‘Os Simpsons’ nunca terá um finale como ‘The Office’, diz showrunner

Matt Selman afirma que um Os Simpsons finale “tradicional” não faz sentido: a série vive de reset, não de fechamento emocional. Explicamos por que comparar com ‘The Office’ é enganoso — e por que o fim pode ser, deliberadamente, anticlimático.

Tem algo estranho em ficção televisiva: a obsessão pelo finale. Como se uma série só valesse a pena quando entrega um encerramento grandioso — preferencialmente com lágrimas, fechamento de arcos e aquela sensação de “fim de era”. Matt Selman, showrunner de ‘Os Simpsons’, acabou de declarar algo que vai contra essa lógica: quando a série acabar, não haverá finale tradicional no molde de ‘The Office’. E, pela lógica interna da série, ele não está só provocando: está descrevendo a única saída coerente.

A fala veio numa entrevista ao TheWrap, enquanto a animação se aproxima de um marco histórico: o fim da 37ª temporada com os episódios 800 e 801. Selman foi direto ao ponto: cada episódio funciona como um reset; os personagens não envelhecem; a Springfield “canônica” não avança em linha reta. Forçar um capítulo final com arcos encerrados e tom de despedida seria, nas palavras dele, trair a estrutura que manteve a série viva por décadas. “É como ‘Feitiço do Tempo’, mas eles não sabem”, ele disse — e a comparação é melhor do que parece, porque traduz a regra do jogo em uma frase.

Por que ‘Os Simpsons’ não funciona com um finale “de virar a página”

Por que 'Os Simpsons' não funciona com um finale “de virar a página”

Quando Selman cita ‘The Office’ como exemplo do tipo de final que não faz sentido para Springfield, ele está falando de uma diferença de DNA. O finale da versão americana (2013) funciona porque a série construiu continuidade emocional como motor: personagens envelhecem, relações mudam, a própria ideia de “trabalho” se transforma com o tempo. O episódio final é uma catarse porque o público acompanhou um processo — e o encerramento vira quase uma cerimônia.

‘Os Simpsons’ nunca prometeu esse contrato. Homer pode aprender uma lição sobre paternidade em um episódio e voltar ao modo “Homer” no seguinte. Bart pode quase amadurecer e, na semana seguinte, estar de novo preso no eterno presente da 4ª série. Isso não é defeito de escrita: é um recurso estrutural. É o que permite que você ligue a TV aleatoriamente, caia em qualquer temporada, e entenda quem são aquelas pessoas em dois minutos. Um finale “choroso” com fechamento de arcos importaria uma gramática narrativa que a série nunca adotou — e a sensação, em vez de épica, tenderia a soar artificial.

A série já “matou” o próprio finale — e isso não foi acidente

O detalhe mais interessante da entrevista é quando Selman lembra que a série já fez, recentemente, um episódio que parodiava os clichês de finale: despedidas enfáticas, saltos no tempo, montagens sentimentais, aquele “e foi assim que tudo terminou” embalado para virar memória afetiva. Ou seja: ‘Os Simpsons’ não está apenas dizendo “não vamos fazer”. Está dizendo “a gente entende exatamente o que vocês esperam — e isso, aqui, é uma piada”.

Isso é muito simpsonsiano não por ser meta, mas por ser uma defesa do formato. A série sempre sobreviveu por antecipar e satirizar fórmulas: quando o gênero pede solenidade, Springfield responde com anticlimax. E, nesse sentido, recusar um finale é quase uma extensão do princípio que mantém a série reconhecível desde 1989: o mundo pode até mudar ao redor, mas a piada volta para o ponto de partida.

O valor da narrativa episódica na era do “prestige TV”

O valor da narrativa episódica na era do “prestige TV”

A entrevista também esbarra num debate maior: a vitória cultural do “romance em capítulos”. Hoje, muita gente consome séries como se fossem livros longos — e cobra fechamento, “payoff”, moral final. Só que sitcoms clássicas foram construídas em outra lógica: o prazer vinha da recorrência, do ritual, da variação em cima de personagens estáveis. De ‘I Love Lucy’ a ‘Friends’, você podia perder temporadas e voltar sem sentir que estava “atrasado” na história.

