‘Planeta dos Macacos’: O triunfo da ficção científica sobre a nostalgia

Analisamos por que ‘Planeta dos Macacos’ superou gigantes como Star Wars em relevância temática. Descubra como a saga de César e o novo ‘O Reinado’ utilizam a ficção científica para discutir poder e legado, provando que evolução narrativa é mais poderosa que nostalgia.

Existe um teste simples para medir a saúde de uma franquia de ficção científica: ela ainda tem algo a dizer ou está apenas emulando o que já funcionou no passado? Por esse critério, a Planeta dos Macacos franquia não apenas sobrevive — ela se impõe como o padrão ouro de como gerenciar um legado intelectual sem se tornar refém dele.

Enquanto ‘Star Wars’ muitas vezes se perde em fan services e ‘Star Trek’ oscila entre a reinvenção e a repetição, os macacos de César construíram algo raro no cinema contemporâneo: uma saga que evolui tematicamente a cada capítulo, arrisca mudar de tom e protagonista, e trata seu público com a seriedade de um drama adulto. O triunfo aqui não é apenas tecnológico; é narrativo.

A trilogia de César: Quando a ficção científica encontra a tragédia shakespeariana

A trilogia de César: Quando a ficção científica encontra a tragédia shakespeariana

A trilogia iniciada com ‘Planeta dos Macacos: A Origem’ (2011) é um dos maiores feitos do gênero neste século. O segredo não reside apenas na captura de movimento revolucionária, mas na estrutura dramatúrgica. Cada filme funciona como um ato de uma tragédia clássica.

‘A Origem’ estabelece a hybris: cientistas brincando de deuses e criando uma inteligência que não podem conter. Em ‘O Confronto’, Matt Reeves eleva o nível para o político, criando uma alegoria poderosa sobre a impossibilidade da paz quando o trauma e o extremismo (personificados no conflito entre César e Koba) dominam o discurso. Já ‘A Guerra’ entrega a catarse — uma obra sombria, operática e quase sem diálogos em seu terço inicial, confiando puramente na expressividade visual.

A transição de diretores — de Rupert Wyatt para Matt Reeves — não diluiu a identidade da saga; pelo contrário, a aprofundou. Reeves entendeu que estava filmando um épico bíblico disfarçado de ficção científica, onde a fotografia de Michael Seresin usa sombras e texturas orgânicas para afastar o filme da estética asséptica de outros blockbusters.

Andy Serkis e o teto de vidro da captura de movimento

A performance de Andy Serkis como César é um dos trabalhos mais viscerais da década de 2010. Há uma cena específica em ‘A Guerra’ onde César, consumido pelo desejo de vingança, percebe em seu reflexo o olhar de Koba. A complexidade emocional ali — o medo de se tornar o monstro que ele mesmo condenou — não é mérito de algoritmos, mas de uma construção de personagem que atravessa três filmes com uma consistência impecável.

Hollywood ainda resiste a premiar atores de mo-cap, mas o trabalho de Serkis prova que a tecnologia é apenas um pincel; a alma da pintura ainda é o ator. César não é um herói unidimensional; ele é um líder falho, assombrado por perdas e decisões moralmente cinzentas. É essa humanidade (ironicamente vinda de um primata) que torna a franquia tão resiliente ao tempo.

‘O Reinado’ e o desafio de continuar sem o seu messias

'O Reinado' e o desafio de continuar sem o seu messias

‘Planeta dos Macacos: O Reinado’ (2024) enfrentou a ingrata tarefa de provar que o universo sobrevive sem a presença magnética de César. O diretor Wes Ball acerta ao não tentar replicar o tom de Reeves, optando por uma aventura de descoberta que expande a mitologia para centenas de anos no futuro.

Onde o filme brilha é na exploração de como mitos são deturpados. Proximus Caesar, o antagonista, usa o nome do antigo líder para justificar a tirania — uma crítica mordaz à forma como figuras históricas são cooptadas por ideologias opostas às suas. Embora não atinja a mesma profundidade emocional de ‘O Confronto’, ‘O Reinado’ mantém o compromisso da franquia com temas complexos como legado, escravidão e o ciclo inevitável de ascensão e queda das civilizações.

Por que ‘Planeta dos Macacos’ envelhece melhor que a concorrência?

A lição que a Planeta dos Macacos franquia deixa é clara: longevidade exige evolução, não apenas manutenção. Enquanto outras propriedades intelectuais parecem presas em loops de nostalgia — trazendo atores de volta apenas pelo valor do choque — os macacos seguem em frente. O mundo muda, os conflitos se transformam e os riscos são reais.

Ao priorizar o desenvolvimento de personagens e o subtexto sociopolítico em vez de easter eggs vazios, a saga garante seu lugar como a mais consistente da atualidade. É um cinema de espetáculo que respeita a inteligência do espectador, provando que é possível ser um sucesso de bilheteria sem abrir mão da substância artística.

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Perguntas Frequentes sobre a franquia Planeta dos Macacos

Qual a ordem correta para assistir aos novos filmes de Planeta dos Macacos?

A ordem cronológica da saga moderna é: ‘A Origem’ (2011), ‘O Confronto’ (2014), ‘A Guerra’ (2017) e ‘O Reinado’ (2024). Recomenda-se seguir esta ordem para entender a evolução do vírus e a construção do mito de César.

‘O Reinado’ é uma continuação direta de ‘A Guerra’?

Não exatamente. ‘O Reinado’ se passa várias gerações (cerca de 300 anos) após a morte de César. Ele compartilha o mesmo universo, mas apresenta novos protagonistas e um mundo onde os humanos regrediram ao estado selvagem.

Preciso assistir aos filmes originais dos anos 60 e 70 para entender a nova franquia?

Não é obrigatório, pois a nova franquia funciona como um reboot/prequel. No entanto, assistir ao clássico de 1968 ajuda a identificar diversas referências e rimas visuais presentes em ‘O Reinado’.

Onde assistir aos filmes da franquia Planeta dos Macacos?

Atualmente, a maioria dos filmes da saga (incluindo a trilogia de César) está disponível no catálogo do Disney+ e Star+ no Brasil.

Por que Andy Serkis não aparece em ‘O Reinado’?

Devido ao salto temporal de centenas de anos, o personagem César já faleceu há muito tempo. No entanto, Andy Serkis atuou como consultor de performance para os novos atores do filme de 2024.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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