Analisamos ‘Public Access’, o documentário do Sundance 2026 que revela como a TV pública de NY nos anos 70 foi mais radical que o TikTok. Descubra como imagens raras de Basquiat e Bob Marley se misturam a partos ao vivo em um retrato visceral da liberdade de expressão.
Em 1971, Nova York iniciou um dos experimentos de mídia mais radicais da história americana: a televisão de acesso público. A premissa era quase impensável para os padrões de hoje — se você tivesse uma ideia, qualquer ideia, as chances de conseguir um horário na programação eram altíssimas. Padrões de qualidade? Inexistentes. Censura prévia? Mínima. O resultado foi uma explosão de criatividade crua e, frequentemente, de um conteúdo que faria qualquer executivo de TV tradicional entrar em colapso.
‘Public Access’ documentário Sundance 2026 resgata esse período com uma abordagem tão anárquica quanto seu objeto de estudo. Dirigido por David Shadrack Smith e produzido por figuras que entendem o DNA do caos urbano — como Steve Buscemi e Benny Safdie —, o filme evita a armadilha do documentário histórico convencional para se tornar uma imersão visceral em uma era que antecipou o ‘vale-tudo’ das redes sociais décadas antes do primeiro upload no YouTube.
O risco de David Shadrack Smith: deixar o arquivo ditar o ritmo
A escolha mais ousada de Smith é estrutural: em vez de enfileirar ‘talking heads’ (especialistas) explicando a importância histórica do acesso público, o diretor deixa o material bruto falar por si. As imagens ocupam o centro absoluto, enquanto criadores e apresentadores da época contribuem apenas com depoimentos em áudio. O efeito é hipnótico: assistir a ‘Public Access’ é como fazer um mergulho profundo em um algoritmo de recomendações de 1975, onde o próximo vídeo pode ser uma obra-prima ou um desastre absoluto.
Essa estrutura exige paciência. Em certos momentos, a falta de um narrador que amarre as pontas pode desorientar o espectador casual. No entanto, a montagem de Geoff Guetzmacher é cirúrgica, transformando o que poderia ser um amontoado de fitas mofadas em uma narrativa rítmica que maximiza o choque e o fascínio do inesperado.
O arquivo como protagonista: de Basquiat a partos ao vivo
O documentário entrega pérolas de arquivo que justificam, sozinhas, a sua existência. Vemos um Bob Marley jovem no ‘Rockers TV’ falando com uma franqueza desarmante sobre sua identidade. Jean-Michel Basquiat aparece experimentando com design gráfico em tempo real, muito antes de se tornar o ícone das galerias de arte. São registros raros de figuras que ainda não sabiam que seriam lendas.
Mas o filme brilha mesmo quando mergulha no bizarro: o fotógrafo Bob Gruen filmando o parto de sua esposa Nadya em detalhes explícitos transmitidos para toda a cidade; o infame ‘Spermathon’, que testava os limites da decência na TV aberta; e Jake Fogelnest, a criança que virou sensação fazendo perguntas irônicas direto de seu quarto. É o tipo de conteúdo que hoje seria banido em segundos por ‘violação de diretrizes’, mas que ali representava a liberdade absoluta.
‘Midnight Blue’ e a vanguarda da resistência
O documentário contextualiza como programas como ‘Midnight Blue’ — sexualmente explícito e politicamente incorreto — colocaram o acesso público no centro das batalhas pela Primeira Emenda. Mais importante ainda é o resgate da ‘Gay Cable Network’, que humanizou a comunidade LGBTQ+ durante o início devastador da crise da AIDS, enquanto a mídia mainstream preferia o silêncio ou o estigma.
Havia também o ‘Paper Tiger’, que usava o espaço público para desmontar a lógica do capitalismo e da publicidade infantil. Eram produtores que não pediam permissão e, crucialmente, não tinham anunciantes para agradar. Era a televisão em seu estado mais puro e perigoso.
O paralelo inevitável: do Canal C ao TikTok
É impossível assistir a ‘Public Access’ sem sentir um incômodo em relação ao presente. A comparação com o início do YouTube é óbvia, mas o filme nos força a uma conclusão amarga: os anos 70 eram mais radicais. Hoje, Instagram e TikTok são ambientes altamente policiados por algoritmos e termos de uso. Ganhamos alcance global, mas perdemos a aspereza do inesperado.
O documentário não precisa dizer isso explicitamente; a textura granulada do vídeo analógico e a coragem daqueles produtores amadores falam por si. A tensão entre liberdade de expressão e a necessidade de limites é um ciclo, e ‘Public Access’ mostra que já estivemos no limite extremo desse espectro.
Veredito: para quem é este documentário?
‘Public Access’ não é para quem busca uma cronologia didática. É para quem se interessa pela arqueologia da mídia e pela contracultura americana. A presença de Benny Safdie na produção faz todo o sentido: se você sentiu a energia ansiosa de ‘Uncut Gems’, reconhecerá um parentesco aqui, mas aplicado à realidade histórica.
O filme estreou no Sundance 2026 e deve seguir para plataformas de streaming em breve. É uma experiência essencial para lembrar que, muito antes dos influenciadores digitais, existiam pessoas dispostas a colocar sua vida (e seus partos) na tela apenas porque, pela primeira vez na história, elas podiam.
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Perguntas Frequentes sobre o documentário ‘Public Access’
Onde assistir ao documentário ‘Public Access’?
O filme estreou mundialmente no Festival de Sundance em janeiro de 2026. Até o momento, aguarda confirmação de distribuição em plataformas de streaming como Netflix ou MUBI.
Quem são os produtores de ‘Public Access’?
O documentário conta com a produção executiva de Steve Buscemi e Benny Safdie (diretor de ‘Uncut Gems’), o que garante o tom caótico e autêntico da obra.
O filme mostra celebridades antes da fama?
Sim. O documentário resgata imagens de arquivo raras de Jean-Michel Basquiat, Bob Marley, Debbie Harry e até um jovem Jake Fogelnest em seus primórdios na TV pública.
O que era o acesso público na TV americana?
Foi um sistema criado nos anos 70 que obrigava as empresas de TV a cabo a ceder canais para a comunidade local, permitindo que qualquer cidadão produzisse e transmitisse seu próprio conteúdo sem censura prévia.
O documentário é indicado para menores?
Devido ao material de arquivo que inclui nudez e temas adultos (como o programa ‘Midnight Blue’), o documentário deve receber uma classificação indicativa alta (provavelmente 16 ou 18 anos).

