‘Periféricos’: por que o Prime Video errou ao cancelar seu melhor cyberpunk

Analisamos por que o cancelamento de ‘Periféricos’ foi o maior erro estratégico do Prime Video no gênero de ficção científica. Entenda como a série adaptou com maestria os conceitos de William Gibson e por que sua abordagem técnica do futuro ainda é insuperável.

Existe um tipo específico de frustração que só quem acompanha ficção científica na TV conhece: você encontra uma série que finalmente entende o gênero, que não trata o público como idiota e que constrói um mundo com camadas reais de complexidade — e aí, quando as peças se encaixam, vem o cancelamento. ‘Periféricos’ (‘The Peripheral’), do Prime Video, é o exemplo mais doloroso dessa miopia editorial nos últimos anos.

A série baseada no romance de William Gibson — o homem que praticamente codificou o cyberpunk em ‘Neuromancer’ — teve uma única temporada. E o erro da Amazon não foi apenas financeiro; foi artístico. Ao descartar a produção de Lisa Joy e Jonathan Nolan (a dupla por trás de ‘Westworld’), o streaming jogou fora a proposta mais cerebral de sci-fi de seu catálogo, trocando profundidade por métricas de curto prazo.

O futuro como motor, não como decoração

O futuro como motor, não como decoração

A maioria das séries de ficção científica comete o erro de tratar o futuro apenas como estética: luzes neon, naves polidas e figurinos assimétricos. Em ‘Periféricos’, o futuro é o motor da narrativa. A premissa de Flynne Fisher (Chloë Grace Moretz) habitando um corpo sintético em 2100 enquanto vive fisicamente em 2032 não é apenas um truque de roteiro.

O grande trunfo aqui é o conceito de ‘Stubs’ (Ramificações). O futuro não está tentando mudar o passado por heroísmo; ele está colonizando o passado. Londres de 2100 usa o presente de Flynne como um laboratório de testes, um servidor onde podem experimentar vírus, políticas e tecnologias sem consequências para o próprio timeline. É uma metáfora brutal sobre o colonialismo de dados e a exploração de classes, temas que Gibson domina como ninguém.

Combate háptico: a tecnologia ditando a linguagem visual

Um dos pontos onde ‘Periféricos’ superou qualquer concorrente foi na execução técnica do ‘combate háptico’. Diferente das lutas coreografadas apenas para serem bonitas, aqui a ação serve à construção de mundo. A tecnologia permite que múltiplos operadores compartilhem sentidos e coordenação tática em tempo real, criando uma mente-colmeia em batalha.

Visualmente, isso se traduz em sequências de uma precisão cirúrgica. Lembro especificamente da emboscada no episódio 5: a câmera de Nolan não foca apenas na violência, mas na sincronia impossível entre os personagens. O som — um design minimalista que enfatiza o feedback tátil dos dispositivos — eleva a tensão. Você sente que a tecnologia é uma extensão do corpo, algo que poucas adaptações de cyberpunk conseguiram transpor com tanta fidelidade tátil.

O peso de William Gibson e a herança de ‘Westworld’

O peso de William Gibson e a herança de 'Westworld'

É constrangedor que a primeira grande adaptação televisiva de Gibson tenha sido tratada com tanto descaso. Estamos falando do autor que inventou o termo ‘ciberespaço’. ‘Periféricos’ carregava o DNA de ‘Westworld’ em sua produção executiva, mas com uma vantagem: a clareza narrativa de Gibson. Enquanto ‘Westworld’ se perdeu em labirintos de mistério pelo mistério, ‘Periféricos’ tinha uma base sólida na política de facções e no conceito do ‘Jackpot’ — um apocalipse multicausal que parece cada dia mais uma previsão do que uma ficção.

O cancelamento após a renovação já ter sido anunciada em fevereiro de 2023 foi um golpe baixo. A justificativa oficial culpou os atrasos causados pelas greves em Hollywood, mas a verdade é que séries densas exigem paciência que o modelo de ‘churn’ das plataformas raramente permite.

Por que a série merecia o benefício da dúvida

A primeira temporada mal arranhou a superfície do ‘Jackpot’. Estávamos apenas começando a entender as motivações dos Institutos e dos Oligarcas do futuro. Flynne estava deixando de ser uma peça no tabuleiro para se tornar uma jogadora interdimensional. A série tinha o que falta em muitas produções atuais: uma tese clara sobre para onde a humanidade está caminhando.

Se você ainda não assistiu, os oito episódios disponíveis no Prime Video são obrigatórios. É uma obra que respeita a inteligência do espectador e prova que o cyberpunk não precisa de chuva e neon para ser autêntico — ele precisa de ideias que incomodem. Infelizmente, no atual cenário do streaming, ideias que incomodam costumam ser as primeiras a serem deletadas.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Periféricos’ (The Peripheral)

Por que ‘Periféricos’ foi cancelada pelo Prime Video?

Embora tivesse sido renovada para a 2ª temporada, a Amazon reverteu a decisão devido aos atrasos na produção causados pelas greves do SAG-AFTRA e WGA em 2023, o que elevaria demais os custos de manutenção e marketing.

A série é baseada em qual livro?

‘Periféricos’ é baseada no romance homônimo de William Gibson, publicado em 2014. O livro faz parte de uma trilogia (conhecida como Trilogia Jackpot), que inclui o livro ‘Agency’.

Onde posso assistir ‘Periféricos’?

A primeira temporada completa está disponível exclusivamente no catálogo do Prime Video. Não há previsão de que a série seja removida ou migre para outras plataformas.

O que é o ‘Jackpot’ mencionado na série?

O Jackpot é um apocalipse em câmera lenta que ocorre entre os anos de 2032 e 2100, causado por uma combinação de colapso ambiental, pandemias, secas e guerras, que acaba dizimando 80% da população mundial.

Haverá uma continuação em outra plataforma?

Até o momento, não há negociações para que a série seja resgatada por outro streaming. Os direitos de adaptação e os altos custos de produção tornam um resgate improvável no curto prazo.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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