Analisamos por que ‘Patinando no Amor’ é o novo fenômeno visual da Netflix, destacando sua técnica cinematográfica no gelo, mas alertamos para a romantização perigosa de comportamentos tóxicos que a série precisa corrigir em sua segunda temporada.
Há uma tensão inegável quando as lâminas tocam o gelo em ‘Patinando no Amor’. A nova aposta da Netflix no subgênero de romances esportivos não demorou 24 horas para dominar o Top 10, surfando na onda de sucessos literários do BookTok como ‘Icebreaker’. Mas, por trás da coreografia impecável e da química palpável entre os protagonistas, a série esconde uma dissonância cognitiva que a segunda temporada precisará enfrentar se quiser ser algo além de um ‘guilty pleasure’ passageiro.
Do BookTok para o Gelo: A anatomia de um hit calculado
Não é por acaso que a série ressoa tanto. ‘Patinando no Amor’ utiliza a estrutura de ‘Persuasão’, de Jane Austen, para ancorar seu drama. Adriana Russo é a patinadora que desistiu do sonho após o luto; Brayden Elliot é o ‘bad boy’ que precisa dela para salvar a própria carreira. O tropo do enemies-to-lovers está ali, temperado com a rivalidade esportiva contra o ex-namorado, Freddie.
O roteiro entende perfeitamente os beats emocionais que o público jovem-adulto procura: o toque acidental durante um lift, o olhar prolongado no vestiário e a trilha sonora indie-pop que pontua cada pequena vitória. É um checklist de eficácia narrativa, executado com uma competência técnica que muitas vezes falta em produções do gênero.
A estética do gelo: Onde a técnica supera o roteiro
Visualmente, a série é um deslumbre. A direção de fotografia opta por lentes anamórficas que dão uma textura cinematográfica às sequências de treino, fugindo do visual ‘limpo demais’ de outras produções originais Netflix. No episódio quatro, durante a primeira rotina oficial de Adriana e Brayden, a câmera de mão entra no rinque com os atores, criando uma sensação de proximidade física que faz o espectador sentir cada frenagem e cada risco no gelo.
A montagem também merece destaque. Ao contrário de filmes de patinação antigos que abusavam de cortes rápidos para esconder dublês, aqui as sequências são longas e fluidas. Isso demonstra um compromisso com a verossimilhança técnica que eleva o nível da produção. É uma pena, porém, que esse mesmo rigor não tenha sido aplicado à construção psicológica dos personagens masculinos.
O perigo de confundir ‘Red Flags’ com intensidade romântica
Aqui reside o problema central que a série precisa amadurecer. Em 2026, é difícil ignorar como ‘Patinando no Amor’ romantiza a agressividade masculina como prova de afeto. Praticamente todos os interesses amorosos da trama — de Brayden a Freddie — têm explosões de raiva, socam armários ou gritam de forma intimidadora na presença das mulheres que dizem amar.
A série apresenta esses momentos como ‘intensidade’ ou ‘paixão descontrolada’. Mas, na prática, o que vemos são comportamentos tóxicos sendo vendidos como o ápice do romance. Para uma produção que se baseia em Austen — uma autora mestre em analisar nuances de caráter e autocontrole — essa escolha é um retrocesso. Se a segunda temporada quer realmente honrar o material original, precisa ensinar seus protagonistas a processar frustração sem recorrer à violência performática.
Freddie e o desperdício do antagonista tridimensional
Um triângulo amoroso só é tão forte quanto seu elo mais fraco. Enquanto Brayden recebe um arco de redenção claro, Freddie é reduzido a um obstáculo unidimensional. Ele existe apenas para ser o ‘ex inconveniente’. A série tenta injetar profundidade nele nos episódios finais com um subenredo familiar, mas soa apressado e pouco orgânico.
Para que o dilema de Adriana faça sentido, Freddie precisa ser uma opção viável, não apenas um contraponto negativo. O roteiro falha ao não nos mostrar por que ela se apaixonou por ele em primeiro lugar. Sem essa base, a tensão entre os dois parece fabricada, servindo apenas para esticar a narrativa até o inevitável clímax final.
Veredito: Diversão garantida, mas com ressalvas
‘Patinando no Amor’ é entretenimento de alta qualidade visual, mas de maturidade emocional oscilante. Se você busca sequências de patinação que tiram o fôlego e uma química elétrica entre os leads, a série entrega com sobras. No entanto, é impossível não assistir com um pé atrás diante da normalização de comportamentos abusivos disfarçados de romance.
A base para uma grande série está lá. O sucesso de audiência dá aos produtores a chance de corrigir o curso. A segunda temporada será o teste real: a série vai amadurecer e tratar seus relacionamentos com a complexidade que o esporte exige, ou vai continuar patinando na superfície de clichês perigosos?
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Perguntas Frequentes sobre ‘Patinando no Amor’
‘Patinando no Amor’ é baseada em qual livro?
A série é uma adaptação livre e modernizada de ‘Persuasão’, de Jane Austen, transportando os conflitos de classe e segundas chances da regência inglesa para o mundo da patinação artística contemporânea.
Os atores de ‘Patinando no Amor’ realmente sabem patinar?
Os protagonistas passaram por um treinamento intensivo de três meses, mas as manobras mais complexas e saltos triplos são executados por dublês profissionais de patinação artística para garantir a segurança e a precisão técnica.
Terá 2ª temporada de ‘Patinando no Amor’ na Netflix?
Embora a Netflix ainda não tenha confirmado oficialmente, o sucesso absoluto no Top 10 global e o final em aberto da primeira temporada indicam que a renovação é iminente.
Onde a série foi filmada?
A produção teve como base principal o Canadá, utilizando rinques profissionais em Toronto e locações de inverno que ajudam a criar a atmosfera gelada e competitiva da trama.

