A nova série ‘A Ilha do Tesouro’ na Paramount+ promete transformar Jim Hawkins em pirata — uma mudança que altera o núcleo moral do clássico de Stevenson. Analisamos se a ousadia é coragem criativa ou erro estratégico, com David Oyelowo como Long John Silver.
Existem histórias que a gente protege como relíquias, e ‘A Ilha do Tesouro’ é uma delas. Robert Louis Stevenson escreveu um romance de aventura tão perfeito em sua estrutura — garoto inocente, mapa cobiçado, viagem ao desconhecido, traição, amizade ambígua com o vilão — que qualquer tentativa de “reimaginar” soa como temeridade. Agora, a Paramount+ anunciou que vai justamente reimaginar. E as mudanças prometidas são grandes o suficiente para levantar uma pergunta: isso é coragem criativa ou apostar na errada?
A série A Ilha do Tesouro acaba de ter sua produção confirmada como uma coprodução entre MGM+ (nos EUA) e Paramount+ (no Reino Unido e Irlanda), com seis episódios já em filmagens. O elenco é de peso: David Oyelowo vai viver Long John Silver, Hayley Atwell será Bess Hawkins, Jack Huston interpreta Aaron Graham, Tomer Capone é Billy Bones, e o jovem Tom Sweet assume o papel de Jim Hawkins. Nomes respeitáveis, produções anteriores sólidas — Oyelowo tem presença magnética, Atwell provou seu valor em ‘Agent Carter’, Capone brilha em ‘The Boys’. Mas o que chama atenção não é quem está no barco, e sim para onde esse barco está navegando.
A mudança que pode redefinir tudo — ou naufragar
A descrição oficial da série já deixa claro: esta será uma história de “transformação de um garoto protegido em um jovem pirata emboldado”. Se você leu o livro de Stevenson, seus ouvidos acabaram de apitar. No romance original, Jim Hawkins nunca se torna pirata — ele luta CONTRA piratas. O arco do personagem é sobre manter a integridade moral enquanto navega por águas traiçoeiras, literal e metaforicamente. A amizade complexa que ele desenvolve com Long John Silver é justamente dramática porque Jim nunca cruza a linha para o lado errado.
Transformar Jim em pirata não é uma mudança cosmética. É alterar o núcleo moral da história. Pode funcionar? Talvez. Pode soar como alguém tentando consertar o que não estava quebrado? Com certeza. A questão é se essa “reimaginação ousada” vai adicionar camadas psicológicas interessantes ou simplesmente ignorar o que faz o original funcionar há 140 anos.
Mãe a bordo e um agente britânico inédito
A série também promete expandir o papel de Bess Hawkins, mãe de Jim. No livro, ela não embarca na viagem — fica na pensão, um personagem funcional para o primeiro ato. Aqui, ela estará a bordo da Hispaniola, “presa entre o pirata charmoso e aterrorizante Long John Silver e o agente britânico duplo e elegante Aaron Graham”. Este último, inclusive, é um personagem original criado especificamente para a série.
Há ainda a promessa de contextualizar a história dentro de um Caribe em revolução. Isso me interessa mais do que a transformação de Jim em pirata. ‘Black Sails’, a série da Starz que serviu como prequel para ‘A Ilha do Tesouro’, provou que expandir o universo pirata com contexto histórico-político pode gerar narrativas ricas — as disputas entre impérios coloniais, a vida nas ilhas além do saque, a política interna das tripulações. Se esta nova adaptação seguir esse caminho, pode agregar valor real.
Um oceano de adaptações anteriores
‘A Ilha do Tesouro’ já foi adaptada mais de 50 vezes. Isso significa que qualquer nova versão precisa responder a uma pergunta brutal: por que esta precisa existir? A versão de 1950 da Disney ajudou a cristalizar nossa imagem estereotipada de piratas — embora historicamente imprecisa, foi influente o suficiente para moldar gerações de “arrs” e pernas de pau. ‘Planeta do Tesouro’, de 2002, transportou a história para o espaço e se tornou um clássico cult justamente por ter a ousadia de mudar tudo menos o coração da história.
E há ‘Os Muppets na Ilha do Tesouro’, com Tim Curry dando aula de como interpretar Long John Silver com carisma ameaçador. Cada adaptação encontrou seu caminho: a Disney apostou no aventura clássica, o filme animado na ficção científica, os Muppets na comédia afiada. O que esta nova versão está apostando? Parece ser na “profundidade emocional e borda contemporânea” prometida pelo deputy chief content officer da Paramount+, Sebastian Cardwell. Frases de marketing, claro, mas a intenção declarada é clara: quer ser mais sombria, mais psicológica, mais “prestigiosa”.
