O vazio deixado por ‘Os Sopranos’: 10 séries que tentaram seguir seu legado

Analisamos 10 séries que tentaram seguir o legado de ‘Os Sopranos’ — de ‘Peaky Blinders’ a ‘Gomorrah’ — e explicamos por que nenhuma conseguiu replicar a fórmula única de drama familiar e crime criada por David Chase. O vazio permanece, e isso diz mais sobre a genialidade da obra original do que sobre suas supostas herdeiras.

Quando ‘Os Sopranos’ terminou em 2007, deixou um buraco que nenhuma série conseguiu preencher de verdade. Quase 20 anos depois, assisti a dezenas de produções vendidas como ‘sucessoras’ do clássico da HBO, e a conclusão é incômoda: séries parecidas com Os Sopranos existem aos montes, mas nenhuma capturou o que tornou a obra de David Chase revolucionária. Não é falta de qualidade — várias são excelentes. É que Chase criou algo que transcende gênero: um drama sobre família que acontece ter crime como profissão, não o contrário. Essa distinção sutil faz toda diferença.

Antes de entrarmos nas candidatas a herdeiras, vale entender o que exatamente estamos buscando. Tony Soprano não era apenas um mafioso com problemas emocionais — era um homem dilacerado entre duas famílias que nunca poderiam coexistir pacificamente. A genialidade estava no equilíbrio: momentos de ternura genuína com a esposa e filhos contrapostos a brutalidade fria nos negócios. A maioria das séries que tentaram replicar essa fórmula escolheu um lado e ignorou o outro. O resultado? Produtos que funcionam como entretenimento criminal, mas falham como estudo de personagem.

Por que ‘Peaky Blinders’ chegou perto — mas escolheu outro caminho

Por que 'Peaky Blinders' chegou perto — mas escolheu outro caminho

Das séries analisadas, ‘Peaky Blinders’ é provavelmente a que mais conscientemente tentou emular a estrutura de ‘Os Sopranos’. Thomas Shelby é, fundamentalmente, um Tony Soprano britânico: líder de um clã criminal, obcecado por controle, atormentado por demônios internos (aqui representados pelo TEPT da Primeira Guerra Mundial em vez de ataques de pânico). A dinâmica familiar dos Shelby — com irmãos competindo, tios traidores e uma matriarca formidável — ecoa os Soprano de forma deliberada.

Mas Cillian Murphy e o criador Steven Knight fizeram uma escolha que distancia a obra de seu modelo: ‘Peaky Blinders’ abraça o mito. Thomas Shelby se torna quase sobre-humano ao longo das seis temporadas, um estrategista brilhante que derrota inimigos impossíveis. Tony Soprano, em contraste, era pateticamente humano — errava, se humilhava, tomava decisões estúpidas por raiva ou insegurança. A crítica de 88% no Rotten Tomatoes para a primeira temporada subiu para 100% na segunda e terceira, refletindo como a série encontrou sua própria identidade. Disponível na Netflix, a produção confirma que Shelby seguiu virando lenda — algo que Tony, com toda sua complexidade, nunca conseguiu ser.

‘Animal Kingdom’ e a família disfuncional levada ao extremo

Se ‘Os Sopranos’ equilibrava crime e família, ‘Animal Kingdom’ decidiu que não existe diferença entre os dois. O clã Cody é uma família criminosa no sentido mais literal possível — a matriarca Janine ‘Smurf’ Cody cria seus filhos para o crime desde pequenos. Não há vida doméstica ‘normal’ contrastando com o mundo do crime. O crime É a vida doméstica.

Isso produz momentos de tensão extraordinária, especialmente nas interações entre Shawn Hatosy como Andrew ‘Pope’ Cody e o resto do elenco. Pope é um assassino de sangue frio cujos traumas psicológicos rivalizam com os de Tony Soprano — mas enquanto Tony buscava terapia e tentava ser um pai ‘normal’, Pope é simplesmente o produto de uma mãe que o transformou em arma. A série, disponível na Amazon Prime Video, funciona muito bem, mas opera em um registro diferente: é estudo de caso sobre psicopatologia familiar, não sobre a impossibilidade de conciliar dois mundos.

