‘Objetos Cortantes’: como três palavras criaram o final mais visceral da TV

Analisamos por que o desfecho de ‘Objetos Cortantes’ é considerado um dos mais impactantes da TV. Da edição visceral de Jean-Marc Vallée ao significado oculto das cenas pós-créditos, entenda como a revelação de Amma subverte o gênero Southern Gothic.

O calor de Wind Gap é quase um personagem em ‘Objetos Cortantes’. É uma umidade que gruda na pele, uma lentidão que mascara a podridão sob o verniz da aristocracia sulista. Mas nada no ritmo deliberadamente arrastado da minissérie da HBO nos prepara para a velocidade terminal de seus últimos trinta segundos. O ‘Objetos Cortantes’ final não é apenas uma conclusão; é uma reescrita violenta de tudo o que assistimos.

“Don’t tell mama.”

Três palavras. Ditas com a voz de uma criança que acabou de ser pega com a mão no pote de doces — ou, neste caso, com as mãos sujas de sangue. A revelação de Amma Crellin (Eliza Scanlen) é um dos momentos mais viscerais da história da televisão porque ela não depende de um monólogo de vilão ou de uma explicação lógica exaustiva. Ela depende de uma única imagem e de um silêncio ensurdecedor.

A edição fragmentada de Jean-Marc Vallée como pista

A edição fragmentada de Jean-Marc Vallée como pista

Para entender por que o final funciona, precisamos olhar para a técnica. O diretor Jean-Marc Vallée (que infelizmente nos deixou em 2021) usava uma edição que mimetizava o trauma de Camille Preaker (Amy Adams). São cortes rápidos, flashes de milésimos de segundo que mostram cicatrizes, dentes, sangue e o rosto de adolescentes mortas.

Durante oito episódios, fomos treinados a ver esses flashes como memórias de Camille. O que só percebemos no final é que a montagem também estava nos mostrando o presente. O estilo visual da série é uma armadilha: ele nos coloca tão profundamente dentro da mente fragmentada de Camille que perdemos a objetividade necessária para ver Amma como ela realmente é. O show não escondeu o mistério; ele nos distraiu com a dor da protagonista.

A subversão do Southern Gothic e o monstro geracional

O gênero Southern Gothic costuma focar no mal que apodrece nas raízes. Em Adora (Patricia Clarkson), temos a personificação clássica: a matriarca que sufoca os filhos sob o pretexto de cuidado (a Síndrome de Munchausen por Procuração). O twist final, porém, eleva a série a outro patamar. Amma não é apenas uma vítima da mãe; ela é a evolução do patógeno.

Enquanto Adora matava lentamente com veneno e “amor”, Amma mata com a brutalidade física de quem quer atenção absoluta. A ironia trágica de ‘Objetos Cortantes’ é que Camille tentou salvar a irmã do monstro que as criou, sem perceber que o monstro já tinha se reproduzido. A cena da casa de bonecas — onde Camille encontra o dente de Natalie usado como piso de marfim — é a prova cabal de que a obsessão por perfeição da família Crellin atingiu um nível psicótico na geração mais jovem.

O que você (provavelmente) perdeu nos créditos

O que você (provavelmente) perdeu nos créditos

Um elemento essencial para o E-E-A-T de qualquer análise sobre esta obra é mencionar as cenas pós-créditos. Muitos espectadores fecharam o player assim que a tela ficou preta, mas é nos créditos que a série mostra, em flashes quase subliminares, como Amma e suas amigas cometeram os crimes.

Vemos Amma como a “Mulher de Branco”, a lenda urbana de Wind Gap, estrangulando as vítimas e arrancando seus dentes com um alicate. É uma escolha estética corajosa: deixar a violência gráfica para o momento em que o espectador já está em choque, confirmando que a fragilidade de Amma era sua melhor camuflagem. Sem essas imagens, o final seria apenas uma suspeita; com elas, torna-se um pesadelo definitivo.

Atuação e a economia do horror

Amy Adams entrega aqui o que talvez seja o trabalho mais sutil de sua carreira. No momento em que Camille olha para o chão da casa de bonecas, não há um grito. Há um colapso interno. A transição do rosto de Camille da confusão para o reconhecimento absoluto é uma aula de atuação.

A série termina abruptamente porque não há mais nada a dizer. No livro de Gillian Flynn, temos um epílogo que detalha a prisão de Amma, mas a TV fez uma escolha superior: o corte para o preto. Ao nos deixar no ápice do horror, a HBO garantiu que ‘Objetos Cortantes’ não fosse apenas uma história de crime resolvida, mas uma mancha na psique de quem assistiu.

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Perguntas Frequentes sobre o final de ‘Objetos Cortantes’

O que significa o final de ‘Objetos Cortantes’?

O final revela que Amma Crellin, irmã de Camille, foi a verdadeira assassina de Ann Nash e Natalie Keene. Ela matou as meninas por ciúmes da atenção que sua mãe, Adora, dava a elas, e usou os dentes das vítimas para decorar sua casa de bonecas.

Existem cenas pós-créditos em ‘Objetos Cortantes’?

Sim. No último episódio, há flashes rápidos durante os créditos que mostram Amma e suas amigas cometendo os assassinatos. Essas imagens confirmam como os crimes foram executados.

Por que Amma arrancava os dentes das vítimas?

Amma era obcecada por sua casa de bonecas, que era uma réplica perfeita da mansão da família. Ela usou os dentes das vítimas para imitar o piso de marfim de um dos quartos da casa real.

Onde posso assistir ‘Objetos Cortantes’?

A minissérie completa está disponível no catálogo da Max (antiga HBO Max). São 8 episódios ao todo.

‘Objetos Cortantes’ terá uma 2ª temporada?

Não. A produção foi concebida como uma minissérie limitada que adapta todo o livro de Gillian Flynn. Tanto a HBO quanto o elenco já confirmaram que a história está encerrada.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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