de ‘Annie Hall’, vá procurar outra coisa. Mas se quiser entender por que um filme com 24% no Rotten Tomatoes está batendo ‘Independence Day’ e ‘Uma Noite no Museu’ no ranking americano, a resposta é simples: às vezes, o que a gente quer é apenas algo leve, com final feliz garantido, e que não exija que você preste atenção em 15 filmes anteriores para entender a piada. ‘Homem ao Mar’ entregou exatamente isso em 2018. Só demorou oito anos para o público (e o algoritmo) perceberem.
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Perguntas Frequentes sobre Homem ao Mar na Netflix
Onde assistir o remake de ‘Homem ao Mar’ de 2018?
O remake de ‘Homem ao Mar’ (Overboard) está disponível exclusivamente na Netflix desde 6 de fevereiro de 2026. O filme não está disponível em outras plataformas de streaming no momento.
Por que ‘Homem ao Mar’ está no Top 10 da Netflix agora?
O filme de 2018 ganhou nova vida no streaming por três motivos: o algoritmo da Netflix o recomenda para fãs de comédias românticas leves, a presença de Eugenio Derbez atrai o público latino-americano, e o contexto de 2026 valoriza filmes despretensiosos com final feliz — diferente de 2018, quando competiu contra blockbusters nos cinemas.
Qual a diferença entre o remake de 2018 e o original de 1987?
A principal diferença é a inversão de gêneros: no original de 1987, a mulher rica (Goldie Hawn) sofre amnésia e é enganada pelo carpinteiro (Kurt Russell). No remake, o homem rico (Eugenio Derbez) é enganado pela trabalhadora (Anna Faris). Essa troca gerou polêmica em 2018, mas passa despercebida pelos espectadores de streaming em 2026.
Quem são os atores principais do remake de ‘Homem ao Mar’?
Os protagonistas são Anna Faris (como Kate, a trabalhadora solteira mãe de três filhas) e Eugenio Derbez (como Leonardo, o playboy bilionário que sofre amnésia). O elenco de apoio inclui Eva Longoria, Mel Rodriguez e Swoosie Kurtz.
O remake de ‘Homem ao Mar’ é bom ou ruim?
Críticamente, o filme tem apenas 24% de aprovação no Rotten Tomatoes. No entanto, funciona como entretenimento despretensioso para quem busca comédia romântica leve com final feliz garantido. O sucesso na Netflix em 2026 prova que atende uma demanda específica de conforto e conveniência, mesmo não sendo um clássico do gênero.
Preciso assistir o filme original de 1987 para entender o remake?
Não. O remake de 2018 é uma história independente, embora compartilhe a premissa básica com o original de 1987. Conhecer o filme antigo pode ajudar a notar as diferenças de tom e a inversão de papéis, mas não é necessário para acompanhar a trama.

