‘Reflection in a Dead Diamond’: o filme do ‘007 aposentado’ que a franquia Bond não ousou fazer

Analisamos como ‘Reflection in a Dead Diamond’ desconstrói o mito de James Bond através do experimentalismo sensorial. Descubra por que este thriller da Shudder, estrelado por Fabio Testi, é a ‘autópsia’ necessária de um arquétipo que a franquia oficial se recusa a aposentar.

Existe uma história que a franquia James Bond nunca teve coragem de contar: a do espião que sobreviveu. Não o 007 que morre em serviço como em ‘Sem Tempo para Morrer’, nem o que se aposenta para um final feliz que nunca veremos. Mas aquele que acordou um dia velho demais para o trabalho, abandonado pelo MI6, e foi forçado a confrontar décadas de violência glamourizada através da lente impiedosa da memória. ‘Reflection in a Dead Diamond’, o novo thriller da Shudder, faz exatamente isso — e o resultado é um ‘anti-Bond’ visceral.

Fabio Testi e o fantasma de Sean Connery

Fabio Testi e o fantasma de Sean Connery

O diretor belga Hélène Cattet e o parceiro Bruno Forzani escalaram Fabio Testi, aos 83 anos, para interpretar John D — um ex-espião vivendo seus últimos dias em um hotel de luxo que parece mais um mausoléu. A semelhança física com Connery não é coincidência; é uma declaração de intenções. Testi, que na vida real teve um relacionamento com Ursula Andress (a primeira Bond Girl), carrega camadas de meta-texto que o filme explora sem pudor. Ele não está apenas interpretando um personagem; ele está interpretando o entulho de um arquétipo.

A estrutura narrativa alterna entre o presente solitário de John D e flashbacks de sua juventude (vivida por Yannick Renier). O contraste é cruel: enquanto o jovem John usa gadgets extravagantes e exala a arrogância de quem detém a ‘licença para matar’, o velho John luta para distinguir lembranças reais de delírios senis. O ‘diamante morto’ do título é o próprio protagonista — uma joia que já não brilha, apenas distorce a luz.

A estética de Cattet e Forzani: uma autópsia sensorial

Se você conhece o trabalho anterior da dupla — como o neo-western ‘Let the Corpses Tan’ — sabe que o estilo deles é hiper-estilizado. Em ‘Reflection in a Dead Diamond’, eles usam a gramática do cinema Giallo e do Eurospy para desconstruir o mito. A fotografia abusa de closes extremos em olhos e mãos, enquanto o som de couro luvas, gelo no copo e o gatilho da Walther PPK são amplificados até se tornarem perturbadores.

A violência aqui não é coreografada para entretenimento. É bruta e consequente. Uma cena de interrogatório específica expõe a crueldade casual que o trabalho de espião exige, despindo John D da aura heroica. Ele é impulsivo, egoísta e misógino — adjetivos que Ian Fleming usava para descrever o Bond literário, mas que o cinema sempre suavizou com ternos caros e martinis.

O jogo meta que a Eon Productions jamais jogaria

O jogo meta que a Eon Productions jamais jogaria

O filme ataca diretamente a ‘amnésia coletiva’ da franquia oficial. A vilã Serpentik, que troca de pele constantemente, é uma metáfora óbvia para as seis trocas de rosto que o agente 007 sofreu em 60 anos. Em um momento visualmente audacioso, o jovem John D se vê substituído por uma versão ainda mais jovem de si mesmo em plena missão, uma referência ácida à forma como atores são descartados pela indústria assim que a primeira ruga aparece.

‘Reflection in a Dead Diamond’ faz o que a família Broccoli jamais faria: admite que Bond só funciona se ignorarmos as mulheres mortas e o rastro de destruição psicológica que ele deixa para trás. É um filme de horror existencial disfarçado de filme de espionagem.

Veredito: Para quem é (e para quem não é) este filme

Se você busca uma homenagem nostálgica e confortável ao mundo de Ian Fleming, este filme vai te frustrar. O ritmo é fragmentado e o experimentalismo visual de Cattet e Forzani exige um espectador ativo. No entanto, se você já se perguntou o que acontece quando a ‘máquina de matar’ envelhece e perde a utilidade para o Estado, esta é a resposta mais honesta que o cinema já produziu. Fabio Testi entrega a performance de uma vida, transformando a melancolia em algo quase físico. É o destino trágico de todo espião que não teve a sorte de morrer jovem.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Reflection in a Dead Diamond’

O filme ‘Reflection in a Dead Diamond’ faz parte da franquia oficial de 007?

Não. O filme é uma produção independente distribuída pela Shudder. Ele funciona como uma desconstrução não oficial e experimental do gênero de espionagem e do mito de James Bond.

Quem são os diretores de ‘Reflection in a Dead Diamond’?

O filme é dirigido pela dupla belga Hélène Cattet e Bruno Forzani, conhecidos por revitalizar o estilo Giallo em obras como ‘Amer’ e ‘The Strange Color of Your Body’s Tears’.

Qual a conexão entre Fabio Testi e James Bond?

Embora nunca tenha interpretado Bond, Fabio Testi é um ícone do cinema de gênero europeu e teve um relacionamento real com Ursula Andress, a primeira Bond Girl. Sua escalação é uma escolha metalinguística para simbolizar a era clássica da espionagem.

Onde posso assistir ‘Reflection in a Dead Diamond’?

O filme foi lançado originalmente na plataforma de streaming Shudder. No Brasil, sua disponibilidade pode variar entre serviços de nicho voltados para cinema de arte ou festivais de gênero.

O filme é muito violento?

Sim, o filme possui cenas de violência gráfica e um tom de horror psicológico. Seguindo o estilo dos diretores, a violência é estilizada, mas intencionalmente desconfortável.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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