Analisamos por que ‘Periféricos’, a adaptação de William Gibson no Prime Video, continua sendo uma maratona essencial mesmo após seu cancelamento polêmico. Descubra como a série redefine o cyberpunk com uma narrativa cerebral e visualmente impactante.
Existe um tipo específico de luto que só o fã de ficção científica conhece: o momento em que uma série finalmente acerta o tom, expande seu universo de forma brilhante e, logo em seguida, é ceifada pela ‘foice’ dos algoritmos de streaming. ‘Periféricos’ (The Peripheral), no Prime Video, é o caso mais emblemático dessa injustiça recente. Mas, ao contrário de outros cancelamentos que deixam apenas um gosto amargo, a obra de Jonathan Nolan e Lisa Joy permanece como uma maratona obrigatória.
O ‘Jackpot’ e a estética de um futuro que não nos quer
Baseada na obra de William Gibson — o homem que basicamente ‘inventou’ o cyberpunk com ‘Neuromancer’ — a série evita os clichês visuais de luzes neon e chuva eterna. Em vez disso, somos apresentados a dois extremos: a ruralidade decadente da Carolina do Norte em 2032 e uma Londres de 2099 que é, ao mesmo tempo, deslumbrante e assustadoramente vazia.
O grande trunfo aqui é o conceito do Jackpot. Não é um apocalipse repentino, mas um colapso lento e multicausal (clima, pandemias, falhas sistêmicas). A direção de arte de Jan Roelfs brilha ao mostrar uma Londres reconstruída com estátuas gigantescas que servem como purificadores de ar — uma beleza que esconde um mundo onde a humanidade quase foi extinta. É uma ficção científica cerebral que usa o visual para contar a história, não apenas para decorar a tela.
Chloë Grace Moretz: da apatia virtual ao instinto de sobrevivência
Chloë Grace Moretz entrega aqui sua performance mais madura. Como Flynne Fisher, ela começa como uma ‘substituta’ profissional em jogos de VR, mas a série ganha corpo quando ela percebe que seu corpo ‘periférico’ no futuro tem consequências físicas no presente. Há uma sequência de ação no terceiro episódio, envolvendo tecnologia tátil e invisibilidade, que é tecnicamente impecável. A coreografia não foca apenas na violência, mas no estranhamento de usar um corpo que não é seu.
A dinâmica com Jack Reynor (Burton) também foge do óbvio. Eles não são apenas irmãos; são aliados táticos. A série trata a experiência militar de Burton não como um trauma genérico, mas como uma ferramenta de sobrevivência que se torna essencial quando o futuro decide ‘hackear’ o presente deles.
A matemática fria: por que o Prime Video cancelou a série?
O cancelamento de ‘Periféricos’ foi particularmente cruel porque a segunda temporada já havia sido confirmada. O que mudou? O ano de 2023 trouxe as greves históricas do SAG-AFTRA e WGA. Para o Prime Video, o custo de produção — que era altíssimo devido aos efeitos visuais de ponta e locações — somado ao atraso cronológico causado pelas greves, tornou o projeto um ‘risco financeiro’.
É a vitória da contabilidade sobre a criatividade. A série tinha 85% de aprovação do público e uma base de fãs crescente, mas no cenário atual de ‘pico do streaming’, a paciência das plataformas para sci-fi de alto orçamento é cada vez menor.
Vale a pena assistir a uma história sem final definitivo?
A resposta curta é: sim. Diferente de séries que terminam em um cliffhanger insuportável, a primeira temporada de ‘Periféricos’ fecha um arco narrativo satisfatório. Você entende a mecânica das linhas temporais (os ‘stubs’), conhece os vilões e vê a evolução de Flynne de uma jogadora passiva para uma peça central no tabuleiro geopolítico do futuro.
Pense nela como uma minissérie de luxo. Ela oferece uma das visões mais originais da tecnologia de transferência de consciência já filmadas. Se você busca algo que respeite sua inteligência e fuja das fórmulas mastigadas da ficção científica atual, ‘Periféricos’ é o seu lugar — mesmo que a viagem termine antes do que gostaríamos.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Periféricos’
Por que a série ‘Periféricos’ foi cancelada?
Apesar de ter sido renovada inicialmente, a série foi cancelada devido aos atrasos causados pelas greves de atores e roteiristas em 2023, o que aumentou os custos de produção de uma obra que já tinha um orçamento muito elevado.
A primeira temporada tem um final fechado?
Não totalmente, mas ela conclui os principais conflitos apresentados no início. Embora existam ganchos para uma continuação, o arco da protagonista Flynne Fisher atinge um ponto de resolução que permite encarar a temporada como uma história completa.
‘Periféricos’ é baseada em qual livro?
A série é baseada no romance homônimo de William Gibson, publicado em 2014. Gibson é considerado o ‘pai’ do movimento cyberpunk e autor do clássico ‘Neuromancer’.
Onde posso assistir ‘Periféricos’?
Todos os oito episódios da primeira (e única) temporada estão disponíveis exclusivamente no Amazon Prime Video.
Preciso ler o livro para entender a série?
Não. A série faz algumas alterações na trama para torná-la mais ágil e visual, explicando os conceitos de ‘stubs’ (linhas temporais) e ‘periféricos’ de forma clara ao longo dos episódios.

