‘Power Rangers’: a trágica história do dublê que usou suas habilidades para o crime

Conheça a trágica queda de Yasutomo Ihara, o dublê do Ranger Verde que, após uma lesão incapacitante e o abandono da indústria, usou suas habilidades acrobáticas para cometer 43 furtos, tornando-se o ‘Ladrão Homem-Aranha’ do Japão.

A história de ‘Power Rangers’ é construída sobre uma ilusão técnica que poucos fãs casuais compreendem totalmente. Enquanto os atores americanos gravavam cenas de colégio na Califórnia, as sequências de batalha eram importadas do Japão, extraídas da série ‘Kyoryu Sentai Zyuranger’. Essa colagem cultural criou ícones globais, mas escondeu os rostos daqueles que realmente executavam as proezas físicas. Um desses homens era Yasutomo Ihara, o suit actor por trás do lendário Ranger Verde, cuja trajetória pós-fama revela o lado sombrio da indústria de Tokusatsu.

O corpo por trás do mito: O Ranger Verde no Japão

O corpo por trás do mito: O Ranger Verde no Japão

Para o público ocidental, o Ranger Verde era Tommy Oliver. Mas, sob o capacete, nas cenas de luta que definiram a infância de milhões, estava Ihara. Como suit actor — termo japonês para dublês de corpo inteiro —, ele era um atleta de elite. O trabalho exigia não apenas acrobacias, mas a capacidade de atuar através de uma máscara de fibra de vidro, transmitindo a arrogância inicial e a posterior redenção do personagem apenas com a postura.

Ihara era mestre em usar a agilidade para compensar a visão limitada do traje. Suas coreografias eram o coração do sucesso da franquia; sem a precisão física de dublês como ele, o fenômeno ‘Power Rangers’ jamais teria cruzado o oceano. No entanto, no Japão, esses profissionais são frequentemente tratados como peças substituíveis em uma engrenagem de baixo custo e alto risco.

A queda brutal: Quando o herói perde sua utilidade

A carreira de um dublê de ação tem o prazo de validade de um atleta profissional, mas sem os salários milionários. Em 2009, uma lesão grave no joelho encerrou prematuramente a trajetória de Ihara. Em uma indústria que não oferece redes de segurança ou planos de transição, ele se viu aos 30 e poucos anos sem formação acadêmica e com um corpo que já não respondia aos comandos necessários para o trabalho físico.

O contraste é cruel: enquanto a marca ‘Power Rangers’ continuava gerando bilhões em licenciamento, o homem que deu vida física ao seu personagem mais popular lutava para pagar as contas. Ihara tentou abrir uma escola de teatro para passar seu conhecimento adiante, mas o capital necessário era inexistente. Foi nesse vácuo entre o sonho de ensinar e a realidade da pobreza que o ex-herói tomou uma decisão fatal.

O ‘Ladrão Homem-Aranha’ de Saitama

O 'Ladrão Homem-Aranha' de Saitama

Entre 2013 e 2014, a província de Saitama foi assolada por uma onda de crimes que desafiava a lógica policial. O criminoso não utilizava ferramentas de arrombamento comuns; ele escalava paredes externas de prédios, subia por canos de esgoto e invadia apartamentos por varandas em andares altos. A imprensa local, sem saber da identidade do suspeito, o apelidou de ‘Ladrão Homem-Aranha’.

Quando a polícia finalmente prendeu Yasutomo Ihara, a ironia se tornou trágica. O dublê do Ranger Verde estava usando as mesmas técnicas de escalada e equilíbrio que o tornaram famoso para invadir 43 residências. Ele confessou os crimes, admitindo ter roubado cerca de 8,2 milhões de ienes (aproximadamente 77 mil dólares na época) para financiar sua escola de drama. O herói que as crianças admiravam havia se tornado o vilão da vida real, utilizando seu ‘super-poder’ para vitimar civis.

Um legado manchado e uma indústria em xeque

Sentenciado a cinco anos de prisão em 2020, Ihara tornou-se um símbolo incômodo. Sua história não é apenas sobre um crime individual, mas sobre o descarte sistêmico de trabalhadores na indústria do entretenimento japonês. O Tokusatsu (gênero de efeitos especiais) depende visceralmente desses corpos, mas raramente os protege quando eles quebram.

Ao reassistir às cenas clássicas do Ranger Verde hoje, é impossível ignorar essa camada de realidade. O movimento fluido que vemos na tela é o mesmo que, anos depois, deslizaria silenciosamente por varandas em Saitama. A história de Ihara serve como um lembrete de que, por trás de cada uniforme colorido e cada explosão pirotécnica, existe um trabalhador humano cuja vida continua muito depois que a música tema para de tocar.

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Perguntas Frequentes sobre o Dublê do Ranger Verde

Quem foi o dublê japonês do Ranger Verde que foi preso?

O dublê era Yasutomo Ihara, um ‘suit actor’ que interpretou o Ranger Verde (Dragon Ranger) na série original japonesa ‘Kyoryu Sentai Zyuranger’, cujas cenas foram usadas na primeira temporada de ‘Power Rangers’.

Quais crimes o dublê do Ranger Verde cometeu?

Ihara confessou ter invadido 43 casas na província de Saitama entre 2013 e 2014. Ele utilizava suas habilidades de dublê para escalar paredes e entrar por varandas de andares elevados, roubando dinheiro e joias.

Por que ele começou a cometer crimes?

Segundo o próprio Ihara em seu julgamento, ele precisava de dinheiro para abrir uma escola de teatro após uma lesão no joelho encerrar sua carreira de dublê em 2009, deixando-o sem meios de subsistência.

Qual foi a sentença de Yasutomo Ihara?

Em 2020, Yasutomo Ihara foi sentenciado a cinco anos de prisão pelas dezenas de invasões e furtos cometidos no Japão.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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