O vazio deixado por ‘GLOW’: por que o cancelamento da Netflix envelheceu mal

Seis anos após o cancelamento abrupto de ‘GLOW’, analisamos por que a decisão da Netflix envelheceu mal — da hipocrisia sobre intervalos entre temporadas ao vácuo que nenhuma série preencheu desde então.

Em outubro de 2020, a Netflix cancelou ‘GLOW’ quando a quarta e última temporada já estava parcialmente filmada. Seis anos depois, a decisão permanece como um dos erros mais difíceis de engolir da era do streaming — não apenas pelo que perdemos, mas pelo que a escolha revelou sobre prioridades da plataforma.

Como alguém que acompanhou a série desde o lançamento em 2017, vi a Netflix transformar-se de “terra das segundas chances” — o lugar que salvou ‘The Killing’ e ‘Arrested Development’ — em executora de obras originais. ‘GLOW’, criada por Liz Flahive e Carly Mensch, foi vítima dessa transição.

Por que ‘GLOW’ era insubstituível — e a Netflix sabia disso

Por que 'GLOW' era insubstituível — e a Netflix sabia disso

A série nascia de uma premissa que poderia facilmente descarrilar: mulheres lutando wrestling nos anos 1980. No papel, soa como exploração barata. Na execução, tornou-se algo que nenhum outro show fez desde então — uma comédia dramática sobre amizade feminina, identidade, racismo institucional e sexismo na indústria do entretenimento, tudo embalado em spandex e power bombs.

O que tornava ‘GLOW’ única não era apenas seu elenco diverso — era a forma como a série usava o wrestling como metáfora. A cena em que Debbie (Betty Gilpin) confronta Ruth (Alison Brie) no ringue não era apenas uma luta coreografada. Era anos de amizade traída, inveja profissional e ressentimento pessoal canalizados em um espetáculo físico. A câmera segurava o plano. O público no ringue era real. E a tensão entre as duas atrizes transformava o que poderia ser “comédia sobre wrestling” em algo mais próximo de um duelo shakespeariano.

A série também fazia algo que a maioria dos shows com elenco feminino evita: tratava suas personagens como pessoas completas, não arquétipos. Sheila (Gayle Rankin) não era apenas “a mulher com dismorfia” — ela atravessava uma crise existencial sobre quem queria ser, usando o wrestling como forma de se reinventar. Arthie (Sunita Mani) lidava com a apropriação cultural de sua própria identidade, forçada a interpretar um estereótipo racista porque “era isso ou nada”.

Não era perfeita. A terceira temporada mostrou fissuras quando seis membros do elenco escreveram à Netflix apontando que personagens não-brancos estavam sendo deixados de lado. A diferença: a série estava ciente o suficiente para ouvir. A quarta temporada prometia corrigir o curso. Nunca tivemos a chance de ver.

O cancelamento que a pandemia justificou — mas não explicou

A cronologia é direta. Em 2019, a quarta temporada foi anunciada como final. As filmagens começaram em fevereiro de 2020. Um mês depois, o mundo parou. Em outubro, a Netflix puxou o gatilho.

A justificativa oficial era compreensível: uma série sobre wrestling exige contato físico constante. Elenco e equipe viviam literalmente agarrados uns aos outros. Em 2020, isso era impossível. Alison Brie chamou o cancelamento de “o grande coração partido da minha carreira” — não era apenas um emprego perdido, era uma história interrompida no meio da frase.

Mas aqui está onde a decisão envelheceu mal: a Netflix considerou trazer a série de volta em 2022, mas decidiu que dois anos de intervalo seria muito tempo. Dois anos. Em 2026, ‘Stranger Things’ passa mais tempo entre temporadas do que ‘GLOW’ teria esperado. ‘The Last of Us’ levou dois anos entre a primeira e segunda temporada. A plataforma que cancelou uma série pela “longa pausa” agora normaliza intervalos equivalentes ou maiores.

A discrepância é difícil de ignorar. Shows com orçamentos massivos e elencos estrelares ganham tempo infinito para retornar. Uma série sobre mulheres, diversidade e wrestling — com orçamento modesto e elenco predominantemente feminino — não mereceu o mesmo investimento. A matemática do streaming sempre foi fria, mas raramente foi tão explícita.

O vácuo que nenhuma série preencheu

O vácuo que nenhuma série preencheu

Seis anos depois, o argumento central deste artigo se confirma com uma evidência triste: nenhum show surgiu para ocupar o lugar de ‘GLOW’. Existem comédias sobre mulheres. Existem dramas sobre amizade feminina. Existem séries sobre esporte. Mas nada que combine os três elementos com a mesma química orgânica.