Onde ‘Filhos da Anarquia’ acerta e erra como ‘Sopranos de moto’

Onde 'Filhos da Anarquia' acerta e erra como 'Sopranos de moto'

Kurt Sutter nunca escondeu que ‘Filhos da Anarquia’ devia muito a ‘Os Sopranos’. Jackson ‘Jax’ Teller é um líder de organização criminal questionando seu papel no ‘negócio de família’, preso entre lealdade ao clube e desejo de uma vida melhor para os filhos. A estrutura é quase idêntica. Charlie Hunnam inclusive carrega a série com uma performance física que lembra James Gandolfini — um homem grande, ameaçador, cuja vulnerabilidade aparece nos momentos mais inesperados.

O problema é escala e tom. Onde ‘Os Sopranos’ era microscópico em sua atenção a detalhes — uma conversa no consultório de Melfi revelava mais sobre Tony do que tiroteios inteiros — ‘Filhos da Anarquia’ preferiu o melodrama expansivo. Conspirações sobre conspirações, mortes chocantes por choque, violência que servia mais ao espetáculo do que ao desenvolvimento de personagem. Jax é um protagonista fascinante, mas a série ao seu redor frequentemente confundiu ‘mais’ com ‘melhor’. Disponível na Disney+ no Brasil.

‘Boardwalk Empire’ e o peso da história

Terence Winter, roteirista de ‘Os Sopranos’, criou ‘Boardwalk Empire’ com pedigree impecável. Martin Scorsese dirigiu o piloto. Steve Buscemi lidera o elenco como Enoch ‘Nucky’ Thompson, um político-contrabandista na Atlantic City da Lei Seca. A produção é impecável, os figurinos e cenários recriam uma época com precisão quase obsessiva.

Então por que a série nunca alcançou o impacto cultural de sua predecessora? Porque ‘Boardwalk Empire’ é vítima de seu próprio escopo. Nucky Thompson é um homem público por definição — suas maquinações políticas ocupam tanto espaço quanto sua vida pessoal. A intimidade do consultório de Melfi, as cenas de jantar em casa dos Soprano, o senso de que estamos vendo vida privada de pessoas públicas — tudo isso se dissolve na grandiosidade do período histórico. É excelente televisão (disponível na HBO Max), mas funciona mais como épico de época do que como estudo íntimo de personagem.

‘Godfather of Harlem’ e ‘Tulsa King’: quando copiar não é o caminho

'Godfather of Harlem' e 'Tulsa King': quando copiar não é o caminho

Algumas produções na lista de séries parecidas com Os Sopranos merecem destaque por terem reconhecido que replicar a fórmula era impossível — e escolhido seguir seus próprios caminhos. ‘Godfather of Harlem’ usa Forest Whitaker como Bumpy Johnson em uma abordagem histórica que mistura crime com movimento dos direitos civis. A perspectiva do submundo negro de Nova York nos anos 1960 oferece algo que ‘Os Sopranos’ nunca poderia: um olhar sobre a máfia italiana de fora, das comunidades que sofriam sob seu controle.

‘Tulsa King’ é ainda mais interessante como subversão. Sylvester Stallone interpreta Dwight Manfredi, um capo enviado para Oklahoma após 25 anos na prisão. Em vez de drama familiar denso, a série opta por peixe-fora-d’água criminoso — quase uma comédia de costumes sobre máfia no interior americano. Funciona precisamente porque não tenta ser ‘Os Sopranos’. Disponível na Paramount+.

