‘Os Suspeitos’: por que o final ainda é um enigma 30 anos depois

Analisamos por que ‘Os Suspeitos’ continua sendo o ‘plot twist’ mais desafiador do cinema. Entenda como a montagem de John Ottman e o roteiro premiado de Christopher McQuarrie transformaram uma mentira improvisada em uma obra-prima sobre a natureza da narrativa.

Em 1995, um thriller de baixo orçamento mudou a forma como o público consome reviravoltas. Quase 30 anos depois, a busca por ‘Os Suspeitos’ final explicado continua no topo dos buscadores. O motivo não é a complexidade da trama, mas a natureza da mentira. Diferente de outros filmes de ‘plot twist’, a obra de Bryan Singer não oferece uma peça que falta para completar o quebra-cabeça; ela joga o tabuleiro inteiro no chão.

A anatomia de um golpe: por que o final ainda fascina

A anatomia de um golpe: por que o final ainda fascina

O que torna ‘Os Suspeitos’ (The Usual Suspects) um marco não é apenas a revelação de que Verbal Kint (Kevin Spacey) é o mítico Keyser Söze. É a percepção de que fomos cúmplices de um interrogador incompetente. O agente Kujan (Chazz Palminteri) comete o erro clássico de quem busca a verdade: ele já tinha uma teoria pronta e só precisava de alguém que a confirmasse.

A genialidade do roteiro de Christopher McQuarrie — que lhe rendeu um Oscar — reside no fato de que a narrativa de Verbal é construída inteiramente sobre o que está no campo de visão imediato. O nome do advogado, ‘Kobayashi’, vem do fundo de uma xícara de porcelana. Os detalhes de Skokie, Illinois, e os nomes dos comparsas foram pescados de um quadro de avisos bagunçado. Quando a xícara cai e se estraçalha no clímax do filme, o que se quebra não é apenas o objeto, mas a nossa confiança em tudo o que vimos nos últimos 100 minutos.

O papel vital da montagem de John Ottman

Pouca gente nota, mas a tensão do final de ‘Os Suspeitos’ deve tanto à montagem quanto ao roteiro. John Ottman, que curiosamente acumulou as funções de montador e compositor da trilha sonora, criou um ritmo onde a música cresce na mesma medida em que a câmera de Singer se aproxima dos detalhes do quadro de avisos.

A técnica de ‘cross-cutting’ entre o pé torto de Verbal se endireitando e os flashbacks da história sendo desmentida visualmente é uma aula de cinema. Enquanto outros filmes da época, como ‘O Sexto Sentido’, usam a revisão para validar a lógica da história, ‘Os Suspeitos’ usa a revisão para rir da nossa credulidade. Não há ‘pistas’ para seguir porque a história contada por Verbal é, por definição, um beco sem saída.

Verbal Kint vs. Keyser Söze: a identidade é real?

Verbal Kint vs. Keyser Söze: a identidade é real?

Uma dúvida comum é: Verbal Kint é realmente Keyser Söze ou ele é apenas um subordinado muito inteligente que assumiu a persona? O filme sugere a primeira opção, mas deixa espaço para o mito. O poder de Söze não reside em sua força física, mas em sua onipresença narrativa.

Ao sair da delegacia, acender um cigarro e perder o andar manco, Verbal prova que é um mestre da performance. Se ele é o ‘diabo’ que convenceu o mundo de que não existia, ou se Keyser Söze é apenas uma marca corporativa do crime usada por vários homens, pouco importa. O que importa é que ele venceu a guerra narrativa. Ele controlou a informação, e quem controla a informação, controla a realidade.

Por que comparar com ‘Clube da Luta’ é um erro

Frequentemente colocamos ‘Os Suspeitos’ no mesmo saco que ‘Clube da Luta’ ou ‘Seven’. Mas a estrutura é oposta. Em ‘Clube da Luta’, a verdade é interna (psicológica). Em ‘Os Suspeitos’, a verdade é externa e inacessível.

Se você reassistir ao filme tentando encontrar ‘furos de roteiro’ na história de Verbal, você encontrará milhares. Mas isso não é um erro de produção; é a prova de que Verbal estava inventando tudo sob pressão. O filme não é sobre um assalto que deu errado em um navio; é sobre um interrogatório onde o criminoso usou a imaginação como arma de fuga.

Veredito: o enigma é a recompensa

Tentar encontrar uma explicação definitiva para o final de ‘Os Suspeitos’ é cair na mesma armadilha do agente Kujan. O filme é um exercício de metalinguagem sobre o próprio cinema: nós, a audiência, somos o detetive sentado na sala escura, aceitando como verdade qualquer imagem que nos projetam na tela.

O maior truque de Keyser Söze não foi convencer o mundo de que ele não existia, mas convencer você de que, se assistisse com atenção suficiente, entenderia o que aconteceu. No final, Verbal Kint entra naquele carro e desaparece, deixando-nos com a única certeza possível no cinema noir: a verdade é apenas a mentira que ainda não foi descoberta.

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Perguntas Frequentes sobre ‘Os Suspeitos’

Quem é Keyser Söze no final de ‘Os Suspeitos’?

O filme revela que Verbal Kint (Kevin Spacey) é Keyser Söze. Ele fingiu ter paralisia cerebral e inventou toda a história do interrogatório usando nomes e detalhes que viu em um quadro de avisos na delegacia.

O filme ‘Os Suspeitos’ é baseado em uma história real?

Não, a história é totalmente fictícia. No entanto, o roteirista Christopher McQuarrie se inspirou em um caso real de um homem que assassinou sua família e desapareceu (John List) para criar a mística de crueldade de Keyser Söze.

Onde assistir ‘Os Suspeitos’?

Atualmente, ‘Os Suspeitos’ costuma estar disponível em plataformas de aluguel digital como Apple TV+, Google Play e Amazon Prime Video. A disponibilidade em catálogos de streaming por assinatura (como Netflix) varia mensalmente.

Qual o significado do nome ‘Kobayashi’?

Na trama de Verbal, Kobayashi é o advogado de Söze. Na realidade, Verbal tirou o nome da marca do fabricante da xícara de café (Kobayashi Porcelain) que o agente Kujan estava usando durante o interrogatório.

‘Os Suspeitos’ ganhou algum Oscar?

Sim, o filme venceu dois Oscars em 1996: Melhor Roteiro Original (Christopher McQuarrie) e Melhor Ator Coadjuvante (Kevin Spacey).

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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