Parte disso é estrutural. O streaming se tornou viciado em “conteúdo de fundo” — séries que você assiste enquanto mexe no celular. ‘GLOW’ não funcionava assim. Exigia atenção. As lutas eram coreografadas com precisão, mas o que acontecia nos bastidores importava tanto quanto o que ocorria no ringue. A série confiava que o público se importaria com personagens complexos, não apenas com hooks sensacionalistas.

Os números comprovam: 94% de aprovação crítica na primeira temporada, subindo para 98% na segunda. A audiência acompanhou — 90% e 91% respectivamente. Mesmo a terceira temporada, considerada mais fraca, mantinha 87% dos críticos e 78% do público. São números que a maioria dos shows atuais mataria para ter — e que a Netflix ignorou.

O que perdemos — e o que isso diz sobre o streaming

Quando uma série termina naturalmente, você lamenta a despedida mas agradece pela jornada completa. ‘GLOW’ nos deu três temporadas de televisão que merecia existir — e uma quarta temporada que existiu apenas em potencial. As atrizes já tinham filmado parte do material. Os roteiros estavam escritos. O final estava lá, esperando para ser realizado.

Fãs tentaram reverter a decisão. Uma campanha #SaveGLOW reuniu assinaturas. O elenco se manifestou publicamente. Não adiantou. A pandemia foi o pretexto, mas a decisão foi da Netflix — e revelou algo sobre prioridades que seis anos de distância só confirmaram.

Enquanto a plataforma gasta centenas de milhões em franquias que ninguém pediu, ‘GLOW’ permanece como um lembrete do que o streaming costumava ser: um lugar onde histórias estranhas, específicas e profundamente humanas podiam existir. Se você tem assinatura Netflix, assista às três temporadas. Não porque vai mudar sua vida — embora possa. Mas porque é a única forma de votar com sua atenção. Mostrar que existe público para histórias que não precisam de orçamento de blockbuster para importar.

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Perguntas Frequentes sobre o cancelamento de GLOW

Por que GLOW foi cancelada pela Netflix?

A Netflix cancelou ‘GLOW’ em outubro de 2020, alegando dificuldades logísticas causadas pela pandemia de COVID-19. A série exigia contato físico constante entre o elenco, o que era inviável em 2020. A decisão foi definitiva mesmo após a pandemia, com a plataforma citando o “longo intervalo” como fator — ironicamente, a mesma Netflix agora normaliza pausas de 2-4 anos entre temporadas de outras séries.

Quantas temporadas GLOW teve?

‘GLOW’ teve 3 temporadas completas, lançadas entre 2017 e 2019. A quarta temporada foi anunciada como a última e já estava parcialmente filmada quando foi cancelada. Os roteiros estavam completos, mas nunca foram produzidos.

GLOW é baseado em história real?

Sim e não. ‘GLOW’ é inspirada no programa real “Gorgeous Ladies of Wrestling” (GLOW), que existiu de 1986 a 1990. Porém, as personagens e tramas da série são fictícias. O show original foi criado por David B. McLane e apresentava mulheres em lutas de wrestling com personagens estereotipados.

Onde assistir GLOW em 2026?

‘GLOW’ permanece disponível exclusivamente na Netflix. As três temporadas completas podem ser assistidas na plataforma. Não há previsão de migração para outros serviços de streaming.

O elenco de GLOW filmou alguma cena da 4ª temporada?

Sim. As filmagens da quarta temporada começaram em fevereiro de 2020 e foram interrompidas em março devido à pandemia. Parte do material foi gravado, mas a Netflix nunca divulgou o que foi filmado. Os roteiros completos da temporada final existem, mas permanecem inéditos.

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Lucas Lobinco
Lucas Lobinco
Sou o Lucas, e minha paixão pelo cinema começou com as aventuras épicas e os clássicos de ficção científica que moldaram minha infância. Para mim, cada filme é uma nova oportunidade de explorar mundos e ideias, uma janela para a criatividade humana. Minha jornada não foi nos bastidores da produção, mas sim na arte de desvendar as camadas de uma boa história e compartilhar essa descoberta. Sou movido pela curiosidade de entender o que torna um filme inesquecível, seja a complexidade de um personagem, a inovação visual ou a mensagem atemporal. No Cinepoca, meu foco é trazer uma perspectiva única, mergulhando fundo nos detalhes que fazem um filme valer a pena, e incentivando você a ver a sétima arte com novos olhos.Tenho um apreço especial por filmes de ação e aventura, com suas narrativas grandiosas e sequências de tirar o fôlego. A comédia de humor negro e os thrillers psicológicos também me atraem, pela forma como subvertem expectativas e exploram o lado mais sombrio da psique humana. Além disso, estou sempre atento às novas vozes e tendências que surgem na indústria, buscando os próximos grandes talentos e as histórias que definirão o futuro do cinema.

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