Steven Knight confirmou que considerou revelar Alfie Solomons como fantasma em ‘Peaky Blinders The Immortal Man’. Analisamos por que cortar essa ideia salvou o filme de perder o foco no desfecho emocional de Tommy Shelby — e como a decisão preservou o que funcionava no personagem de Tom Hardy.
Steven Knight quase cometeu um erro que teria transformado o desfecho de uma das séries mais importantes da TV britânica em um exercício de autoindulgência narrativa. A ideia de revelar que Alfie Solomons era um fantasma em Peaky Blinders The Immortal Man foi confirmada pelo criador em entrevistas de divulgação — e soa, à primeira vista, como uma daquelas reviravoltas que fazem o espectador soltar um ‘uau’. Mas uma análise mais fria da estrutura da obra revela que o corte foi não apenas necessário, mas salvador.
O filme chegou à Netflix no fim de semana passado com o peso imenso de encerrar mais de uma década da jornada de Tommy Shelby. Knight tinha nas mãos a tarefa de fechar o arco de um dos personagens mais complexos da televisão contemporânea, responder perguntas pendentes e, quem sabe, abrir portas para o futuro da franquia. Adicionar um plot twist sobre um personagem coadjuvante — por mais carismático que seja — seria o equivalente a inserir um solo de guitarra no meio de um movimento de concerto para piano.
Por que o twist de Alfie como fantasma parecia uma boa ideia
Alfie Solomons sempre foi uma figura mítica em ‘Peaky Blinders’. Tom Hardy o interpreta como um homem maior que a vida, um gangster-filósofo com sabedoria aparentemente infinita e uma presença que desafia a lógica. O fato de ter levado um tiro no rosto na quarta temporada e retornado na seguinte só alimentou essa aura de indestrutibilidade.
A proposta de Knight — revelar que Solomons morreu de fato naquele episódio e que Tommy vinha ‘vendo’ seu fantasma desde então — jogava nessa mística. Era uma carta de ‘O Sexto Sentido’ esperando para ser virada. O problema é que ‘Peaky Blinders’ já lida com elementos sobrenaturais de forma específica: fantasmas de entes queridos aparecem consistentemente ao longo das temporadas como manifestações psicológicas da culpa de Tommy, não como reviravoltas que recontextualizam tudo o que vimos antes.
O foco que quase se perde: o filme é sobre Tommy Shelby
Ao assistir Peaky Blinders The Immortal Man, fica claro que cada decisão de enquadramento, cada escolha de trilha, cada linha de diálogo serve ao arco emocional do protagonista. Cillian Murphy carrega o filme praticamente sozinho — e funciona porque a câmera de Anthony Byrne segue cada micro-expressão, cada hesitação, cada momento em que Tommy parece finalmente pronto para entregar a arma.
Aqui está o problema central da ideia do fantasma: qualquer twist significativo sobre Alfie beneficiaria o personagem de Tom Hardy às custas do protagonista. Knight teria que gastar minutos preciosos explicando as regras dessa ‘alucinação’ — como Alfie interagia com objetos? Por que outros personagens o viam? Haveria contradições com cenas anteriores? — em um filme que já tem 1h49min e precisa dedicar cada segundo ao fechamento de Tommy.
O risco de definir demais o indefinível
Existe outro problema mais sutil, mas igualmente grave: Alfie Solomons funciona como personagem justamente porque permanece em sombras. Sua sabedoria enigmática, seus monólogos crípticos, sua moralidade fluida — tudo depende de ele ser uma incógnita. Over-explaining sua natureza, dando-lhe um backstory sobrenatural, seria o equivalente a explicar a mecânica do monstro em um filme de terror: algumas coisas funcionam melhor quando não são totalmente compreendidas.
No filme final, Alfie aparece exatamente como deve: uma presença magnética que chega, oferece seu conselho caótico, e parte. A cena em que ele e Tommy dividem uísque enquanto discutem legado e mortalidade funciona porque é grounded — dois homens que sobreviveram a tudo, conversando sobre o inevitável. Transformar isso em ‘um fantasma conversa com um vivo’ roubaria o peso emocional do momento.
A decisão certa preservou o que importava
No fim, manter Alfie vivo permitiu que o filme se concentrasse onde deveria: na relação entre Tommy e seu filho, e no fechamento emocional do protagonista. Peaky Blinders The Immortal Man estreou como o filme número 1 no mundo na Netflix — evidência de que as decisões criativas acertaram mais do que erraram.
Isso não significa que todo plot twist ambicioso deva ser evitado. Significa que reviravoltas precisam servir à história que está sendo contada, não ao ego do roteirista que quer surpreender. Knight mostrou maturidade ao reconhecer que uma ideia inteligente nem sempre é uma ideia certa. Alfie Solomons permanece como ele deve ser: uma presença magnética, imprevisível, e — felizmente para a integridade do filme — muito real.
Para fãs da série, o filme entrega o desfecho que a jornada de uma década exigia. Para quem nunca assistiu, é impossível recomendar — a narrativa assume conhecimento prévio constante. Mas para os que acompanharam Tommy Shelby desde Small Heath, The Immortal Man fecha a conta com dignidade.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Peaky Blinders The Immortal Man’
Onde assistir ‘Peaky Blinders The Immortal Man’?
O filme está disponível exclusivamente na Netflix desde setembro de 2025. É uma produção original da plataforma que encerra a saga de Tommy Shelby.
Precisa assistir a série para entender o filme?
Sim, é essencial. O filme assume conhecimento prévio constante sobre personagens, relacionamentos e eventos das seis temporadas. Para novos espectadores, recomenda-se assistir pelo menos a temporada final antes do filme.
Quanto tempo dura ‘Peaky Blinders The Immortal Man’?
O filme tem 1 hora e 49 minutos de duração. É mais curto que uma temporada completa, mas denso o suficiente para encerrar os arcos principais de Tommy Shelby.
Alfie Solomons aparece no filme?
Sim, Tom Hardy retorna como Alfie Solomons. O personagem tem presença significativa, mas não é o foco central — o filme pertence a Tommy Shelby e seu fechamento emocional.
O filme tem cena pós-créditos?
Não há cena pós-créditos. O filme termina de forma conclusiva para a jornada de Tommy Shelby, sem teasers para continuações imediatas.

