‘Parasita’ anos depois: por que o marco de Bong Joon Ho só melhora

Analisamos por que ‘Parasita’ de Bong Joon Ho continua sendo a obra-prima definitiva sobre desigualdade social anos após sua vitória histórica no Oscar. Entenda como a técnica cirúrgica do diretor, o uso da arquitetura e o simbolismo do ‘cheiro’ tornam este thriller sul-coreano ainda mais relevante em 2026.

Sete anos após a noite em que ‘Parasita’ de Bong Joon Ho quebrou o protocolo do Dolby Theatre ao se tornar o primeiro filme em língua não-inglesa a vencer o Oscar de Melhor Filme, o tempo provou que não estávamos diante de um ‘hype’ passageiro. Reassistir à obra em 2026 revela uma arquitetura narrativa tão precisa que cada nova visualização expõe uma camada de crueldade técnica que talvez tenha passado despercebida no calor do lançamento.

A geometria do desprezo: como a fotografia de Hong Kyung-pyo dita o ritmo

A geometria do desprezo: como a fotografia de Hong Kyung-pyo dita o ritmo

O que torna ‘Parasita’ visualmente eterno não é apenas a beleza da mansão dos Park, mas como o diretor de fotografia Hong Kyung-pyo utiliza as linhas e enquadramentos. Repare como, em quase todas as cenas, existe uma linha física — uma moldura de janela, uma viga, uma escada — que separa os Kim dos Park, mesmo quando dividem o mesmo espaço. É a materialização visual do conceito de ‘não cruzar a linha’ que o Sr. Park tanto preza.

A verticalidade não é apenas temática; ela é técnica. Bong Joon Ho utiliza o formato 2.35:1 (CinemaScope) para enfatizar a largura dos espaços luxuosos, contrastando com o sufocamento vertical do semi-porão dos Kim. Quando a família desce as escadas durante a inundação, a câmera de Hong mergulha com eles, criando uma sensação física de descida ao inferno que a maioria dos thrillers de ação não consegue replicar.

A montagem da ‘Pele de Pêssego’ e o domínio do gênero

Um dos momentos que melhor define a maestria de Bong é a sequência da expulsão da governanta original através da alergia a pêssegos. É uma aula de montagem rítmica (assinada por Jinmo Yang). O uso de música clássica em contraponto a um plano de infiltração digno de ‘Missão Impossível’ transforma uma tragédia pessoal em uma comédia de erros perversa.

Essa transição fluida entre gêneros — do ‘heist movie’ (filme de assalto) inicial para o horror doméstico e, finalmente, para a tragédia grega no jardim — é o que mantém o filme atual. ‘Parasita’ não pede licença para mudar de tom; ele simplesmente o faz, confiando que o espectador está preso pela lógica interna da luta de classes, não por convenções de gênero.

O cheiro como elemento narrativo invisível

O cheiro como elemento narrativo invisível

Muitos filmes tentam abordar a desigualdade através de diálogos didáticos. Bong Joon Ho escolhe o sentido mais primitivo: o olfato. O ‘cheiro de pano de prato fervido’ ou o ‘cheiro de quem pega metrô’ é o elemento que finalmente rompe a bolha de polidez dos Park.

É um detalhe de roteiro brilhante porque é algo que o dinheiro não pode esconder imediatamente. Mesmo quando os Kim vestem roupas caras e falam com sotaques polidos, o cheiro do semi-porão (o banjiha) permanece neles como uma marca de Caim. Revendo o filme agora, a reação física do Sr. Park ao cheiro do Sr. Kim sob a mesa de centro parece ainda mais violenta do que qualquer agressão física.

O legado de Bong Joon Ho pós-‘Mickey 17’

No contexto atual, com Bong Joon Ho já tendo explorado o cinema de grande orçamento em ‘Mickey 17’, ‘Parasita’ permanece como seu ponto de equilíbrio perfeito. Ele sintetiza a crítica sistêmica de ‘Snowpiercer’ com a precisão investigativa de ‘Memórias de um Assassino’.

O filme não oferece uma catarse fácil. O plano final de Ki-woo, uma fantasia de ascensão social onde ele compra a casa para libertar o pai, é um dos encerramentos mais devastadores do cinema moderno. A câmera retorna ao porão úmido, confirmando que a mobilidade social, naquele sistema, é uma alucinação. Em 2026, com o abismo social global apenas se alargando, essa conclusão soa menos como ficção e mais como um diagnóstico clínico.

Para quem ‘Parasita’ continua sendo essencial?

Se você busca um filme que recompensa cada minuto de atenção, ‘Parasita’ é imbatível. É recomendado para quem aprecia cinema de detalhes — desde a escolha da marca da cerveja que os Kim tomam (que melhora conforme o golpe avança) até a posição da pedra ‘Scholar’s Stone’, que passa de símbolo de sorte a arma de destruição. É um filme que não envelhece porque a estrutura que ele critica — a desigualdade como arquitetura — continua sendo a nossa realidade.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Parasita’ de Bong Joon Ho

Onde posso assistir ‘Parasita’ atualmente?

‘Parasita’ está disponível em diversas plataformas de streaming, dependendo da sua região, como o Max (antigo HBO Max) e para aluguel na Apple TV e Google Play. É uma obra essencial que costuma figurar nos catálogos de cinema cult.

‘Parasita’ é baseado em uma história real?

Não diretamente. Embora não seja baseado em um caso específico, o diretor Bong Joon Ho se inspirou em suas próprias experiências como tutor de matemática para uma família rica em Seul durante sua juventude para criar a premissa do filme.

O que significa o final de ‘Parasita’?

O final é uma crítica à falta de mobilidade social. A cena em que Ki-woo imagina comprar a casa é uma ‘fantasia de esperança’. O corte final para ele ainda no porão confirma que, na realidade do filme, ele jamais conseguirá acumular o capital necessário para salvar o pai.

Por que o filme se chama ‘Parasita’?

O título é ambíguo. Inicialmente, parece referir-se à família Kim se infiltrando na casa dos Park. No entanto, o filme sugere que os Park também são parasitas, pois são incapazes de realizar tarefas básicas (dirigir, cozinhar, limpar) sem explorar o trabalho da classe baixa.

Quantos Oscars ‘Parasita’ ganhou?

O filme fez história ao vencer 4 Oscars em 2020: Melhor Filme, Melhor Diretor (Bong Joon Ho), Melhor Roteiro Original e Melhor Filme Internacional.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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