Por que ‘Predator’ domina a Disney+ com ‘Terras Selvagens’ e ‘A Caçada’

A franquia Predator domina o top 2 da Disney+ com ‘Predator Terras Selvagens’ e ‘A Caçada’. Analisamos como a estratégia de Dan Trachtenberg, protagonistas improváveis e expansão da mitologia Yautja ressuscitaram uma série que parecia exausta aos 39 anos.

Em 1987, Arnold Schwarzenegger suou, grunhiu e enfrentou um alienígena invisível na selva. Quase 40 anos depois, a franquia Predator domina o top 2 mundial da Disney+ — sem um único músculo bombado à vista. São dois filmes com protagonistas que ninguém imaginaria: uma guerreira Comanche no século XVIII e um adolescente alienígena em busca de aprovação paterna. E funciona. Muito.

Os dados do FlixPatrol não mentem: ‘Predador: Terras Selvagens’ estreou há poucos dias na plataforma e já é o filme mais assistido em dezenas de países. Em segundo lugar? ‘O Predador: A Caçada’, o prequel de 2022 que a maioria do público descobriu agora, sugestionada pelo algoritmo depois de assistir ao novo lançamento. É o tipo de ressurreição que franquias cansadas sonham, mas poucas conseguem.

Como ‘Predator Terras Selvagens’ inverteu o jogo da franquia

A decisão de colocar um Yautja — a espécie dos predadores — como protagonista central era arriscada. Durante décadas, esses seres foram os vilões de cara feia, caçadores invisíveis que serviam como antagonistas perfeitos para heróis musculosos. Transformar um deles em Dek, um jovem em rito de passagem tentando provar seu valor para o pai, muda completamente a equação.

O que poderia ser um filme de ação genérico vira algo surpreendentemente íntimo. Dek não quer apenas matar — ele quer pertencer. A jornada pelo planeta desconhecido, com a sintética Thia como companheira improvável, cria uma dinâmica que remete mais a narrativas de coming-of-age do que aos filmes de comando da década de 80. Há sangue, sim, e violência suficiente para justificar a franquia, mas o tom mais leve permite que o público se importe com o personagem de uma forma que a série nunca ousou tentar.

A classificação PG-13 gerou ceticismo entre fãs hardcore. Eu entendo a desconfiança — a franquia sempre foi sinônimo de carnificina explícita. Mas assistindo ao resultado, a restrição força a criatividade: as sequências de ação precisam funcionar por tensão e coreografia, não apenas por exagero gore. Funcionam. A cena em que Dek enfrenta seu primeiro desafio real, com a câmera presa ao seu corpo enquanto o ambiente alienígena reage à sua presadas, demonstra que efeitos práticos e encenação física continuam sendo a base de ação memorável — mesmo quando o protagonista é digital.

O prequel que preparou o terreno para esse renascimento

‘O Predador: A Caçada’ chegou em 2022 como um experimento. Tirar a ação da selva contemporânea e transportá-la para as planícies Comanche em 1719 parecia gambiarra de roteirista sem ideias. O resultado provou o contrário.

Naru, interpretada por Amber Midthunder, é uma protagonista que carrega o filme nas costas com uma naturalidade impressionante. A premissa — uma guerreira em treinamento enfrentando um predador com tecnologia superior usando apenas conhecimento do ambiente e astúcia — devolve à franquia o que ela tinha perdido: a sensação de que o humano está em desvantagem real.

Nos filmes clássicos, Schwarzenegger e companhia tinham arsenal pesado. Em ‘A Caçada’, a assimetria é brutal. O predador tem armamento futurista; Naru tem um machado e conhecimento de rastreamento. Essa desigualdade gera tensão genuína em cada encontro — algo que os filmes intermediários da série esqueceram em favor de confrontos mais equilibrados e, consequentemente, menos interessantes.

A fotografia de Jeff Cutter merece menção específica. A sequência do confronto no riacho, onde Naru usa a correnteza para mascarar seu movimento, é construída quase inteiramente em planos amplos que deixam o público localizar ambos os combatentes no espaço. É uma escolha oposta ao estilo claustrofóbico de corte rápida que domina a ação moderna — e que torna cada movimento de Naru inteligível e tenso. O som ambiente, com os ruídos da floresta se calando quando o predador se aproxima, funciona como aviso sonoro de forma orgânica.

Não é coincidência que o algoritmo da Disney+ sugira ‘A Caçada’ após ‘Terras Selvagens’. Os dois filmes compartilham um DNA temático: protagonistas subestimados em ambientes hostis, provando seu valor contra predadores — sejam eles da própria espécie ou de outro planeta. A diferença de séculos entre as tramas pouco importa; o arco emocional é o mesmo.

A estratégia Dan Trachtenberg por trás do domínio

A estratégia Dan Trachtenberg por trás do domínio

Desde 2022, o diretor Dan Trachtenberg entregou três filmes da franquia: ‘A Caçada’, ‘Predador: Assassino de Assassinos’ e agora ‘Terras Selvagens’. Isso não é produtividade comum em Hollywood — é visão clara de universo expandido.

