Estreada em 2013, ‘Ray Donovan’ antecipou o modelo de drama criminal que ‘Bosch’ consagraria depois — com protagonista moralmente ambíguo e Los Angeles como personagem sombria. Analisamos por que a série de Liev Schreiber merece ser redescoberta.
Há séries que definem um subgênero, e há séries que preparam o terreno sem receber o crédito devido. ‘Ray Donovan’ pertence a esse segundo grupo — e é tempo de corrigir essa injustiça histórica.
Estreada em 2013 na Showtime, a série completou sete temporadas antes de seu cancelamento abrupto em 2020. Isso significa que quando ‘Bosch’ estreou em 2015, ‘Ray Donovan’ já havia estabelecido o modelo de drama criminal ambientado em Los Angeles com protagonista moralmente complexo. Se você devorou os sete anos de ‘Bosch’ acompanhando Harry Bosch resolver crimes, existe uma boa chance de ter sentido falta de algo similar depois do fim da série. A boa notícia: esse “algo” já existia antes mesmo de ‘Bosch’ estrear. A má notícia: foi cancelada sem o encerramento que merecia.
Por que ‘Ray Donovan’ é o antecessor espiritual de ‘Bosch’
As duas séries compartilham mais do que o cenário angelino e o formato procedural. Ambas são construídas em torno de um protagonista masculino carregado de demônios pessoais, cujo trabalho o coloca em constante atrito com a própria moralidade. Em ‘Bosch’, é um detetive da LAPD obcecado por justiça. Em ‘Ray Donovan’, é um “consertador” de problemas das celebridades — alguém que limpa o que a lei não consegue (ou não deve) tocar.
A similaridade de tom é evidente. Ambas operam naquele espaço cinzento onde crime e ordem se misturam, onde heróis são falhos e vilões são compreensíveis. Mas onde ‘Bosch’ se apoia na estrutura clássica do noir policial, ‘Ray Donovan’ vai mais fundo na lama: seu protagonista não resolve crimes — ele os encobre.
Isso cria uma tensão moral única. Você está torcendo por alguém que, fundamentalmente, trabalha para proteger os privilégios dos ricos e poderosos. A série nunca deixa isso fácil para o espectador.
Liev Schreiber: o ator que encontrou seu papel-definição
Antes de ‘Ray Donovan’, Liev Schreiber era “aquele cara de filmes” — o ator excelente que todo mundo reconhece mas ninguém cita como favorito. ‘X-Men Origins: Wolverine’, ‘Spotlight’, ‘Defiance’: presenças fortes em elencos coletivos, raramente o centro das atenções.
A série mudou isso completamente. Schreiber carrega 82 episódios nas costas com uma performance que mistura ameaça contida e vulnerabilidade surpreendente. Ray Donovan é um homem que resolve problemas alheios porque não consegue resolver os seus — e Schreiber comunica isso com um olhar, uma pausa, um silêncio. A primeira cena do piloto estabelece tudo: Ray acordando às 5h da manhã, mal falando, já resolvendo uma crise de um cliente. Não há explicação, não há backstory — apenas competência brutal.
O contraponto perfeito vem de Jon Voight como Mickey Donovan, o pai de Ray. Voight ganhou um Globo de Ouro pela primeira temporada, e não é difícil entender por quê: Mickey é caótico, manipulador, perigoso — mas também estranhamente carismático. A dinâmica entre pai e filho sustenta a série tanto quanto os casos da semana.
Hollywood como vilã: o submundo que a série expõe sem piedade
A maioria das produções sobre celebridades se divide em dois extremos: a idolatria cega ou a crítica moralista. ‘Ray Donovan’ escolhe um terceiro caminho — o da anatomia.
A série não julga Hollywood; ela a disseciona. Mostra como o poder funciona na prática: não através de conspirações elaboradas, mas de telefonemas, favores, ameaças veladas e dinheiro trocando de mãos em restaurantes vazios. O “fixer” de celebridades não é um invento roteirístico — é uma profissão real que a maioria do público prefere ignorar.
Cada cliente de Ray representa uma faceta diferente da indústria: atores em crise, produtores com segredos, executivos com muito a perder. A série nunca romantiza esses personagens, mas também não os transforma em caricaturas. Eles são simplesmente… pessoas acostumadas a comprar saídas para seus problemas.
