Analisamos como ‘Os Renegados’ Marilyn Monroe subverteu o faroeste ao atacar a masculinidade tóxica em 1961. Descubra por que a última atuação da atriz é um manifesto feminista que antecipou o tropo ‘Good For Her’ décadas antes de se tornar tendência em Hollywood.
Existe uma tendência preguiçosa em reduzir ‘Os Renegados’ Marilyn Monroe a uma nota de rodapé fúnebre. Lançado em 1961, o filme é eternamente lembrado como o ‘canto do cisne’ de seus protagonistas: o último esforço de Clark Gable, que sucumbiu a um infarto dias após as filmagens, e a despedida melancólica de Monroe antes de sua morte prematura. No entanto, ao focar apenas no obituário, a crítica muitas vezes ignora o fato de que este é o faroeste mais subversivo, desconfortável e intelectualmente honesto já produzido pela Hollywood clássica.
A desconstrução da virilidade no deserto de Nevada
Diferente dos épicos de John Ford, onde a paisagem é um convite à conquista, em ‘Os Renegados’ (The Misfits), o deserto de Nevada é um purgatório. Escrito por Arthur Miller e dirigido por John Huston, o longa funciona como uma autópsia da masculinidade tóxica em um gênero que, até então, a idolatrava. Gay Langland (Gable) e Guido (Eli Wallach) não são heróis; são anacronismos vivos, cowboys que não aceitam que o mundo mudou e que sua ‘liberdade’ agora se resume a caçar cavalos selvagens para virar comida de cachorro.
A fotografia em preto e branco de Russell Metty abandona o glamour habitual para focar no suor, na poeira e no desgaste físico. Quando o grupo se junta ao cavaleiro de rodeio quebrado de Montgomery Clift, o filme revela sua face mais cruel. A cena da caça aos mustangs é um dos momentos mais viscerais do cinema americano: a câmera de Huston não celebra a captura, ela documenta a humilhação. É aqui que o filme deixa de ser um western para se tornar um estudo sobre a fragilidade de homens que precisam dominar algo vivo para provar que ainda existem.
Roslyn Taber: a precursora do movimento ‘Good For Her’
Recentemente, o termo ‘Good For Her’ tornou-se viral para descrever personagens femininas que despertam contra estruturas opressoras. Embora o conceito seja moderno, a Roslyn de Marilyn Monroe é sua fundadora espiritual. Frequentemente rotulada como ‘instável’ ou ‘emocional demais’ pelos personagens masculinos (e pela crítica da época), Roslyn é, na verdade, o único elemento de sanidade na trama. É através do olhar dela que a violência do faroeste é desmascarada.
Marilyn entrega aqui sua performance mais técnica e dolorosa. Ela despe a persona de bombshell para encarnar uma vulnerabilidade que se transforma em fúria ética. Na icônica sequência em que ela grita sozinha no deserto, chamando os homens de ‘assassinos’ e ‘mentirosos’, Monroe não está apenas atuando; ela está implodindo décadas de tropos cinematográficos onde a mulher era apenas o prêmio do cowboy. Ela é a consciência que o gênero tentou silenciar por 50 anos.
Um antídoto para a glorificação da violência moderna
É fascinante comparar ‘Os Renegados’ Marilyn Monroe com obras como ‘Taxi Driver’ ou ‘Clube da Luta’. Enquanto o público contemporâneo muitas vezes falha em perceber a crítica e acaba por idolatrar a estética da violência desses filmes, ‘Os Renegados’ torna a violência impossível de ser glamourizada. O roteiro de Miller é cirúrgico: ele não permite que o espectador saia da sessão achando que a autodestruição masculina é ‘cool’.
O filme termina não com um duelo, mas com uma desistência. É um reconhecimento de que a força bruta é um beco sem saída. Se você busca um western que desafie suas noções de gênero e moralidade, esta obra é obrigatória. Ela prova que, mesmo em 1961, o cinema já entendia que o verdadeiro horizonte a ser explorado não era o território geográfico, mas o labirinto ético da alma humana.
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Perguntas Frequentes sobre ‘Os Renegados’ (The Misfits)
Onde assistir ao filme ‘Os Renegados’ com Marilyn Monroe?
Atualmente, ‘Os Renegados’ (1961) está disponível para aluguel e compra em plataformas digitais como Apple TV e Amazon Prime Video. Eventualmente, ele integra o catálogo de streamings voltados a clássicos, como o MUBI ou o Telecine.
Este foi realmente o último filme de Marilyn Monroe?
Sim, foi o último filme que ela completou. Marilyn chegou a iniciar as filmagens de ‘Something’s Got to Give’ em 1962, mas foi demitida e o filme nunca foi finalizado devido à sua morte.
É verdade que Clark Gable morreu por causa das filmagens?
Embora não se possa afirmar causalidade direta, as filmagens foram extremamente exaustivas. Gable, aos 59 anos, insistiu em fazer suas próprias cenas de ação, incluindo ser arrastado por cavalos no calor do deserto. Ele sofreu um ataque cardíaco dois dias após o fim das gravações e faleceu dez dias depois.
Por que o filme é considerado feminista?
Porque ele coloca a perspectiva feminina (Roslyn) como o centro moral da história, desafiando a violência e a exploração animal praticada pelos homens, que até então eram vistos como comportamentos heroicos no gênero western.
Quem escreveu o roteiro de ‘Os Renegados’?
O roteiro foi escrito pelo renomado dramaturgo Arthur Miller, que na época era casado com Marilyn Monroe. Ele escreveu o papel de Roslyn especificamente para ela.

