A série ‘Pinguim’ na HBO transcende o rótulo de spin-off: é um drama criminal sobre ascensão ao poder que funciona sem Batman. Colin Farrell e Cristin Milioti entregam atuações que elevam o material, em oito episódios que valem cada minuto.
Quando anunciaram que o Pinguim teria sua própria série na HBO, minha reação foi cética. O personagem, nos quadrinhos, é um vilão cartunesco — um homem com nariz de bico, guarda-chuvas armadilhas e um exército de pinguins adestrados. Mas algo me dizia que Matt Reeves não faria algo óbvio. Depois de ver ‘Batman’ (2022), com aquele Pinguim irreconhecível sob camadas de prótese, a pergunta mudou: o que Colin Farrell faria com oito horas de tela em vez de vinte minutos? A resposta, criada por Lauren LeFranc para a HBO, é direta: não é apenas um bom spin-off. É um dos melhores dramas criminais da década.
Como a série transcende o rótulo de ‘spin-off de super-herói’
A armadilha mais óbvia seria fazer um show de vilão que funciona como ‘apêndice’ do filme do Batman. Você sabe o tipo: referências forçadas, easter eggs que ninguém pediu, e um protagonista que só existe para preencher lacunas entre filmes do herói. ‘Pinguim’ faz o oposto. Em oito episódios, Batman aparece exatamente zero vezes — e essa é a maior vitória do show. Oz Cobb (o sobrenome mudou de Cobblepot para algo menos aristocrático, mais americano) não precisa do Homem-Morcego para ser interessante. Ele precisa de Gotham, e Gotham precisa dele.
O que temos aqui é essencialmente um thriller de ascensão ao poder no submundo. Se você viu ‘Os Sopranos’ ou ‘Breaking Bad’, vai reconhecer o DNA: um homem marginal, inteligente mas profundamente falho, tentando subir em uma hierarquia que não o quer. A diferença é que Oz Cobb não é Tony Soprano nem Walter White. Ele é mais desesperado, mais emocionalmente instável, e crucialmente — mais vulnerável. A claudicação não é apenas física; é metáfora para alguém que nunca foi levado a sério, e cuja fúria nasce dessa humilhação constante.
Colin Farrell finalmente tem o papel que sua carreira prometia
Confesso: durante anos, achei Colin Farrell um ator desperdiçado. Talentoso, carismático, mas frequentemente em filmes que não sabiam o que fazer com ele. Em ‘Pinguim’, ele entrega algo que não esperava — não uma ‘grande atuação’ no sentido de Oscar-bait, mas uma construção de personagem que cresce a cada episódio. O primeiro episódio mostra Oz como um capanga ambicioso, quase patético. O oitavo mostra alguém que você teme, mesmo sabendo que ele é, no fundo, o mesmo homem quebrado.
Há uma cena no terceiro ou quarto episódio — não vou estragar o contexto — onde Oz precisa tomar uma decisão em segundos, e a câmera permanece fixa no rosto dele por um tempo que parece eterno. Farrell não faz grande dramatização. Seus olhos se movem, ele engole em seco, e você sente o cálculo acontecendo em tempo real. É nesse tipo de detalhe que a série mostra sua inteligência: entende que o suspense do crime não está em tiros, mas em escolhas.
E o verdadeiro destaque? Cristin Milioti como Sofia Falcone
Aqui preciso fazer uma confissão crítica: eu já conhecia Cristin Milioti de ‘How I Met Your Mother’ e alguns papéis coadjuvantes, e não tinha ideia do que ela era capaz. Como Sofia Falcone, filha do chefão do crime Carmine Falcone (presente no filme do Batman, mas morto no final), ela rouba cada cena em que aparece. Não no sentido de ‘atuação chamativa’ — no sentido de que você não consegue tirar os olhos dela, mesmo quando Farrell está no frame.
Sofia é o que a série faz de melhor: um personagem que poderia ser ‘a vilã’ em uma produção menos ambiciosa, mas que aqui tem motivações complexas, história própria, e uma presença que transcende o arquétipo ‘mulher do crime’. Há uma sequência no meio da série — aqueles que viram sabem qual é — que recontextualiza tudo o que achávamos saber sobre ela. Não é twist por twist. É caracterização que se revela em camadas.