Quem viu ’10 Cloverfield Lane’, seu debut em longas, reconhece a assinatura: Trachtenberg constrói tensão através de espaço físico e informação assimétrica. Em seu primeiro filme, o protagonista sabe menos que o antagonista. Em ‘A Caçada’, Naru sabe menos sobre seu inimigo. Em ‘Terras Selvagens’, Dek sabe menos sobre o planeta onde está. É a mesma ferramenta narrativa aplicada a escalas diferentes — e funciona em todas.

A Disney comprou a 20th Century Studios em 2019 e herdou uma propriedade que parecia exausta. O filme de 2018 com Boyd Holbrook tinha sido recebido com críticas mistas e a sensação geral era de que a franquia não tinha para onde ir. Trachtenberg enxergou o que outros não viram: o problema não era o predador, era a fórmula.

Ao invés de mais soldados em mais selvas, ele expandiu temporalmente (século XVIII), espacialmente (planetas distantes em ‘Terras Selvagens’) e até especularmente (um Yautja como herói). Cada decisão abre portas que a franquia nunca teve. Se funciona uma história de Comanche, funciona uma de samurai. Se funciona um predador adolescente, funciona uma sociedade Yautja inteira sendo explorada.

Os números da Disney+ confirmam o acerto. ‘Terras Selvagens’ e ‘A Caçada’ superam não apenas outros filmes da franquia, mas produções como ‘Avatar: O Caminho da Água’ e ‘Meu Malvado Favorito 2’ — títulos com orçamentos de marketing infinitamente maiores. O público está votando com seus olhos.

Por que esse momento importa para o futuro da série

Franquias de terror e ação raramente envelhecem bem. A regra é: quanto mais sequências, mais diluída a identidade. O que está acontecendo com Predator inverte essa lógica.

Os dois filmes no topo do streaming mundial provam que existe audiência para histórias que respeitam o material original mas não são reféns dele. A mitologia Yautja, por décadas reduzida a “caçadores alienígenas que coletam troféus”, ganhou profundidade. Dek tem motivações compreensíveis. Naru tem um arco de personagem completo. O público que assiste a ‘Terras Selvagens’ e imediatamente busca ‘A Caçada’ está demonstrando algo que dados de audiência não capturam: fome por mais.

A Disney herdou uma propriedade e parece ter finalmente entendido seu potencial. Não se trata de escalar orçamentos ou contratar estrelas maiores — trata de expandir o que a franquia pode ser. Os resultados estão lá para quem quiser ver: duas produções de orçamento relativamente modesto dominando uma plataforma que abriga Marvel, Star Wars e Avatar.

Para o espectador que ainda não deu chance a nenhum dos dois, o momento é ideal. ‘Terras Selvagens’ funciona como porta de entrada — mais acessível, com protagonista que gera empatia imediata. ‘A Caçada’ é o prato principal para quem quer tensão pura, com uma das protagonistas mais interessantes que o cinema de gênero produziu nos últimos anos.

A franquia Predator completou 39 anos em 2026. A maioria das séries dessa idade está em vida suporte, dependendo de nostalgia para sobreviver. Esta aqui está mais viva do que nunca — e fez isso abandonando exatamente o que todos achavam ser sua identidade. Às vezes, para ressurgir, é preciso parar de caçar o mesmo público.

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Perguntas Frequentes sobre Predator

Onde assistir ‘Predator: Terras Selvagens’ e ‘A Caçada’?

Ambos os filmes estão disponíveis exclusivamente na Disney+. ‘A Caçada’ está na plataforma desde 2022; ‘Terras Selvagens’ chegou em fevereiro de 2026.

Precisa ver outros filmes para entender ‘Predator: Terras Selvagens’?

Não. ‘Terras Selvagens’ funciona como história independente. Conhecer a franquia adiciona contexto sobre a espécie Yautja, mas não é necessário para acompanhar a jornada do protagonista Dek.

Qual é a classificação indicativa de ‘Predator: Terras Selvagens’?

O filme tem classificação PG-13 nos EUA, equivalente a 14 anos no Brasil. Isso gerou debate entre fãs, mas a violência é presente — apenas menos explícita que nos filmes anteriores da franquia.

Quem dirigiu ‘Predator: Terras Selvagens’ e ‘A Caçada’?

Dan Trachtenberg dirigiu ambos, além de ‘Predador: Assassino de Assassinos’. Ele também é responsável por ’10 Cloverfield Lane’ (2016), filme conhecido pela construção de tensão em espaço confinado.

Qual a ordem cronológica dos filmes Predator?

Cronologicamente: ‘A Caçada’ (1719), ‘Predator’ original (1987), ‘Predator 2’ (1997), ‘Predadores’ (2010), ‘O Predador’ (2018) e ‘Terras Selvagens’ (século desconhecido, planeta distante). Cada um funciona de forma independente.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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