A fotografia colabora para esse efeito. Los Angeles é filmada sem glamour — praias vazias de inverno, mansões que parecem mausoléus, escritórios corporativos impessoais. A cidade funciona como extensão do estado emocional dos personagens: bonita de longe, vazia por dentro.
O cancelamento que irritou fãs — e o filme que tentou consertar
Em fevereiro de 2020, a Showtime cancelou ‘Ray Donovan’ após a sétima temporada. O problema? O showrunner David Hollander já tinha a oitava temporada inteira planejada — aquela que encerraria a série de forma adequada.
A reação dos fãs foi imediata e intensa. Não era apenas frustração por perder uma série querida; era a percepção de que sete anos de investimento emocional não teriam um fechamento digno. Campanhas online surgiram exigindo uma conclusão.
A resposta da emissora veio em 2022: ‘Ray Donovan: O Filme’, um longa para TV que serviu como final improvisado. As críticas foram mistas — e justamente. Um filme de duas horas não consegue substituir uma temporada inteira de arcos de personagens, mas ofereceu ao menos um fechamento para a relação entre Ray e Mickey. É um “adeus” que funciona, mas deixa você imaginando o que poderia ter sido.
A expansão abortada: quando ‘MobLand’ quase foi spinoff
Para fãs de trivia industrial, aqui vai uma curiosidade que quase mudou tudo: em 2024, Guy Ritchie anunciou ‘MobLand’, uma série que começou como spinoff de ‘Ray Donovan’. O projeto, inicialmente chamado ‘The Donovans’, seguiria membros da família operando como fixers na Europa — uma prequela que expandiria o universo.
Mudou de direção. Em outubro do mesmo ano, foi reformatado como série independente, sem conexão oficial com o universo Donovan. Uma pena. A ideia de ver essa mitologia expandida com a assinatura visual de Ritchie era, no mínimo, intrigante.
Para quem ‘Ray Donovan’ é essencial
Se você se encaixa em qualquer destes perfis, ‘Ray Donovan’ vale o investimento:
- Fã de ‘Bosch’ buscando algo com DNA similar, mas com moralidade mais ambígua
- Admirador de dramas de personagem onde o arco pessoal importa tanto quanto o caso da semana
- Curioso sobre o lado oculto de Hollywood — não o glamour, mas a engrenagem
- Apreciador de atuação no seu mais alto nível (Schreiber e Voight valem o preço de entrada)
Aviso honesto: a série não é para quem quer heróis limpos. Ray Donovan faz coisas questionáveis por motivos compreensíveis, e a série raramente oferece respostas fáceis. Se você precisa de clareza moral absoluta, vai se frustrar.
Para os demais: sete temporadas de um dos dramas de crime mais subestimados da última década estão esperando. ‘Bosch’ provou que esse tipo de história tem público. ‘Ray Donovan’ provou isso primeiro — e, em muitos aspectos, com mais coragem.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Ray Donovan’
Onde assistir ‘Ray Donovan’?
No Brasil, ‘Ray Donovan’ está disponível na Paramount+. A série já passou por Netflix e Amazon Prime Video, mas a disponibilidade varia conforme acordos de licenciamento.
Quantas temporadas tem ‘Ray Donovan’?
‘Ray Donovan’ tem 7 temporadas, totalizando 82 episódios. A série foi cancelada em 2020, antes da oitava temporada planejada ser produzida.
‘Ray Donovan’ tem final fechado?
Parcialmente. Após o cancelamento abrupto, a Showtime produziu ‘Ray Donovan: O Filme’ (2022), um longa de duas horas que oferece encerramento para o arco principal entre Ray e seu pai Mickey. Não é o final planejado para uma oitava temporada, mas funciona como despedida.
Preciso assistir ‘Ray Donovan’ antes de ‘Bosch’?
Não. As séries são independentes, sem conexão narrativa. ‘Ray Donovan’ estreou antes (2013 vs 2015) e compartilha DNA temático similar, mas podem ser assistidas em qualquer ordem.
Qual a classificação indicativa de ‘Ray Donovan’?
No Brasil, ‘Ray Donovan’ é indicada para maiores de 16 anos. A série contém violência, linguagem forte, uso de drogas e cenas de sexo — típico do drama premium da Showtime.