‘Os Simpsons’ é um dos últimos gigantes mainstream a sustentar esse modelo sem pedir desculpas. ‘Modern Family’ encerrou com mudanças e despedidas; ‘How I Met Your Mother’ tentou amarrar anos de expectativa e virou referência do que acontece quando o final quer ser mais “definitivo” do que o público aceita. Springfield, ao contrário, continua imune ao tempo: Maggie não cresce; Bart permanece onde sempre esteve; Homer segue no mesmo emprego desde sempre. Esse “eterno presente” é parte do conforto — e também parte da força industrial da série: ela existe como biblioteca, não como trajetória.

Num cenário em que toda série precisa ser “importante” e “memorável”, há algo estranhamente honesto numa obra que só quer continuar sendo ela mesma, episódio após episódio, sem transformar o término em evento.

O fim real pode ser logístico — e justamente por isso anticlimático

A pergunta que realmente assombra qualquer discussão sobre o futuro de ‘Os Simpsons’ não é “qual seria o melhor finale?”. É: o que acontece quando o elenco não puder continuar? Selman toca nisso sem transformar em manchete, mas o subtexto é claro: o encerramento pode chegar por motivos práticos, não por decisão criativa.

Pamela Hayden, voz do Milhouse, se aposentou em 2024, e a série simplesmente seguiu — substituindo a voz e mantendo o mundo em movimento. Só que há um grupo que parece mais difícil de “trocar” sem mudar a identidade sonora do desenho: Dan Castellaneta (Homer), Julie Kavner (Marge), Nancy Cartwright (Bart), entre outros pilares. Quando essa transição ficar inviável, o caminho mais coerente com o formato talvez seja o menos dramático: a série parar.

E a ideia de Selman é que isso não precisa virar um capítulo “histórico” com discurso final e lágrimas embaladas. Pode ser apenas mais um episódio — e só depois descobriremos que foi o último. Há algo poeticamente adequado nisso: uma série que não se organiza em torno de continuidade não deveria fingir, no fim, que sempre caminhou para um grande fechamento.

A 38ª temporada já está confirmada, e a produção está garantida até pelo menos a 40ª. Quando o fim chegar — inevitavelmente —, Selman parece defender uma espécie de respeito raro: não tentar transformar ‘Os Simpsons’ em outra coisa só para cumprir a expectativa contemporânea de um Os Simpsons finale. Em Springfield, o ponto é exatamente o contrário: a vida continua. Até o dia em que não continuar.

Para ficar por dentro de tudo que acontece no universo dos filmes, séries e streamings, acompanhe o Cinepoca também pelo Facebook e Instagram!

Perguntas Frequentes sobre ‘Os Simpsons finale’

‘Os Simpsons’ vai ter um episódio final (finale)?

Se a série terminar, a ideia defendida pelo showrunner Matt Selman é que não haja um “finale” tradicional com despedida e fechamento de arcos. O último capítulo tende a ser apenas mais um episódio dentro do formato episódico.

Quem é Matt Selman em ‘Os Simpsons’?

Matt Selman é um dos principais produtores e showrunners de ‘Os Simpsons’, responsável por decisões criativas e pela direção geral da série em temporadas recentes, ao lado de outros produtores executivos.

Por que o finale de ‘The Office’ é citado como contraste?

Porque ‘The Office’ construiu uma continuidade emocional e mudanças permanentes (saídas, amadurecimento, relações), o que torna um episódio de despedida coerente. ‘Os Simpsons’ trabalha majoritariamente com “reset” e personagens estáveis, o que dificulta um encerramento definitivo.

‘Os Simpsons’ já fez um episódio “tipo finale”?

Segundo Selman, a série já exibiu um episódio recente que brinca com clichês de “episódio final” (despedidas, sentimentalismo, saltos temporais) justamente para satirizar essa expectativa e sinalizar que não pretende repetir isso de forma definitiva.

O que pode fazer ‘Os Simpsons’ acabar de verdade?

Além de decisão de emissora/estúdio, um fator prático é a disponibilidade do elenco principal de dubladores. A série já substituiu vozes pontualmente, mas mudanças em personagens centrais podem pesar na decisão de encerrar a produção.

Mais lidas

Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

Veja também