‘Gomorrah’ e o realismo brutal que Tony Soprano nunca permitiu

Se existe uma série que poderia ter preenchido o vazio de ‘Os Sopranos’, é a italiana ‘Gomorrah’. Baseada no livro de Roberto Saviano, foca na Camorra napolitana — a máfia da ‘terra-mãe’, não da diáspora americana. A disputa entre velha guarda e novos aspirantes após a prisão do líder da família Savastano cria um vácuo de poder que gera tensão constante.

O problema para fãs de ‘Os Sopranos’ é de tom, não de qualidade. ‘Gomorrah’ é brutalmente realista — não há espaço para humor negro, para ternura inesperada, para as contradições que faziam Tony fascinante. Os personagens são produtos de um ambiente onde a sobrevivência exige brutalidade constante. É um retrato poderoso do crime organizado italiano contemporâneo (disponível na HBO Max), mas falta a camada de humanidade que David Chase insistiu em manter em sua criação.

‘Terra da Máfia’ e o fixer sem lealdade

A produção londrina ‘Terra da Máfia’ oferece outra variação interessante: Tom Hardy como Harry Da Souza, um ‘solucionador’ preso entre duas famílias criminosas rivais em Londres. A premissa permite exploração de moralidade cinzenta — Harry não é leal a ninguém exceto seu dever profissional, uma inversão completa da obsessão de Tony Soprano por ‘família’ acima de tudo.

A série funciona melhor quando explora essa ausência de lealdade como comentário sobre o mundo criminal moderno. Os Harrigan e os Stevenson não são famílias no sentido italiano-americano — são corporações violentas disfarçadas de dinastias. Harry, entre eles, representa o profissionalismo desapegado que Tony nunca conseguiu atingir. É uma abordagem fascinante, disponível na Paramount+, mas deliberadamente fria.

‘Top Boy: Summerhouse’ e o crime como armadilha social

À primeira vista, ‘Top Boy: Summerhouse’ parece pertencer a outro universo completamente. Drama britânico sobre tráfico de drogas em conjuntos habitacionais londrinos não tem nada da estética máfia-italiana de ‘Os Sopranos’. Mas examine os temas centrais: personagens presos em vidas criminosas por circunstância, não por escolha genuína; um senso de fatalidade que permeia cada decisão; a ideia de que ‘família’ pode significar tanto proteção quanto prisão.

A diferença fundamental está na escala. ‘Top Boy’ opera no nível de rua — pequenos traficantes, territórios medidos em quarteirões, ambições limitadas pela realidade econômica brutal. Tony Soprano operava em escala regional, com conexões políticas e policiais. A série, disponível na Netflix, captura a tragédia da criminalidade como estrutura social, mas carece da tensão doméstica íntima que definia ‘Os Sopranos’.

O caso curioso de ‘Lilyhammer’

O caso curioso de 'Lilyhammer'

Nenhuma série ilustra melhor o peso do legado de ‘Os Sopranos’ do que ‘Lilyhammer’. Steven Van Zandt, o Silvio Dante da série original, protagoniza como Frank Tagliano — um mafioso de Nova York que entra no programa de proteção a testemunhas e se muda para a Noruega. Era a primeira produção original da Netflix, um marco histórico que deveria ter lançado a plataforma como força em conteúdo original.

O problema? Van Zandt era tão associado a Silvio que o público foi esperando uma extensão do universo de ‘Os Sopranos’. ‘Lilyhammer’ é uma comédia de peixe-fora-d’água, leve e absurdista, sobre um americano rude tentando se adaptar à cultura escandinava. Funciona nos próprios termos, mas nunca escapou da sombra de sua predecessora. Ver o ator que interpretou o braço-direito de Tony em uma comédia norueguesa causava dissonância cognitiva demais para fãs buscando continuação espiritual.

