‘Pecadores’ e ‘Frankenstein’: por que o terror fez história no Oscar 98

O Oscar 98 marcou um ponto de virada: três filmes de terror conquistaram estatuetas em categorias diversas. Analisamos como ‘Pecadores’, ‘Frankenstein’ e ‘A Hora do Mal’ provaram que o gênero não precisa ser exceção — e o que muda para o futuro do cinema de terror.

Em mais de uma década acompanhando Oscar, desenvolvi uma espécie de reflexo condicionado: quando um filme de terror aparece na lista de indicados, eu baixo as expectativas. A Academia sempre tratou o gênero como um parente pobre que, excepcionalmente, merece visitar a sala de jantar. Mas o Oscar 98 Terror quebrou esse padrão de forma que não dá para ignorar. Não foi só um filme de terror ganhando — foram três, com abordagens radicalmente diferentes, em categorias que vão de atuação a design de produção. Isso não é anedota. É mudança de paradigma.

Ao longo dos anos, vi ‘O Silêncio dos Inocentes’ ser tratado como a exceção que confirma a regra, ‘Corra!’ conquistar Roteiro Original como um milagre isolado, e ‘A Substância’ ser celebrada como uma vitória simbólica. Cada um desses momentos foi saudado como ‘o ano em que o terror finalmente foi levado a sério’. O problema dessa narrativa é que ela pressupõe que o terror precise de validação externa para ter valor — e que essa validação vem em doses homeopáticas, um filme por cerimônia. O que aconteceu no Oscar 98 foi diferente: a Academia não premiou um filme de terror exemplar. Premiou a versatilidade do gênero.

Como ‘Pecadores’ conquistou a Academia sem se desculpar por ser terror

Como 'Pecadores' conquistou a Academia sem se desculpar por ser terror

Ryan Coogler não fez um filme de terror para ganhar Oscar — fez um filme sobre música, identidade e América profunda que acontece ter vampiros. Essa distinção parece pedante, mas é fundamental para entender por que ‘Pecadores’ levou quatro estatuetas: Melhor Ator para Michael B. Jordan, Roteiro Original, Trilha Sonora para Ludwig Göransson e Fotografia para Autumn Durald Arkapaw. Só ‘O Silêncio dos Inocentes’ tem mais vitórias entre filmes de terror na história da premiação. E não é coincidência que ambos compartilhem algo essencial: o terror não é o ponto, é o veículo.

O que me impressiona em ‘Pecadores’ não é a ousadia — diretores de terror sempre foram ousados. É a capacidade de fundir o comercial com o autoral sem diluir nenhum dos dois. Coogler pega a linguagem do blockbuster (elenco estelar, orçamento robusto, ambição visual) e a coloca a serviço de uma história sobre blues, segregação e a violência da América rural. Os vampiros funcionam como metáfora, sim, mas também funcionam como ameaça visceral — especialmente na sequência do júri, onde a violência sobrenatural explode com uma ferocidade que lembra o melhor de ‘A Noite dos Mortos-Vivos’. Quando Jordan encarna Smoke, ele não está ‘fazendo terror’ — está construindo um personagem cujo arco trágico usa o sobrenatural como pano de fundo para algo mais terreno e doloroso.

A fotografia de Autumn Durald Arkapaw merece menção especial. Há uma escolha cromática deliberada: os tons quentes do Sul americano, o amarelo envelhecido dos blues clubs, o azul gélido das cenas de violência. Não é apenas ‘bonita’ — é narrativa visual. Cada cor carrega significado, e a Academia reconheceu isso não como ‘boa fotografia de terror’, mas como boa fotografia, ponto. Essa distinção pode parecer sutil, mas é exatamente o que separa a condescendência do respeito genuíno.

‘Frankenstein’ e ‘A Hora do Mal’: dois terrores, dois caminhos para a vitória

Se ‘Pecadores’ tivesse sido o único filme de terror premiado, estaríamos repetindo o script de sempre: um filme ‘elevado’ (termo que detesto, mas que a indústria adora) conquista a Academia enquanto o resto do gênero continua invisível. Mas o Oscar 98 fez algo inédito: premiou ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro em três categorias técnicas (Direção de Arte, Maquiagem e Figurino) e deu Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Madigan em ‘A Hora do Mal’. Três filmes. Três abordagens. Três conjuntos de méritos reconhecidos.

‘Frankenstein’ é, na superfície, o tipo de terror que a Academia sempre preferiu: período, design elaborado, diretor com pedigree de autor. Mas reduzir o filme a isso é injustiça. Del Toro construiu uma obra que é simultaneamente romance gótico, tragédia shakespeariana e reflexão sobre criatividade e monstruosidade. Jacob Elordi não está apenas ‘fazendo o monstro’ — está encarnando a solidão existencial de alguém que não pediu para nascer. A sequência em que a criatura descobre sua própria imagem no espelho, com a câmera fixa por 40 segundos no rosto deformado, é uma das cenas mais devastadoras do ano. As vitórias nas categorias técnicas reconhecem algo que críticos de terror sabem há décadas: design de produção, maquiagem e figurino não são ‘suporte’ em filmes de terror — são linguagem. O laboratório de Victor Frankenstein não é cenário; é extensão de sua psique. As cicatrizes do monstro não são efeito visual; são narrativa em prótese.

Já ‘A Hora do Mal’, de Zach Cregger, representa algo que a Academia raramente reconhece: terror que equilibra humor e horror sem perder eficácia. Amy Madigan ganhou por uma atuação que navega entre o cômico perturbador e o genuinamente aterrorizante — especialmente no monólogo sobre o ‘homem do saco’ que transforma uma lenda infantil em ameaça adulta. Isso é significativo porque o terror cômico sempre foi tratado como ‘menos’ — como se a presença de riso diluísse o mérito artístico. A vitória de Madigan sugere que a Academia está começando a entender que fazer alguém rir e sentir medo simultaneamente requer precisão cirúrgica.