O embate entre Oz e Sofia não é herói contra vilão, nem mesmo vilão contra vilã. É dois marginalizados do mesmo sistema — um homem fisicamente defeituoso, uma mulher em um mundo de homens — lutando pelo mesmo espaço. A série nunca torna isso explícito com diálogos expositivos. Mostra, e confia que você vai entender.
Fotografia que serve ao poder — e à sua ausência
A direção de fotografia de David Rosenbatt e Jon Kuyper merece menção. Gotham nunca foi tão palpável: os interiores são iluminados com luzes amareladas, quase doentias, enquanto os exteriores noturnos têm aquele azul-gráfico que se tornou marca de Reeves. Mas o que mais impressiona é como a câmera posiciona Oz. Quando ele está no comando, enquadramentos baixos o fazem parecer maior. Quando ele perde controle, a câmera se distancia, reduzindo-o. É linguagem visual clássica, executada com precisão.
Por que funciona mesmo se você não ligar para Batman
Se você, como eu, cresceu lendo quadrinhos da DC mas hoje sente fadiga de super-heróis, ‘Pinguim’ é o tipo de exceção que a regra confirma. O universo compartilhado é pano de fundo, não razão de existir. Gotham existe como Nova York existe em ‘Os Sopranos’ — um ecossistema de poder, corrupção e sobrevivência. Você não precisa ter visto ‘Batman’ (2022) para entender o que está acontecendo. O show entrega contexto suficiente nos primeiros episódios.
Isto dito, há um prazer extra para quem viu o filme. A cena final da série, por exemplo, ganha uma dimensão específica se você conhece o destino de certos personagens no longa. Mas é isso: uma dimensão extra, não um requisito. A HBO acertou em tratar isso como drama criminal primeiro, produto de franquia depois.
Vale a maratonar? Para quem sim, para quem não
Com oito episódios de cerca de uma hora cada, ‘Pinguim’ é o tipo de série que você consome em um fim de semana — e depois fica pensando por semanas. Não é para todos os públicos: há violência gráfica, temas pesados, e um ritmo que prioriza tensão sobre ação constante. Se você procura adrenalina pura, vai se frustrar. Se você gosta de dramas sobre poder, identidade e as formas como o trauma molda pessoas, este é um dos melhores exemplos recentes.
Quanto ao futuro: uma segunda temporada não foi confirmada nem negada. Matt Reeves indicou que o personagem retornará em ‘Batman Part II’, mas como coadjuvante ou protagonista, ninguém sabe. De certa forma, o final da primeira temporada funciona como encerramento suficiente. Se nunca houver continuação, teremos tido uma história completa — algo raro em uma era de shows cancelados sem conclusão.
Minha recomendação final: se você tem qualquer interesse em dramas criminais bem construídos, personagens complexos e atuações que merecem discussão, ‘Pinguim’ é obrigatório. Se sua única referência do personagem é o Pinguim de Danny DeVito em ‘Batman: O Retorno’ (1992), esqueça tudo. Este é outro animal. Mais perigoso, mais humano, e surpreendentemente, mais triste.
Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!
Perguntas Frequentes sobre ‘Pinguim’ na HBO
Onde assistir a série ‘Pinguim’?
A série ‘Pinguim’ está disponível exclusivamente na HBO e na plataforma de streaming Max. Todos os 8 episódios já estão disponíveis para maratonar.
Quantos episódios tem a série ‘Pinguim’?
A primeira temporada tem 8 episódios, cada um com aproximadamente 1 hora de duração. O total fica em torno de 8 horas de conteúdo.
Precisa ver ‘Batman’ (2022) para entender a série?
Não é obrigatório. A série fornece contexto suficiente nos primeiros episódios para quem não viu o filme. Porém, ter assistido a ‘Batman’ (2022) adiciona camadas extras à experiência, especialmente no final.
‘Pinguim’ vai ter segunda temporada?
A HBO não confirmou nem negou uma segunda temporada. Matt Reeves indicou que o personagem retornará em ‘Batman Part II’, previsto para 2026. O final da primeira temporada funciona como encerramento satisfatório caso não haja continuação.
Quem interpreta o Pinguim na série da HBO?
Colin Farrell interpreta Oz Cobb, o Pinguim, sob camadas de prótese que o tornam irreconhecível. É o mesmo ator e mesma versão do personagem que apareceu em ‘Batman’ (2022).