O vazio permanece — e isso é bom

Depois de analisar cada candidata, a conclusão é clara: nenhuma série preencheu o vazio deixado por ‘Os Sopranos’ porque o vazio é inoccupável por definição. David Chase criou algo que dependia de um momento específico da televisão, de um ator singular em James Gandolfini, e de uma disposição para frustrar expectativas que poucos showrunners tiveram coragem de emular.

As séries mais interessantes desta lista — ‘Peaky Blinders’, ‘Gomorrah’, ‘Animal Kingdom’ — são aquelas que reconheceram que replicar ‘Os Sopranos’ era impossível e escolheram encontrar suas próprias vozes. As que tentaram mais diretamente copiar a fórmula frequentemente produziram trabalhos competentes mas esquecíveis. Se você busca séries parecidas com Os Sopranos, encontrará muitas que compartilham elementos — crime, família, moralidade cinzenta. Mas não encontrará nenhuma que combine esses elementos na proporção exata que fazia a obra de Chase única.

Talvez seja hora de aceitar que alguns vazios não devem ser preenchidos. ‘Os Sopranos’ permanece irrepetível não por falta de tentativas, mas porque sua irrepetibilidade era parte do ponto. Tony Soprano era um homem preso entre mundos que não podiam se reconciliar. A série que o criou permanece, apropriadamente, presa entre gêneros que raramente se encontram tão perfeitamente quanto naquelas seis temporadas.

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Perguntas Frequentes sobre séries parecidas com Os Sopranos

Qual série mais se aproxima de Os Sopranos?

‘Peaky Blinders’ é a que mais conscientemente emula a estrutura de ‘Os Sopranos’ — líder de clã criminal, dinâmica familiar complexa, protagonista atormentado. Mas Thomas Shelby se torna quase heróico, enquanto Tony Soprano permanece pateticamente humano. A mais próxima em qualidade é ‘Gomorrah’, mas opera em tom mais brutal.

Onde assistir Os Sopranos?

‘Os Sopranos’ está disponível na HBO Max no Brasil. Todas as seis temporadas podem ser assistidas na plataforma, com opção de áudio original em inglês ou dublagem em português.

Quantas temporadas tem Os Sopranos?

‘Os Sopranos’ tem 6 temporadas, totalizando 86 episódios exibidos entre 1999 e 2007. A sexta temporada foi dividida em duas partes de 12 episódios cada.

Por que Os Sopranos é considerado revolucionário?

‘Os Sopranos’ revolucionou a televisão ao tratar o crime organizado como pano de fundo para um estudo de família disfuncional, não o contrário. A série trouxe complexidade psicológica, ambiguidade moral e narrativa serializada que influenciou toda a ‘Era de Ouro’ da TV que se seguiu.

Os Sopranos tem final aberto?

Sim. O final de ‘Os Sopranos’ é um dos mais debatidos da história da TV. O episódio ‘Made in America’ termina com um corte para tela preta no meio de uma cena familiar em um restaurante, deixando o destino de Tony Soprano intencionalmente ambíguo — uma escolha que David Chase nunca explicou definitivamente.

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Marina Souza
Marina Souza
Oi! Eu sou a Marina, redatora aqui do Cinepoca. Desde os tempos de criança, quando as tardes eram preenchidas por maratonas de clássicos da Disney em VHS e as noites por filmes de terror que me faziam espiar por entre os dedos, o cinema se tornou um portal para incontáveis realidades. Não importa o gênero, o que sempre me atraiu foi a capacidade de um filme de transportar, provocar e, acima de tudo, contar algo.No Cinepoca, busco compartilhar essa paixão, destrinchando o que há de mais interessante no cinema, seja um blockbuster que domina as bilheterias ou um filme independente que mal chegou aos circuitos.Minhas expertises são vastas, mas tenho um carinho especial por filmes que exploram a complexidade da mente humana, como os suspenses psicológicos que te prendem do início ao fim. Meu objetivo é te levar em uma viagem cinematográfica, apresentando filmes que talvez você nunca tenha visto, mas que definitivamente merecem sua atenção.

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