Para além de Marvel e Alien: 5 joias da Fox que a Disney precisa resgatar

A Disney foca no óbvio, mas o catálogo da Fox esconde tesouros visionários. Analisamos 5 franquias da Fox na Disney que merecem um reboot — de thrillers sociais a ficção científica de James Cameron — e por que o estúdio precisa arriscar além dos super-heróis.

Quando a Disney comprou a 20th Century Fox em 2019, ela não adquiriu apenas um estúdio; ela herdou um inventário de quase um século de narrativa visual. Sete anos após o negócio, o panorama é previsível: a estratégia focou em franquias da Fox na Disney que já eram cavalos vencedores, como ‘Planeta dos Macacos’, ‘Alien’ e ‘Predador’. É um movimento seguro para os acionistas, mas artisticamente estéril.

O problema não reside no que a Disney resgatou, mas no vasto oceano de conceitos visionários que ela escolheu ignorar. Enterrados no arquivo da Fox existem propriedades que foram à frente de seu tempo — obras que fracassaram comercialmente por limitações técnicas da época, mas que hoje encontrariam um público ávido em plataformas como o Disney+ ou o Hulu. Aqui estão cinco joias que pedem uma reinterpretação urgente.

‘Alien Nation’: a alegoria de imigração que o streaming exige

'Alien Nation': a alegoria de imigração que o streaming exige

‘Alien Nation’ (1988) fez, décadas antes, o que ‘Distrito 9’ aperfeiçoaria: usou a ficção científica como um bisturi social. A premissa de alienígenas refugiados (os ‘Newcomers’) tentando se integrar em uma Los Angeles hostil é mais relevante hoje do que nos anos 80. Lembro-me da maquiagem densa e das manchas cranianas que davam aos seres uma estranheza palpável, quase incômoda.

Uma nova versão não deveria ser um blockbuster de ação, mas um procedural policial sombrio. Imagine uma série limitada com a densidade de ‘The Wire’, focando nas tensões de guetos interplanetários e na xenofobia sistêmica. A Disney tem em mãos uma metáfora poderosa para a crise migratória global, pronta para ser explorada com maturidade.

‘Buckaroo Banzai’: o multiverso antes da saturação

Antes de o MCU tornar o multiverso um conceito doméstico, ‘As Aventuras de Buckaroo Banzai Através da 8ª Dimensão’ (1984) já desafiava as leis da física e do bom senso. O protagonista — neurocirurgião, piloto e rockstar — é o herói que a geração ‘Rick and Morty’ adoraria. A estética New Wave e o humor seco de Peter Weller criaram um culto que sobrevive até hoje.

O que torna Buckaroo valioso para as franquias da Fox na Disney é seu universo pré-fabricado. O roteirista Earl Mac Rauch acumulou centenas de páginas de mitologia nunca filmada. Em vez de um remake, a Disney poderia lançar uma série que partisse do pressuposto de que todas as aventuras mencionadas no filme original realmente aconteceram. É um slate limpo com profundidade de cânone rara em Hollywood.

‘Viagem Fantástica’: o espetáculo anatômico de James Cameron

'Viagem Fantástica': o espetáculo anatômico de James Cameron

De todos os títulos, ‘Viagem Fantástica’ (1966) é o que possui o maior potencial visual bruto. O filme original ganhou o Oscar de Efeitos Visuais ao miniaturizar uma equipe médica para operar um coágulo cerebral por dentro. Embora charmoso, o design de 1966 sofria com as limitações de cenários físicos que pareciam, bem, cenários.

James Cameron está ligado ao projeto há anos, e com razão. Imagine o interior do corpo humano renderizado com a tecnologia de captura de movimento de ‘Avatar’. Uma jornada pelo sistema circulatório, onde glóbulos brancos parecem monstros lovecraftianos e o batimento cardíaco soa como um terremoto em IMAX, seria o ápice do cinema imersivo. É a ciência transformada em terror de sobrevivência.

‘Com a Maldade na Alma’: o gótico sulista merece um revival

Inserido no subgênero Hagsploitation, ‘Com a Maldade na Alma’ (1964) é uma obra de tensão psicológica insuportável. A história de Charlotte Hollis, assombrada por um assassinato brutal e pelo fantasma de um amante decapitado, possui uma atmosfera gótica que o público de ‘American Horror Story’ consumiria avidamente.

O segredo aqui não é replicar a atuação inalcançável de Bette Davis, mas focar na paranoia. Como uma minissérie de prestígio, o material permite explorar o declínio mental e os segredos de uma aristocracia sulista decadente. É o tipo de conteúdo adulto que equilibraria o catálogo da Disney, provando que o estúdio pode lidar com horror psicológico de alto nível.

‘Os Homens Magníficos e Suas Máquinas Voadoras’: o triunfo do efeito prático

Em uma era saturada por telas verdes, ‘Os Homens Magníficos e Suas Máquinas Voadoras’ (1965) representa o que o cinema perdeu: o perigo real. O filme sobre uma corrida aérea em 1910 foi filmado com réplicas autênticas de aviões da época, realizando manobras que desafiavam a gravidade e a segurança.

A Disney poderia resgatar este espírito na veia de ‘Top Gun: Maverick’. Um filme que celebra a engenharia mecânica e o heroísmo analógico, focado em stunts práticos e câmeras acopladas em biplanos reais. É um contraponto necessário à artificialidade digital dos blockbusters modernos e uma oportunidade de criar um evento cinematográfico baseado em técnica e coragem, não apenas em CGI.

O valor do médio orçamento no streaming

A Disney precisa entender que nem toda propriedade Fox precisa ser um ‘tentpole’ de um bilhão de dólares. O verdadeiro tesouro desse catálogo reside nos filmes de médio orçamento que constroem identidade de marca. Ao ignorar ‘Alien Nation’ ou ‘Buckaroo Banzai’, o estúdio deixa de ocupar nichos de ficção científica e suspense que hoje são dominados pela concorrência.

Resgatar essas joias não é apenas um exercício de nostalgia; é uma estratégia de diversificação necessária. Se a Disney quer que o seu serviço de streaming seja indispensável, ela precisa parar de minerar apenas o óbvio e começar a polir os diamantes brutos que já possui em seu cofre.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre as Franquias da Fox na Disney

Quais franquias da Fox a Disney já reviveu?

Desde a compra em 2019, a Disney focou em grandes IPs como ‘Planeta dos Macacos’ (com ‘O Reinado’), ‘Alien’ (‘Romulus’ e a série ‘Earth’), ‘Predador’ (‘Prey’) e a integração do ‘Quarteto Fantástico’ e ‘X-Men’ ao MCU.

James Cameron ainda vai fazer o remake de ‘Viagem Fantástica’?

Sim, James Cameron confirmou em 2024 que o projeto continua em desenvolvimento. Ele deve atuar como produtor, trazendo a tecnologia de micro-captura visual que desenvolveu para as sequências de ‘Avatar’.

Onde posso assistir aos filmes clássicos da Fox?

No Brasil, a maior parte do catálogo da 20th Century Fox está disponível no Disney+. Filmes com classificação indicativa mais alta (R-Rated) que antes ficavam no Star+ agora foram integrados à aba principal do Disney+ sob o selo Star.

Por que a Disney não faz reboots de todos os filmes da Fox?

A Disney prioriza propriedades com “reconhecimento de marca” global para garantir retorno financeiro. Filmes cult como ‘Buckaroo Banzai’ são considerados de maior risco, embora o crescimento do streaming esteja abrindo espaço para projetos de médio porte.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também