O desafio de David Oyelowo como Long John Silver
Long John Silver é um dos grandes vilões anti-heróis da literatura. Charmoso, manipulador, perigoso, mas também estranhamente paternal com Jim. A ambiguidade dele é o motor emocional da história. Robert Newton, na versão de 1950, criou o arquétipo do pirata caribenho que persiste até hoje. Tim Curry trouxe energia teatral e ameaça velada. Toby Stephens, em ‘Black Sails’, mostrou um Silver mais jovem e em construção.
Oyelowo tem a presença para isso. Seu trabalho em ‘Selma’ demonstra que ele consegue carregar peso dramático, e papéis em ‘Les Misérables’ e ‘The Cloverfield Paradox’ mostram versatilidade. A pergunta é: que Silver eles querem? O manipulador sutil do livro, ou algo mais explicitamente ameaçador? O material de referência descreve o personagem como “charmoso e aterrorizante” — uma combinação que, se bem executada, pode render um dos grandes vilões da TV atual.
Vale a pena apostar em mudanças tão profundas?
Confesso: sou cético com “reimaginações ousadas” de clássicos queridos. Vi adaptações que mudaram elementos fundamentais e entregaram algo inferior ao original, e vi adaptações que tiveram a coragem de transformar e criaram obras que existem por mérito próprio. ‘Planeta do Tesouro’ é do segundo time — muda tudo, mas mantém a alma. Esta ‘A Ilha do Tesouro’ parece querer mudar a alma.
A decisão de fazer Jim se tornar pirata pode ser interessante se explorar a corrupção moral de forma genuína — mostrar como um garoto inocente pode ser seduzido pelo lado errado. Mas corre o risco de transformar uma história sobre integridade em mais uma “anti-hero journey” genérica. A expansão do papel da mãe e a adição de um agente britânico duplo podem enriquecer o tecido narrativo… ou podem ser distorções que diluem o que é essencial.
O fato de a Disney também estar desenvolvendo sua própria versão — descrita como “uma versão surfista australiana” — só torna o panorama mais curioso. Teremos duas ‘A Ilha do Tesouro’ competindo pelo público, cada uma apostando em direções radicalmente diferentes. A da Paramount+ vai para o dramático sombrio; a da Disney para a aventura descontraída. Pode ser que ambas encontrem seu público, ou pode ser que nenhuma capture o que fez o original atravessar séculos.
No fim, a frase do executivo da Paramount+ sobre trazer “profundidade emocional e borda contemporânea” é exatamente o tipo de promessa que precisa ser cumprida. Já vimos adaptações prometerem “relevância moderna” e entregarem superficialidade. Esta série tem elenco, tem orçamento, tem ambição. Resta saber se tem a compreensão do material que está adaptando — ou se, na tentativa de “melhorar” Stevenson, vai acabar perdendo o tesouro que ele deixou enterrado.
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Perguntas Frequentes sobre a série ‘A Ilha do Tesouro’
Quando estreia a série ‘A Ilha do Tesouro’ na Paramount+?
A data de estreia ainda não foi anunciada. A produção está em fase de filmagens, com seis episódios confirmados.
Onde assistir ‘A Ilha do Tesouro’?
A série será exibida pela MGM+ nos Estados Unidos e pela Paramount+ no Reino Unido e Irlanda. A disponibilidade em outros mercados, incluindo Brasil, ainda não foi divulgada.
Quem está no elenco da nova adaptação?
David Oyelowo interpreta Long John Silver, Hayley Atwell é Bess Hawkins (mãe de Jim), Jack Huston vive Aaron Graham, Tomer Capone (‘The Boys’) é Billy Bones, e Tom Sweet assume o papel de Jim Hawkins.
Quais são as principais mudanças em relação ao livro original?
A série promete transformar Jim Hawkins em pirata — no livro de Stevenson, ele luta contra piratas. A mãe de Jim estará a bordo da Hispaniola, e há um personagem inédito: Aaron Graham, um agente britânico duplo. O contexto histórico do Caribe em revolução também será expandido.
Quantos episódios terá a série?
A primeira temporada terá seis episódios. É uma coprodução entre MGM+ e Paramount+, com filmagens já em andamento.