De ‘O Exorcista’ ao Oscar 98: como o paradigma finalmente mudou

De 'O Exorcista' ao Oscar 98: como o paradigma finalmente mudou

Para entender por que isso importa, vale olhar para trás. ‘O Exorcista’ foi o primeiro terror indicado a Melhor Filme em 1974 — e levou Roteiro Adaptado e Som. ‘Louca Obsessão’ deu a Kathy Bates um Melhor Atriz merecido em 1991. ‘Drácula de Bram Stoker’ conquistou figurino, maquiagem e edição de som em 1993. ‘Corra!’ ganhou Roteiro Original em 2018. ‘A Substância’ fez barulho recentemente. Note um padrão? Cada um desses filmes foi celebrado como ‘o terror do ano’ — singular, isolado, exceção.

O que esses filmes têm em comum não é apenas qualidade — é o fardo de representar um gênero inteiro. Cada vitória era tratada como vitória do terror, não vitória de um filme que acontece ser de terror. A diferença é semântica mas crucial. Quando apenas um filme de terror é reconhecido por ano, a mensagem implícita é: ‘Podemos aceitar um, desde que seja especial’. O Oscar 98 enviou uma mensagem diferente: ‘Podemos aceitar vários, porque o gênero tem profundidade para isso’.

Não é que a Academia de repente ‘descobriu’ o terror. É que o gênero evoluiu em direções que tornaram impossível ignorar sua versatilidade. ‘Pecadores’ funciona como blockbuster temático. ‘Frankenstein’ funciona como arte de museu. ‘A Hora do Mal’ funciona como experiência visceral de gênero. Cada um atende a um público diferente, propõe objetivos diferentes, alcança resultados diferentes. E todos foram reconhecidos. Isso não é acidente — é reflexo de um momento em que diretores estão usando o terror para fazer coisas que a categoria ‘filme de terror’ nunca conseguiu conter sozinha.

O que o futuro reserva para o terror pós-Oscar 98

Eu poderia terminar aqui dizendo que ‘o terror finalmente chegou lá’ — mas essa frase sempre me incomodou. Chegou onde? Na validação de uma instituição que historicamente ignorou o gênero? O mais honesto é dizer: o terror não precisava do Oscar para ser relevante. Precisava que o Oscar parasse de fingir que terror é categoria menor.

O que o Oscar 98 sugere não é que o terror ‘melhorou’ — é que a Academia expandiu sua definição de cinema ‘digno de premiação’. Isso abre portas. Significa que um filme como ‘Pecadores’ pode ser blockbuster de verão com vampiros E candidato sério. Significa que ‘Frankenstein’ pode ser adaptação de clássico literário E experimento visual de autor. Significa que ‘A Hora do Mal’ pode ser comédia de terror E veículo para atuação premiada. Essas coisas não são mutuamente excludentes, e a Academia finalmente parece ter percebido isso.

Para diretores e estúdios, o recado é claro: não é preciso escolher entre fazer terror e fazer ‘cinema premiado’. Os filmes que venceram no Oscar 98 não foram feitos sob encomenda para a temporada de prêmios — foram feitos com convicção, identidade e respeito pelo gênero. A Academia reconheceu isso não como favor, mas como constatação de mérito.

Resta saber se isso é tendência ou exceção. Eu, cético por natureza e profissão, apostaria em algo no meio: veremos mais terror sendo levado a sério, mas ainda haverá resistência. A mudança é real, mas a velocidade será gradual. O importante é que o precedente foi estabelecido. Não foi um filme de terror ganhando Oscar. Foi o gênero provando que não cabe em uma única caixinha — e a Academia, pela primeira vez, concordando.

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Perguntas Frequentes sobre o Oscar 98 e o Terror

Quais filmes de terror ganharam no Oscar 98?

Três filmes de terror foram premiados: ‘Pecadores’ (4 estatuetas: Ator, Roteiro Original, Trilha Sonora e Fotografia), ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro (3 estatuetas técnicas: Direção de Arte, Maquiagem e Figurino) e ‘A Hora do Mal’ (Melhor Atriz Coadjuvante para Amy Madigan).

Por que o Oscar 98 foi histórico para o terror?

Foi a primeira vez que três filmes de terror diferentes ganharam na mesma cerimônia, em categorias variadas. Antes, a Academia costumava premiar um único filme de terror por ano como ‘exceção’ — o Oscar 98 reconheceu a versatilidade do gênero.

Onde assistir ‘Pecadores’, ‘Frankenstein’ e ‘A Hora do Mal’?

‘Pecadores’ está disponível no Prime Video. ‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro pode ser assistido na Netflix. ‘A Hora do Mal’ está disponível no Max. Todos também estão em cartaz em cinemas selecionados.

Qual foi o último filme de terror a ganhar Oscar antes de 2026?

‘A Substância’ conquistou Melhor Roteiro Original no Oscar 97 (2025). Antes disso, ‘Corra!’ havia vencido na mesma categoria em 2018. O terror sempre teve presença esporádica e isolada até o Oscar 98.

‘Frankenstein’ de Guillermo del Toro é remake do clássico de 1931?

Não. O filme de del Toro é uma nova adaptação do romance de Mary Shelley, com abordagem completamente diferente do filme de James Whale. Del Toro foca na perspectiva da criatura e na tragédia existencial, com Jacob Elordi no papel do monstro.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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